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Entrevista:
Madeleine Albright
"Ainda somos indispensáveis"
A ex-secretária
de Estado americana diz que os erros
de Bush minaram a força moral dos Estados Unidos,
mas que o país ainda é vital para a paz no mundo

Chico Mendez, de Washington
Nascida Marie Jana
Korbel, em Praga, hoje capital da República Checa, Madeleine
Albright se tornou a primeira mulher a chefiar o Departamento
de Estado americano, entre 1997 e 2001. A atual secretária,
Condoleezza Rice, foi aluna de seu pai, Josef Korbel. "Madam
Secretary", como ainda é chamada, acaba de publicar
seu terceiro livro, Memo to the President Elect (Notas
ao Presidente Eleito). Nele, Albright relaciona os desafios
colocados ao próximo político a ocupar a Casa
Branca e dá conselhos sobre como eles podem ser superados.
"Talvez a próxima Presidência seja uma das
mais difíceis da história", prevê.
Aos 70 anos, a ex-secretária é uma das principais
formuladoras da política externa do Partido Democrata,
dá consultoria a empresas e ensina relações
exteriores na Universidade de Georgetown, em Washington. Ela
se orgulha de sua rotina de exercícios, que lhe permite
levantar 90 quilos com as pernas nas sessões de musculação.
Veja
O que a motivou a escrever um livro de conselhos ao futuro
presidente americano?
Madeleine Albright A próxima Presidência
talvez seja uma das mais difíceis da história.
Precisaremos de um líder que conheça os limites
do poder que a Casa Branca pode exercer, de um presidente que
saiba qual é o verdadeiro papel dos Estados Unidos.
Veja
A gestão do presidente Bush se enquadra nesse perfil?
Albright A administração atual
aumentou o poder da Presidência sobre várias áreas
de uma forma com a qual não concordo. Exemplos disso
são as questões ligadas às liberdades individuais,
como as interceptações telefônicas sem autorização
judicial. A Guerra do Iraque, os abusos nas prisões de
Guantánamo e de Abu Ghraib são equívocos
que devemos corrigir.
Veja De
que forma esses equívocos prejudicam os Estados Unidos?
Albright Já trabalhei para dois presidentes
(Jimmy Carter e Bill Clinton). Sei bem o que é
representar os Estados Unidos e aprendi que boa parte do poder
da América depende de nossa autoridade moral. Acontece
que essa autoridade foi duramente atingida pelos erros da administração
atual.
Veja Como
eles podem ser corrigidos?
Albright É preciso olhar para o futuro.
Acho que a primeira coisa a fazer é examinar qual será
o poder do presidente americano no século XXI, como ele
deve ser usado, quais são seus limites, seus desafios
e as oportunidades que a Presidência pode trazer para
o país. Os Estados Unidos são um país excepcional,
repleto de virtudes, mas não podemos acreditar que nossas
virtudes nos dão carta-branca para fazer no mundo tudo
o que acharmos certo.
Veja A
senhora defende a candidatura da senadora Hillary Clinton. Ela
se enquadra no perfil de presidente que a senhora descreve?
Albright Hillary tem uma visão
bastante apropriada de qual deve ser o papel dos Estados Unidos
no mundo. Ela já deixou claro que não aceita a
divisão entre realismo e idealismo na política.
A senadora defende a idéia de que os Estados Unidos devem
enfrentar seus desafios com uma visão idealista e um
comportamento realista. A maneira como ela enxerga as relações
entre as políticas interna e externa e os aspectos negativos
e positivos da globalização é animadora.
E, claro, seria revolucionário ter uma mulher na Presidência
dos Estados Unidos.
Veja Há
uma diferença substancial entre as propostas de Hillary
Clinton e as de Barack Obama em relação à
política externa?
Albright Ambos divergem em relação
à política externa da gestão Bush e consideram
que é importante conversar com os nossos inimigos. A
diferença é que Obama já disse que se encontraria
com o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad sem impor condições.
Baseada em sua experiência pessoal, Hillary diz que a
negociação não deve começar no nível
presidencial. Ela acredita que o diálogo com o Irã
e a Coréia do Norte precisa ser feito sob condições
preestabelecidas.
Veja Como
se estabelecem essas condições na diplomacia?
