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Edição 2055

9 de abril de 2008
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Brasil
Dinheiro devolvido

Amigo do presidente Lula é condenado
a ressarcir os cofres públicos


Diego Escosteguy

Ana Araujo
Mauro Dutra: sua entidade recebeu recursos para treinar trabalhadores, mas não treinou

Há quase quatro anos, uma reportagem de VEJA revelou os detalhes de uma investigação do Ministério Público do Distrito Federal sobre as contas da ONG Ágora, entidade ligada ao PT e dirigida pelo empresário Mauro Dutra, amigo do presidente Lula. Documentos apreendidos mostravam que a ONG, fundada em 1993, dominava uma tecnologia de fraude que ficou muito conhecida nos últimos tempos: o uso dos pobres como isca para desviar dinheiro público. As ONGs recebem milhões do governo para ajudar comunidades carentes, simulam serviços, justificam gastos inexistentes com notas fiscais frias e somem com o dinheiro. A Ágora, criada por um influente grupo de petistas, seguia o mesmo roteiro. Na teoria, dedicava-se a organizar cursos de capacitação para trabalhadores. Ao examinarem notas fiscais frias e ouvirem funcionários da ONG, os promotores constataram que a entidade tinha uma imensa capacidade de sumir com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). O Ministério Público pediu, então, à Justiça que Mauro Dutra devolvesse 900 000 reais desviados. Como sempre, sobrevieram os previsíveis desmentidos, as chicanas jurídicas, e os anos se passaram – mas eis que, em setembro de 2007, sem alarde, a Justiça finalmente reconheceu a fraude e condenou em última instância o amigo de Lula.


Fotos Ana Araujo e Silvana Graça
O empresário, que já emprestou a casa e o avião ao presidente, pode ter os bens bloqueados pela Justiça como forma de garantir o ressarcimento de 1,8 milhão

Dutra não é um amigo qualquer do presidente, que o chama carinhosamente de Maurinho. Maurinho já recebeu Lula para uma temporada em sua casa de veraneio, na cidade litorânea de Búzios, e costumava emprestar seu avião, um King Air, para transportar o então apenas potencial candidato a presidente Lula em viagens pelo país. Maurinho também arrecadou dinheiro para o petista na campanha de 2002. Nos próximos dias, Dutra será notificado da decisão judicial. Ele terá duas semanas para depositar em juízo cerca de 1,8 milhão de reais – valor corrigido dos desvios. Na semana passada, o Ministério Público remeteu à Justiça a lista de bens do empresário, que irão à penhora caso Dutra se recuse a pagar a quantia estipulada. Ele ainda pode recorrer do valor cobrado, mas a condenação sobre as fraudes é definitiva. A Justiça também determinou que o dinheiro devolvido seja investido numa entidade que ofereça aulas de verdade a trabalhadores. Observando-se a relação de entidades suspeitas de desviar dinheiro público investigadas pela CPI das ONGs, será uma missão difícil.



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