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Edição 1 797 - 9 de abril de 2003
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Roberto Pompeu de Toledo

Crise de loucura histórica

Há um cheiro de Vietnã no ar.
Como é que os EUA foram
entrar de novo numa dessas?

Guerra é para correr perigo, mesmo. Quando os gregos se meteram com os troianos, os cartagineses com os romanos ou os alemães com os ingleses, estavam todos comprando brigas de alto risco. Mas esta guerra... Como é que os Estados Unidos foram entrar nela? Esta embute perigos que tornam quase inacreditável que os americanos tenham se engajado nela. Que Saddam Hussein invadisse o Kuwait, doze anos atrás, e achasse que nada lhe iria acontecer, vá lá – ele é louco. Mas que George W. Bush tenha resolvido invadir e ocupar um país árabe, bem no meio da mais explosiva região do mundo, também achando que pode sair não só ileso mas glorificado... Vá lá: ele pode ser louco também. Mas tem a seu lado toda a estrutura do governo, o Congresso, as corporações, os meios de comunicação e 70% da opinião pública. A conclusão do romancista inglês John Le Carré, num artigo escrito ainda antes de a guerra começar, é que os Estados Unidos entraram num período de "loucura histórica".

O risco não está na guerra em si. Esta são favas contadas. Não há dúvida de que os americanos vencerão. Pode ser a um custo maior do que se pretendia em vidas, em tempo e em dinheiro, mas vencerão. Varrerão o regime de Saddam Hussein do mapa e tomarão o poder em Bagdá. Pois aí é que começa a loucura. Repita-se: eles tomarão o poder em Bagdá. Eis algo muito mais extravagante, e insano, do que simplesmente guerrear. Esta não é uma guerra para vencer e retirar-se, como na Bósnia, nem para vencer e manter uma tropa, mas não para administrar o país, como no Afeganistão. É uma guerra projetada para vencer e em seguida governar, como faziam as potências imperialistas ao tempo em que saíam caçando colônias mundo afora.

Na semana passada, à medida que as tropas se aproximavam de Bagdá, o foco começava a recair sobre o sucessor de Saddam, o general da reserva Jay Garner, designado pelo governo americano, já há mais de um mês, para o cargo de administrador civil do Iraque. Garner, arrancado da paz da aposentadoria na Flórida, está no Kuwait, aguardando a hora de entrar em ação. Decidiu-se que ele nomeará doze ministros para trabalhar a seu lado e uns tantos governadores para tomar conta das diferentes regiões do Iraque. Todos americanos. Até aí, ótimo, para o seu lado. O problema é que ele não poderá trazer o povo americano para ser governado. Terá de se contentar com os iraquianos mesmo. E os iraquianos, se já se mostraram menos dóceis do que se desejava, como adversários na guerra, é muito possível que continuem igualmente pouco dóceis como governados.

Por mais americanos que inclua no governo, Garner não poderá preencher todos os postos da burocracia. Iraquianos terão de ser chamados. E aí começa outro problema. Que iraquianos? Em quem confiar, tanto em matéria de lealdade quanto de competência? Além disso, os iraquianos aceitarão integrar o governo? Se aceitarem, não serão vistos como traidores da pátria, vis colaboradores da potência de ocupação? Os problemas aumentam quando se considera a possibilidade, nada longínqua, de operações de guerrilha e terrorismo. O terrorismo já fez sua estréia no episódio em que um homem fingindo pedir ajuda explodiu-se contra um grupo de soldados americanos, matando quatro. Será que, por um incompreensível lapso, um branco mental de estonteantes proporções, os americanos desconsideraram a hipótese de terrorismo, na região do mundo que mais o pratica e mais o exporta? E será que pensam que, uma vez ocupado o país, estarão livres dele? Soa absurdo, mas toda a conversa de "libertação" do Iraque, de levar-lhe a graça da democracia, de em troca ser recebidos como heróis, e blablablás do gênero, sugere que não, não pensaram em terrorismo.

Isso tudo cheira a Vietnã. Os que não gostam dessa comparação argumentam que uma eventual guerrilha, no Iraque, não terá um Vietnã do Norte a lhe proteger as costas, como tiveram os guerrilheiros do Vietcong. É verdade. Os rebeldes iraquianos não terão um só Vietnã do Norte a sustentá-los – mas quatro. É só olhar no mapa. Entre os vizinhos do Iraque incluem-se o Irã, a Arábia Saudita, a Síria e a Jordânia. O Irã e a Síria compartilham regimes hostis aos Estados Unidos e patrocinam movimentos terroristas. A Jordânia tem uma maioria de palestinos na população, inimigos figadais de Israel e, por conseqüência, dos Estados Unidos. A Arábia Saudita ostenta um regime amigo solapado por baixo por um clero radical e um povo inquieto, no meio do qual foi recrutada a maioria dos autores do ataque de 11 de setembro. No momento, é na verdade mais fácil demonstrar que as coisas se encaminham para uma situação do tipo Vietnã do que o contrário. E se isso é verdade, se os Estados Unidos escorregam na direção de repetir uma experiência similar à que lhes custou a mais traumática e mais humilhante de suas muitas experiências guerreiras, é porque realmente atravessam um período de loucura histórica – o pior, segundo o diagnóstico de John Le Carré, que se consegue recordar.

 
 
   
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