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Roberto
Pompeu de Toledo
Crise
de loucura histórica
Há
um cheiro de Vietnã no ar.
Como é que os EUA foram
entrar de novo numa dessas?
Guerra é para correr perigo, mesmo. Quando os gregos se meteram
com os troianos, os cartagineses com os romanos ou os alemães com
os ingleses, estavam todos comprando brigas de alto risco. Mas esta guerra...
Como é que os Estados Unidos foram entrar nela? Esta embute perigos
que tornam quase inacreditável que os americanos tenham se engajado
nela. Que Saddam Hussein invadisse o Kuwait, doze anos atrás, e
achasse que nada lhe iria acontecer, vá lá ele é
louco. Mas que George W. Bush tenha resolvido invadir e ocupar um país
árabe, bem no meio da mais explosiva região do mundo, também
achando que pode sair não só ileso mas glorificado... Vá
lá: ele pode ser louco também. Mas tem a seu lado toda a
estrutura do governo, o Congresso, as corporações, os meios
de comunicação e 70% da opinião pública. A
conclusão do romancista inglês John Le Carré, num
artigo escrito ainda antes de a guerra começar, é que os
Estados Unidos entraram num período de "loucura histórica".
O risco não está na guerra em si. Esta são favas
contadas. Não há dúvida de que os americanos vencerão.
Pode ser a um custo maior do que se pretendia em vidas, em tempo e em
dinheiro, mas vencerão. Varrerão o regime de Saddam Hussein
do mapa e tomarão o poder em Bagdá. Pois aí é
que começa a loucura. Repita-se: eles tomarão o poder em
Bagdá. Eis algo muito mais extravagante, e insano, do que simplesmente
guerrear. Esta não é uma guerra para vencer e retirar-se,
como na Bósnia, nem para vencer e manter uma tropa, mas não
para administrar o país, como no Afeganistão. É uma
guerra projetada para vencer e em seguida governar, como faziam as potências
imperialistas ao tempo em que saíam caçando colônias
mundo afora.
Na semana passada, à medida que as tropas se aproximavam de Bagdá,
o foco começava a recair sobre o sucessor de Saddam, o general
da reserva Jay Garner, designado pelo governo americano, já há
mais de um mês, para o cargo de administrador civil do Iraque. Garner,
arrancado da paz da aposentadoria na Flórida, está no Kuwait,
aguardando a hora de entrar em ação. Decidiu-se que ele
nomeará doze ministros para trabalhar a seu lado e uns tantos governadores
para tomar conta das diferentes regiões do Iraque. Todos americanos.
Até aí, ótimo, para o seu lado. O problema é
que ele não poderá trazer o povo americano para ser governado.
Terá de se contentar com os iraquianos mesmo. E os iraquianos,
se já se mostraram menos dóceis do que se desejava, como
adversários na guerra, é muito possível que continuem
igualmente pouco dóceis como governados.
Por mais americanos que inclua no governo, Garner não poderá
preencher todos os postos da burocracia. Iraquianos terão de ser
chamados. E aí começa outro problema. Que iraquianos? Em
quem confiar, tanto em matéria de lealdade quanto de competência?
Além disso, os iraquianos aceitarão integrar o governo?
Se aceitarem, não serão vistos como traidores da pátria,
vis colaboradores da potência de ocupação? Os problemas
aumentam quando se considera a possibilidade, nada longínqua, de
operações de guerrilha e terrorismo. O terrorismo já
fez sua estréia no episódio em que um homem fingindo pedir
ajuda explodiu-se contra um grupo de soldados americanos, matando quatro.
Será que, por um incompreensível lapso, um branco mental
de estonteantes proporções, os americanos desconsideraram
a hipótese de terrorismo, na região do mundo que mais o
pratica e mais o exporta? E será que pensam que, uma vez ocupado
o país, estarão livres dele? Soa absurdo, mas toda a conversa
de "libertação" do Iraque, de levar-lhe a graça da
democracia, de em troca ser recebidos como heróis, e blablablás
do gênero, sugere que não, não pensaram em terrorismo.
Isso tudo cheira a Vietnã. Os que não gostam dessa comparação
argumentam que uma eventual guerrilha, no Iraque, não terá
um Vietnã do Norte a lhe proteger as costas, como tiveram os guerrilheiros
do Vietcong. É verdade. Os rebeldes iraquianos não terão
um só Vietnã do Norte a sustentá-los mas quatro.
É só olhar no mapa. Entre os vizinhos do Iraque incluem-se
o Irã, a Arábia Saudita, a Síria e a Jordânia.
O Irã e a Síria compartilham regimes hostis aos Estados
Unidos e patrocinam movimentos terroristas. A Jordânia tem uma maioria
de palestinos na população, inimigos figadais de Israel
e, por conseqüência, dos Estados Unidos. A Arábia Saudita
ostenta um regime amigo solapado por baixo por um clero radical e um povo
inquieto, no meio do qual foi recrutada a maioria dos autores do ataque
de 11 de setembro. No momento, é na verdade mais fácil demonstrar
que as coisas se encaminham para uma situação do tipo Vietnã
do que o contrário. E se isso é verdade, se os Estados Unidos
escorregam na direção de repetir uma experiência similar
à que lhes custou a mais traumática e mais humilhante de
suas muitas experiências guerreiras, é porque realmente atravessam
um período de loucura histórica o pior, segundo o
diagnóstico de John Le Carré, que se consegue recordar.
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