Albright Para ficarmos com um exemplo: quando
Bill Clinton era presidente, ele recebeu a visita de um alto
funcionário da Coréia do Norte. Na ocasião,
Clinton foi convidado pelos norte-coreanos para visitar Pyongyang,
mas recusou o convite. Disse que só o aceitaria depois
que sua secretária de Estado fosse convidada. É
assim que deve ser feito.
Veja A
senhora diz que o governo de todos os presidentes americanos
acaba marcado por um tema ou um objetivo. Qual foi o do presidente
Bill Clinton?
Albright Na minha avaliação, o desafio
do presidente Clinton foi conduzir os Estados Unidos depois
de uma década intensa de pós-Guerra Fria. Ele
precisou criar uma estrutura para lidar com os desafios do novo
século. Fez isso usando, primeiro, a diplomacia e a ajuda
econômica, deixando a força em último lugar.
Ele falava muito de uma "ponte" para o século
XXI, e acho que isso marcou os seus dois mandatos.
Veja Qual
foi o tema ou o objetivo do presidente Bush?
Albright Não estava muito claro até
11 de setembro. Na sua primeira campanha presidencial, os assessores
de Bush acreditavam que havia uma presença excessiva
dos Estados Unidos no mundo. Os atentados terroristas mudaram
essa concepção. O objetivo da gestão atual
passou a ser acabar com o terrorismo. Foi aí que surgiu
essa ligação, que ninguém consegue explicar,
entre o Afeganistão e o Iraque.
Veja Clinton
se referia aos Estados Unidos como uma nação indispensável.
O que ele queria dizer com isso?
Albright Que os Estados Unidos devem estar
envolvidos em tudo. Indispensável significa fazer parte
de algo. O presidente acreditava que, para que as coisas acontecessem,
os Estados Unidos precisavam contribuir, com dinheiro, tropas
ou apenas consultando outros países.
Veja Os
questionamentos sobre a liderança americana se tornaram
mais freqüentes depois que começou a guerra contra
o terror. Os Estados Unidos são menos indispensáveis
hoje?
Albright As pessoas criticam a forma como
exercemos o poder, mas o país continua indispensável.
Acabo de voltar do Oriente Médio e da Europa. Lá,
todos acompanham de perto nossas eleições. Essa
excitação prova que as pessoas querem, sim, nossa
liderança. Muitos chegaram a me dizer que os estrangeiros
deveriam ter o direito de votar nos Estados Unidos, porque o
que acontece aqui os afeta diretamente. O que precisamos discutir
é de que forma nós devemos nos engajar.
Veja Quais
são essas formas de engajamento a que a senhora se refere?
Albright Existe a maneira George W. Bush de
tomar decisões unilaterais para atingir os nossos interesses
nacionais. Mas existe a maneira Hillary, pela qual, se eleita
presidente, seremos um parceiro que aceita contribuições
e também contribui para apresentar soluções
aos problemas.
Veja Menos
de 10% dos americanos consideram a América Latina fundamental
para os interesses americanos. Há alguma chance de os
Estados Unidos darem mais atenção à região?
Albright Temos uma relação quase
familiar com a América Latina, com todos os aspectos
positivos e negativos que isso implica. Às vezes, você
não dá a alguém que é de sua família
a mesma atenção que dá a alguém
que tenta impressioná-lo ou a alguém de quem você
tem medo. Acredito que nossas relações serão
mais intensas. É natural que isso aconteça. Há
cada vez mais latino-americanos vivendo aqui, gente falando
espanhol nos Estados Unidos, e o intercâmbio econômico
com a região está aumentando. Mas não há
como negar que os interesses nacionais dos Estados Unidos estão
mudando da Europa para a Ásia.
Veja O
populismo dos presidentes Hugo Chávez, da Venezuela,
Evo Morales, da Bolívia, e Rafael Correa, do Equador,
pode ser uma ameaça para a democracia na América
do Sul?
Albright Não estou muito segura disso.
Não creio que os Estados Unidos devam se preocupar muito
com os perigos que eles representam. Eles representam uma ameaça
para o povo deles. Vejo esse fenômeno como um problema
de consolidação da democracia na região.
