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Cinema A platéia
negra "família" vai em peso ver
Os americanos que ignoram a existência de Perry são, em geral, brancos; os que o adoram são invariavelmente negros de classe média, que freqüentam o culto aos domingos, ligados em valores familiares. Estão fora do modelo branco de ascensão social e fora também da cultura hip hop. Como essas são as duas únicas categorias que Hollywood aprendeu a reconhecer, o segmento "família" da platéia negra vive à míngua no que toca ao entretenimento. Ou vivia, até o advento de Perry e de seu alter ego, a vovó linha-dura Madea, que ele interpreta com peruca, óculos imensos e muito enchimento por baixo do vestidão. Não é espantoso que a popularidade de Perry seja tão segmentada, ou que a crítica costume ignorá-lo. Primeiro, porque o que ele quer é falar primordialmente a essa parte desprezada da platéia; segundo, porque seus filmes beiram mesmo o rudimentar. Diário de uma Louca, sobre uma mulher que pega o marido rico pulando a cerca a criação com que Perry se lançou e a única que chegou ao circuito brasileiro , combinava escracho, drama de novela, sermão moral e melaço em proporções que faziam os dentes ranger. O inesperado é que ele ainda enfrente a indiferença dos estúdios. Embora venha melhorando seus elencos, Perry não gasta mais que 5 ou 6 milhões em cada produção, tirados do seu bolso, e fatura no mínimo dez vezes mais. Nunca foi chamado sequer para uma conversa com um grande produtor. Naquelas que requisitou, deparou sempre com a mesma pergunta: "Então, quem é você e o que faz?". Aos 38 anos, solteiro e viciado em trabalho, Perry deixou para trás uma infância violenta e uma juventude como sem-teto para construir um pequeno império. Às vezes retorna às paisagens de seus piores dias, para não se esquecer de onde veio e garantir que não vai deixar que nada breque sua trajetória fulminante. É amigo da apresentadora Oprah Winfrey, que teve uma trajetória muito semelhante à sua na vida, e ambiciona montar um canal de televisão, no qual sua legião de admiradores possa encontrar "reforço positivo" 24 horas por dia. Só falta uma coisa a Perry: que descubram que o fenômeno não é ele, mas o público que ele representa. E que, inexplicavelmente, continua fora do radar.
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