A revista Interesse
Nacional convida pensadores
de todos os matizes políticos a discutir o país
Ricardo Stuckert/PR
O presidente Lula com outros chefes
de estado: o interesse nacional ainda não está no vocabulário
político brasileiro
Embaixador
do Brasil nos Estados Unidos durante cinco anos, Rubens Barbosa
sempre se impressionava com a freqüência com que
o tema do interesse nacional aparecia nos debates políticos
americanos. "Com o governo Bush, isso mudou muito. Mas,
antes, as questões de interesse nacional sempre foram
consideradas bipartidárias. Estavam acima da ideologia",
diz Barbosa. De volta ao Brasil em 2004, já aposentado
do Itamaraty, o ex-embaixador constatou que a expressão
quase não comparece nas conversas políticas por
aqui. Fala-se eventualmente em "projetos" para o Brasil,
mas os homens públicos brasileiros não costumam
se perguntar quais são os interesses da nação
no cenário mundial. É para corrigir essa lacuna
que Barbosa agora lança Interesse Nacional, revista
cujo primeiro número chega às bancas nesta semana.
Com freqüência trimestral, a publicação
trará artigos sobre temas como política externa,
economia, meio ambiente e direitos humanos.
Rogério Montenegro
Rubens Barbosa: inspiração americana
O texto de apresentação do primeiro número
observa que a discussão do interesse nacional se fará
pelo "contraste de pontos de vista diferentes": "A
revista não defenderá esta ou aquela visão.
Não promoverá convergências de opiniões".
Fiel a esse espírito plural, o conselho editorial da
publicação é bastante eclético:
inclui, por exemplo, André Singer, ex-secretário
de Imprensa e porta-voz do governo Lula, e o ex-governador de
São Paulo Cláudio Lembo, do DEM, além de
cientistas sociais como Demétrio Magnoli. O conteúdo
editorial do primeiro número é igualmente variado
e traz ensaios do jurista Joaquim Falcão sobre as relações
entre os poderes Executivo e Judiciário e do embaixador
Everton Vargas sobre as posições brasileiras a
respeito das mudanças climáticas mundiais. O ex-presidente
da Radiobrás Eugênio Bucci discute a televisão
pública brasileira, e o especialista em educação
Claudio de Moura Castro, colunista de VEJA, analisa prós
e contras de uma possível internacionalização
do ensino superior no país. O mais interessante da revista,
porém, são os confrontos. Os economistas Gustavo
Franco, ex-diretor do Banco Central e um dos pais do Real, e
Luiz Gonzaga Belluzzo, que integrou a equipe do cruzado, apresentam
visões divergentes sobre o "consenso econômico"
brasileiro. O próprio ex-embaixador Rubens Barbosa escreve
um artigo muito crítico em relação aos
equívocos ideológicos que orientam a política
externa do Brasil na América do Sul enquanto o
assessor da Presidência da República Marco Aurélio
"top top top" Garcia, como era de esperar, defende
a aproximação com o desvairado Hugo Chávez.