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Edição 1 797 - 9 de abril de 2003
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DVDs

Sex and the City – A Primeira Temporada (Estados Unidos, 1998. Paramount) – Uma das séries mais premiadas e bem escritas da televisão americana (exibida aqui pelo canal pago Multishow), Sex and the City virou sucesso de audiência também por ir direto à jugular de uma certa fatia do público: as trintonas urbanas que não sabem do que têm mais medo, se de ficar sem parceiro ou de encarar um romance sério. Cada um dos doze episódios do DVD duplo explora um aspecto desse dilema, tendo como mote sempre as pesquisas – algumas bem empíricas – que a jornalista Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker) e suas três amigas inseparáveis conduzem sobre o tema. Ver os capítulos de enfiada equivale a uma pequena aula sobre uma arte dificílima que os americanos aprenderam a dominar: a de desenvolver personagens coerentes em apenas 25 minutos de programa por semana.


Warner Bros
Noite Americana: um Truffaut espirituoso


A Noite Americana
(La Nuit Américaine, França/Itália, 1973. Warner) – Leve, cheio de humor e muito generoso com os seus personagens, esse vencedor do Oscar de produção estrangeira é até hoje a melhor definição de um filme sobre um filme. François Truffaut dirige o filme verdadeiro e também interpreta o cineasta que está rodando o fictício Pamela, uma história de amor cuja tolice não parece justificar as dores de cabeça que lhe vem causando. A elegância de Truffaut faz com que essa seja uma daquelas raras comédias que nunca parecem datadas, e o DVD mais do que compensa revisitá-la. Entre os muitos extras – por exemplo, uma cobertura do Festival de Cannes no ano do lançamento de A Noite Americana –, o destaque é uma entrevista com o diretor, tão espirituoso quanto em seus filmes. Curiosidade: o título é o jargão usado para designar o truque que faz com que filmagens feitas de dia pareçam noturnas.

 

LIVROS

Johnny Vai à Guerra, de Dalton Trumbo (tradução de Elza Viany; Relume-Dumará; 228 páginas; 32 reais) – Trumbo foi antes de mais nada um roteirista de talento, responsável pelos scripts de Spartacus e Exodus, entre outros clássicos. Graças a esse romance (que já tivera edição no Brasil nos anos 60), ele também inscreveu seu nome na literatura americana do século XX. O protagonista é um soldado que, na I Guerra Mundial, perde todos os membros e todos os sentidos. O livro registra os pensamentos do jovem sobre o horror da guerra, e seu desejo angustiado de conseguir expressá-los na condição em que se encontra. Trumbo lançou o livro originalmente em 1939, no começo da II Guerra Mundial, e fez questão de reeditá-lo durante a Guerra do Vietnã. Deixando marcado, assim, o propósito do livro de ser um veemente (e magistral) libelo pacifista. Leia trechos do livro.

 
Cendrars: amigo de brasileiros  

Morravagin e O Fim do Mundo Filmado pelo Anjo Notre-Dame, de Blaise Cendrars (tradução de Dorothée de Bruchard; Companhia das Letras; 295 páginas; 43 reais) – O poeta e prosador suíço Blaise Cendrars foi um dos grandes nomes da vanguarda literária de língua francesa no começo do século XX. Viajou incansavelmente durante a vida e passou inclusive pelo Brasil, onde se tornou amigo de modernistas como Oswald de Andrade. Algumas páginas de Morravagin, seu mais conhecido romance, foram escritas aqui. Cendrars aparece como narrador e personagem desse livro cheio de truques, que conta a história de um fictício herdeiro do último rei da Hungria: o louco Morravagin, que percorre o mundo no período entre a Revolução Soviética e o final da I Guerra Mundial. Bônus no volume, O Fim do Mundo... é uma narrativa experimental cheia de cortes cinematográficos – os filmes foram outra paixão do polivalente Cendrars.

 

DISCOS

 
Marcia Ramalho
Clara Nunes: cantora com alma  

Para Sempre, Clara Nunes (Som Livre) – Cantora mineira que morreu em 2 de abril de 1983, por causa de complicações numa cirurgia para retirada de varizes, Clara Nunes pertencia a uma classe rara de intérpretes brasileiras. Cantava com a alma um repertório que ia do samba-canção ao afoxé – sem nunca fazer pose de diva como as atuais cantoras "ecléticas". A compilação Para Sempre dá apenas um gostinho do enorme talento de Clara. Faltam, por exemplo, as canções de Nelson Cavaquinho, compositor cujo repertório se destacou na carreira da artista. Em compensação, estão ali sucessos radiofônicos como O Mar Serenou e Morena de Angola. Como a EMI, companhia pela qual Clara Nunes lançou todos os seus discos, não se dignou a recolocar seus álbuns em catálogo, essa compilação vem a calhar.

Diamonds on the Inside, Ben Harper (EMI) – Desde 1994, quando lançou seu disco de estréia, o cantor e guitarrista americano vem seguindo a mesma receita: canções eletroacústicas, que ora soam como um Bob Dylan embebido em soul music, ora lembram o reggae de combate de Bob Marley. Ainda que Harper seja um dos instrumentistas mais criativos de sua geração, seu estilo estava se tornando repetitivo. Diamonds on the Inside, seu quinto CD, traz uma nova face de Harper: a de baladeiro. E isso faz toda a diferença. Animado com a paternidade (ele e a namorada, a atriz americana Laura Dern, são pais de um garoto de 1 ano e 7 meses), o guitarrista trocou as canções de protesto por temas e letras cheios de ternura. O ponto alto dessa faceta é Picture of Jesus, que traz uma participação preciosa do grupo gospel africano Ladysmith Black Mambazo.

 
White Stripes: Pedrita e Page  

Elephant, The White Stripes (Sum) – Imagine se Jimmy Page, lendário guitarrista do Led Zeppelin, montasse uma banda com Pedrita Flintstone. Pois o duo americano White Stripes é quase isso. O vocalista e guitarrista Jack White tem nítidas influências de Page – especialmente nas faixas mais roqueiras –, enquanto a baterista Meg White ataca seu kit de percussão como se estivesse no tempo das cavernas. Elephant não tem momentos de calmaria. São catorze faixas com influências de blues e rock pesado, que agradam tanto à garotada quanto aos fãs das bandas pauleiras dos anos 70. O melhor exemplo é I Just Don't Know What to Do with Myself, balada do compositor Burt Bacharach, que foi virada do avesso em meio a vocais malucos, um acompanhamento tribal e diversos efeitos de guitarra.

   
 

 

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