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Edição 1 797 - 9 de abril de 2003
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Até a última gota

Como os fãs não esquecem Cazuza,
Renato e Cássia, o negócio é espremer
ao máximo o seu legado musical

Sérgio Martins

Montagem sobre fotos de Jorge Rosemberg/Strana/Fabio Mangabeira
Veja também
Para ouvir: faixas do CD Renato Russo Presente
Galeria de fotos: a carreira do cantor


Alguns artistas desenvolvem uma relação tão estreita com seus fãs que se tornam objeto de culto. Geralmente são pessoas de vida atribulada, que morrem cedo e de forma abrupta, deixando nos admiradores a impressão de que a obra do ídolo está incompleta. Três astros brasileiros integram essa categoria: Cássia Eller, Renato Russo e – num patamar bem inferior – Cazuza. Para as gravadoras, são um filão inesgotável, tanto que elas criaram um ramo de atividade paralelo destinado a saciar essa demanda. Um ramo, diga-se, cada vez mais sofisticado. Já não é mais preciso relembrar o astro que se foi ouvindo canções gravadas em condições sofríveis. Hoje, quando as empresas conseguem garimpar uma dessas faixas esquecidas, usam a tecnologia para – conforme a necessidade – passar uma demão de verniz nelas ou mesmo reformulá-las inteiras, aproveitando apenas a voz do intérprete e regravando todo o acompanhamento musical. A esperança é que essas faixas recauchutadas agradem não apenas ao público cativo do artista, mas também angariem novos adeptos. A tática tem surtido bons efeitos. Lançado no fim do ano, o CD póstumo de Cássia Eller, 10 de Dezembro, vendeu 100.000 cópias. Em breve, será a vez de a obra de Cazuza ressurgir. O produtor Guto Graça Mello irá utilizar uma banda para recriar os hits do cantor – e apelará ainda para um intérprete de voz similar nas faixas em que se pode perceber quanto ele estava debilitado pela Aids.

O líder da categoria, contudo, é incontestavelmente Renato Russo. Foi lançado há pouco Renato Russo Presente, um catadão de raridades e entrevistas do astro. O álbum já bateu a marca das 300.000 cópias. Presente é um híbrido de raspa de tacho e milagres tecnológicos. A maior parte do material é de interesse exclusivo dos fãs mais ardorosos – caso de uma versão caseira de Thunder Road, do roqueiro americano Bruce Springsteen. Apenas três faixas inéditas justificam o lançamento. O produtor Nilo Romero rearranjou Mais uma Vez (que Russo escreveu para o 14 Bis, em 1987), Hoje (composta com Leila Pinheiro) e Boomerang Blues (gravada inicialmente pelo Barão Vermelho, em 1986) a convite da gravadora EMI. Das versões originais, ele manteve somente o piano de Leila Pinheiro e a voz e o violão de Russo. Não é a primeira vez que isso acontece num disco póstumo do cantor. O Último Solo, lançado em 1997, trazia uma música encorpada por instrumentistas de uma orquestra inglesa. A diferença é que, desta vez, Romero recrutou músicos de estúdio para emoldurar a voz do roqueiro com arranjos modernos. Deu certo. Mais uma Vez já está entre as canções mais executadas nas rádios do país.

   
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