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Edição 1 797 - 9 de abril de 2003
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Luiz Felipe de Alencastro

Para lá de Bagdá

"Mesmo que os americanos obtenham
vitória rápida no
Iraque, será necessária
a retomada de negociações no Conselho
de Segurança"


Ilustração Ale Setti


Antes de a batalha de Bagdá iniciar-se, já se desenhava a maior incógnita do conflito: como assegurar a paz no Iraque após a queda da ditadura de Saddam Hussein?

Num depoimento no Senado americano, o general Eric Shinseki, chefe do Estado-Maior do Exército, havia advertido que as tensões étnicas, geradoras de novos problemas no teatro iraquiano, tornariam necessária a presença de "centenas de milhares de soldados" para garantir a segurança no país. Outros especialistas acrescentaram que seria necessária uma década para levar a cabo a empreitada. O Pentágono desmentiu o prognóstico e botou o general Shinseki no gelo. Mas a análise salienta o principal furo da estratégia americana: a subestimação dos problemas políticos e diplomáticos engendrados pelo conflito.

Apesar das críticas, o secretário de Defesa Donald Rumsfeld pode argumentar que a ofensiva militar está sendo bem-sucedida. Como comentou o jornal americano The New York Times, que faz parte do campo contrário à guerra, os dois maiores problemas das forças da coalizão foram causados por erros de avaliação política. De fato, a esperança de que a Turquia, em troca de um pacotaço de dólares, facilitaria a abertura de uma frente no norte do Iraque foi contrariada por razões históricas mais profundas. Durante os séculos XIX e XX, o Império Otomano – "o homem doente da Europa", como escreviam os comentadores da época – foi esquartejado por potências que atiçavam as minorias nacionais contra o governo central turco. Instruídos por esse passado turbulento, os generais de Ancara avisaram que só entrariam na guerra se pudessem enviar suas tropas, sob seu próprio comando, para ocupar o Curdistão iraquiano. A recusa americana obrigou a transferência da 4ª Divisão de Infantaria do Mediterrâneo para o Golfo Pérsico. À espera de desembarcar no Kuwait, a divisão só estará operacional no fim de abril. O outro problema militar, a ausência de uma rebelião imediata dos opositores a Saddam Hussein, também foi causado por analistas americanos que acreditaram nos blefes da oposição iraquiana instalada nos Estados Unidos.

Desde o começo, a crise tem sido marcada por erros diplomáticos. Às vésperas do conflito, Colin Powell garantia que uma segunda resolução da ONU, autorizando as hostilidades, obteria maioria no Conselho de Segurança da organização. Não houve nada disso. Os americanos tiveram de ir em frente sem a cobertura da ONU, deixando seus aliados, e em particular Tony Blair ("o refém de Rumsfeld", como o chama o jornal inglês The Guardian), numa posição delicada. Até o Canadá, velho aliado dos EUA e da Inglaterra, resolveu ficar de fora da guerra, peitando as pressões de Washington.

Mesmo que os americanos obtenham uma vitória rápida no Iraque, será necessária a retomada de negociações no Conselho de Segurança. Até porque existe toda uma tranqueira de resoluções e decisões jurídicas internacionais que bloqueiam as transações comerciais e financeiras com o Iraque.

Duas situações se apresentarão no pós-guerra. Na primeira hipótese, um governo exercido pelas forças de ocupação tomará conta do país (como na Alemanha em 1945). Na segunda hipótese, haverá um novo governo iraquiano sob proteção das tropas estrangeiras (como no Afeganistão). Em ambos os casos será preciso o auxílio de outros países para desarmar as resistências que uma ocupação prolongada das forças anglo-americanas não deixará de suscitar no Iraque e no Oriente Médio. Cabe lembrar que a manutenção das tropas americanas na Arábia Saudita desde o fim da primeira Guerra do Golfo contribuiu para o surgimento da Al Qaeda. Foi pensando nisso que o presidente do Egito, Osni Mubarak, exprimiu seu temor: "A guerra criará 100 novos Bin Laden", disse ele na semana passada.

Há ainda uma terceira possibilidade, defendida pelos falcões da Casa Branca e pelo Wall Street Journal: os Estados Unidos podem romper com a ONU e deixar rolar. Aí, bem, aí, seja o que Deus quiser.

Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris – Sorbonne (abomey@uol.com.br)


 
 
   
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