Diretora
do mais famoso curso de moda do mundo, o da Central Saint Martins de Londres,
por onde passaram estilistas geniais como John Galliano, da Dior, e Alexander
McQueen, a inglesa Louise Wilson é famosa pelo conhecimento do assunto
e pelo temperamento mais explosivo que sua cabeleira flamejante. Nesta semana
ela dará palestra num seminário de moda em São Paulo. De
Gana, onde divide uma casa de veraneio com o marido, falou à repórter
Bel Moherdaui.
É possível
formar um estilista de talento? Ou eles já nascem prontos, só precisam
ser descobertos? Acho possível abrir a porta e mostrar o caminho,
mas não é possível fazer a pessoa segui-lo. O que eu vejo
é que, quanto menos talentosos, mais eles se acham deuses, e, quanto mais
talentosos, mais são cheios de insegurança. Por isso, ensinar é
tão importante. Você mostra à pessoa que ela pode confiar
em si mesma.
A senhora bate o olho
num aluno e sabe dizer se ele tem o que precisa para se destacar? A gente
tenta e eu tenho sorte, porque já dei aula a pessoas realmente incríveis
, mas na sala de aula não estamos preocupados se a pessoa é
boa ou não. O meu trabalho é educar os alunos nos mais altos padrões
e ajudá-los a seguir na vida. Alguns são muito capazes, outros menos,
mas certa habilidade todos têm.
McQueen
e Galliano eram bons alunos? Hoje, claro que digo que foram bons alunos.
Mas, se você me perguntasse na época, eu não teria tempo de
avaliar. Trabalho com todo mundo e quero o melhor que cada um pode oferecer. E
se fossem bons não faria diferença, porque não temos um critério
fixo. Não gostamos nem de dar notas na Saint Martins. Aliás, sou
contra o sistema de notas. Prefiro o aluno que tirou zero porque se arriscou àquele
que tirou 80 porque fez o que já sabia. A primeira coisa que os alunos
perguntam quando entram no meu curso é o que eles têm de fazer. Não
sei. Eles têm de se jogar e descobrir o que querem. As pessoas se esquecem
de pensar por si mesmas.
A pergunta
inevitável dos não especialistas quando se fala com uma especialista
em moda: quem usa aquelas coisas que aparecem nas passarelas? Não
faço idéia. Nem tudo o que é mostrado nas passarelas é
produzido. Se fosse, seria muito chato. Aquele é o jeito de o estilista
criar uma imagem forte. É como uma feira de automóveis ou de barcos,
em que são mostrados modelos fabulosos que não vão para as
lojas. Todas as grifes têm perfume, e é isso que as pessoas compram.
Mas, para vender o perfume, é preciso criar uma imagem forte. As roupas
da passarela servem para isso.
Nunca
homem algum disse: "Querida, que Dior lindo", ou "Adorei a sua
bolsa Chloé". Que tipo de autogratificação as mulheres
estão comprando junto com as grifes? Primeiro: esse homem existe,
mas provavelmente é gay. Quanto às mulheres, mais do que nunca elas
controlam seu destino, porque têm dinheiro e poder. Estão cada vez
mais fortes e se vestem para si mesmas. E também para impressionar outras
mulheres.
Quantas bolsas a senhora
tem no armário? Montes. Eu não gasto muito dinheiro com
roupas. Sou pesada e me visto quase que com um uniforme. Por isso, invisto mais
nos complementos. Devo ter umas cinqüenta bolsas.
Dizem
que a senhora é uma orientadora um tanto, digamos, exigente. É Verdade?
Você vai ter de perguntar aos alunos. Eu diria que não sou;
eles provavelmente vão dizer que sou. Mas adoraria que todos me achassem
meiga, simpática, gentil e maravilhosa.
Sempre
se pergunta aos grandes chefs qual é o último prato que gostariam
de comer antes de morrer. Qual é o produto de moda que a senhora compraria
antes de subir ao paraíso dos fashionistas? Se eu estivesse morrendo,
não haveria sentido em comprar nada. Talvez alguma coisa que meu filho
pudesse vender depois. Mas, se você me perguntar qual seria minha última
refeição, eu diria: um filé. Estou louca por um filé.
Mal posso esperar para chegar ao Brasil e comer carne. Estou na África
neste momento e, se tiver de comer mais um prato de massa, vou ter um chilique.