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Luiz
Felipe de Alencastro
Para
lá de Bagdá
"Mesmo
que os
americanos obtenham
vitória rápida no Iraque,
será necessária
a
retomada de negociações no Conselho
de
Segurança"
Ilustração Ale Setti
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Antes de a batalha de Bagdá iniciar-se, já se desenhava
a maior incógnita do conflito: como assegurar a paz no Iraque após
a queda da ditadura de Saddam Hussein?
Num depoimento no Senado americano, o general Eric Shinseki, chefe do
Estado-Maior do Exército, havia advertido que as tensões
étnicas, geradoras de novos problemas no teatro iraquiano, tornariam
necessária a presença de "centenas de milhares de soldados"
para garantir a segurança no país. Outros especialistas
acrescentaram que seria necessária uma década para levar
a cabo a empreitada. O Pentágono desmentiu o prognóstico
e botou o general Shinseki no gelo. Mas a análise salienta o principal
furo da estratégia americana: a subestimação dos
problemas políticos e diplomáticos engendrados pelo conflito.
Apesar das críticas, o secretário de Defesa Donald Rumsfeld
pode argumentar que a ofensiva militar está sendo bem-sucedida.
Como comentou o jornal americano The New York Times, que faz parte
do campo contrário à guerra, os dois maiores problemas das
forças da coalizão foram causados por erros de avaliação
política. De fato, a esperança de que a Turquia, em troca
de um pacotaço de dólares, facilitaria a abertura de uma
frente no norte do Iraque foi contrariada por razões históricas
mais profundas. Durante os séculos XIX e XX, o Império Otomano
"o homem doente da Europa", como escreviam os comentadores da época
foi esquartejado por potências que atiçavam as minorias
nacionais contra o governo central turco. Instruídos por esse passado
turbulento, os generais de Ancara avisaram que só entrariam na
guerra se pudessem enviar suas tropas, sob seu próprio comando,
para ocupar o Curdistão iraquiano. A recusa americana obrigou a
transferência da 4ª Divisão de Infantaria do Mediterrâneo
para o Golfo Pérsico. À espera de desembarcar no Kuwait,
a divisão só estará operacional no fim de abril.
O outro problema militar, a ausência de uma rebelião imediata
dos opositores a Saddam Hussein, também foi causado por analistas
americanos que acreditaram nos blefes da oposição iraquiana
instalada nos Estados Unidos.
Desde o começo, a crise tem sido marcada por erros diplomáticos.
Às vésperas do conflito, Colin Powell garantia que uma segunda
resolução da ONU, autorizando as hostilidades, obteria maioria
no Conselho de Segurança da organização. Não
houve nada disso. Os americanos tiveram de ir em frente sem a cobertura
da ONU, deixando seus aliados, e em particular Tony Blair ("o refém
de Rumsfeld", como o chama o jornal inglês The Guardian),
numa posição delicada. Até o Canadá, velho
aliado dos EUA e da Inglaterra, resolveu ficar de fora da guerra, peitando
as pressões de Washington.
Mesmo que os americanos obtenham uma vitória rápida no Iraque,
será necessária a retomada de negociações
no Conselho de Segurança. Até porque existe toda uma tranqueira
de resoluções e decisões jurídicas internacionais
que bloqueiam as transações comerciais e financeiras com
o Iraque.
Duas situações se apresentarão no pós-guerra.
Na primeira hipótese, um governo exercido pelas forças de
ocupação tomará conta do país (como na Alemanha
em 1945). Na segunda hipótese, haverá um novo governo iraquiano
sob proteção das tropas estrangeiras (como no Afeganistão).
Em ambos os casos será preciso o auxílio de outros países
para desarmar as resistências que uma ocupação prolongada
das forças anglo-americanas não deixará de suscitar
no Iraque e no Oriente Médio. Cabe lembrar que a manutenção
das tropas americanas na Arábia Saudita desde o fim da primeira
Guerra do Golfo contribuiu para o surgimento da Al Qaeda. Foi pensando
nisso que o presidente do Egito, Osni Mubarak, exprimiu seu temor: "A
guerra criará 100 novos Bin Laden", disse ele na semana passada.
Há ainda uma terceira possibilidade, defendida pelos falcões
da Casa Branca e pelo Wall Street Journal: os Estados Unidos podem
romper com a ONU e deixar rolar. Aí, bem, aí, seja o que
Deus quiser.
Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor
titular
da Universidade de Paris Sorbonne (abomey@uol.com.br)
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