Estive na Venezuela várias vezes antes de Chávez
se tornar presidente. Nessas ocasiões, não vi
os líderes venezuelanos preocupados com o bem-estar do
povo. Foi assim que surgiu Chávez, que, depois, acabou
tomando uma série de medidas equivocadas. No Brasil é
diferente. Vejo que o governo se preocupa em promover melhorias
concretas para o povo.
Veja O
governo Bush acertou ao apoiar o ataque às Farc feito
pela Colômbia em território equatoriano?
Albright Estou certa de que o presidente (Álvaro)
Uribe (da Colômbia) está tentando fazer
a coisa correta. As Farc são um grupo terrorista. Mas,
antes de ter uma conclusão definitiva sobre esse episódio,
ainda é preciso saber se são verdadeiros os documentos
que estão sendo apresentados pelo governo colombiano
e se Chávez estava, de fato, dando dinheiro às
Farc para que elas mantivessem suas atividades criminosas.
Veja É
possível reduzir as tensões entre os Estados Unidos
e a América Latina sobre o problema da imigração
ilegal?
Albright As relações entre a
América do Sul e a do Norte são sempre complicadas.
Se os Estados Unidos não dão atenção
à América Latina, dizem que ignoramos nosso próprio
continente. Se damos atenção demasiada, dizem
que interferimos no destino de outros países. A imigração
é um problema muito complexo. Eu mesma sou uma imigrante.
Algumas pessoas deixam seu país por motivos econômicos,
outras por motivos políticos, mas a maioria quer viver
no país onde nasceu por causa dos laços familiares
e da língua.
Veja A
senhora aprova a proposta de construção de um
muro na fronteira com o México para barrar os imigrantes?
Albright Acho que esse tema deve ser tratado
com mais compreensão. É possível achar
um meio para garantir a cidadania americana às pessoas
que já vivem aqui. Mas alguma coisa precisa ser feita
para que as leis de imigração sejam cumpridas.
Veja Qual
é sua avaliação sobre a política
externa brasileira?
Albright A verdade é que o Brasil sempre
quis ser uma potência regional. Acho que os presidentes
(Fernando Henrique) Cardoso e (Luiz Inácio)
Lula (da Silva) querem que o Brasil seja respeitado pelo
seu potencial. Aliás, tenho a maior admiração
pelo ex-presidente Cardoso. Trabalhamos juntos em várias
ocasiões. Ele é uma pessoa admirável.
Veja Um
dos principais objetivos do Brasil é obter um assento
permanente no Conselho de Segurança da ONU. Quais são
as chances de isso acontecer?
Albright Sinceramente, é impossível
responder a essa pergunta. Passei muito tempo tentando aumentar
o Conselho de Segurança, mas ele é como um cubo
mágico: é muito difícil ajustar todos os
interesses envolvidos.
Veja A
senhora dizia que o melhor emprego do mundo é o de secretário
de Estado americano. Sente falta dele?
Albright Claro. Quem disser que está
feliz porque o trabalho como secretário de Estado terminou
estará mentindo. Sempre soube que tudo aquilo iria acabar
rápido, mas adorei tudo o que fiz.
Veja Seu
pai, Josef Korbel, foi professor da secretária de Estado
Condoleezza Rice e a considerava sua melhor aluna. Como acha
que ele avaliaria o trabalho dela?
Albright Por princípio, não
comento a atuação de Condoleezza. Acho que aprendemos
coisas diferentes do meu pai. Mas acredito que ele ficaria muito
orgulhoso pelo fato de ter educado duas mulheres que chegaram
a ser secretárias de Estado.
Veja Qual
foi a lição mais importante que a senhora aprendeu
com ele?
Albright Aprendi a privilegiar o fato de ter
crescido nos Estados Unidos como uma americana livre. Durante
a II Guerra, meus pais e eu moramos na Inglaterra. Naquele tempo,
os ingleses nos perguntavam: "Sinto muito pelo que aconteceu
com o seu país. Vocês são bem-vindos aqui,
mas quando voltam para casa?". Depois, fomos para os Estados
Unidos. Quando chegamos, os americanos nos diziam: "Que
pena que o seu país foi tomado pelos comunistas. O que
podemos fazer por vocês? Quando você vai se tornar
uma americana?". Essa reação dos americanos
me ajudou a compreender o que é uma democracia e quais
são as responsabilidades de um regime democrático.
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