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Uma decepção chamada Carandiru

O esquematismo implode o filme
dirigido por Babenco e baseado
no livro de Drauzio Varella

Isabela Boscov

 
Fotos Marlene Bergamo

Policiais reúnem os detentos no pátio: reconstituição do massacre de 1992


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Poucas produções brasileiras recentes geraram tanta expectativa quanto Carandiru (Brasil, 2003), que estréia nesta sexta-feira no país. O filme do diretor Hector Babenco procura transpor para a tela o universo retratado pelo médico Drauzio Varella no seu best-seller Estação Carandiru: um presídio com mais de 7 000 homens amontoados em instalações precárias e que deteve o recorde funesto de ser o maior da América Latina. Parte dessa expectativa é atendida. Rodado na Casa de Detenção de São Paulo, depois de ela ter sido desativada, e também nos estúdios da Vera Cruz, em São Bernardo do Campo, o filme é fotografado com a competência habitual por Walter Carvalho e reconstitui meticulosamente os corredores, celas e até a decrépita cozinha do presídio. Num elenco de quase 150 atores, é natural que houvesse notas dissonantes, e há. Mas, no geral, as atuações ficam entre o bom (por exemplo, Rodrigo Santoro como o travesti Lady Di) e o excelente (Wagner Moura, que interpreta o viciado em crack Zico). Em grande medida, contudo, o filme de Babenco deixa de cumprir os desafios que advêm da adaptação e os que ele próprio se impõe.

Para entender por que isso acontece, é preciso retomar a história de Drauzio Varella. Em 1989, o médico começou a clinicar no Carandiru, onde viu e ouviu coisas a que ninguém mais vindo "de fora" teria acesso. Em 1999, Varella organizou esse material em Estação Carandiru. Usando de nomes fictícios e combinando histórias reais, ele explica a rotina e a organização dos presos e descreve a trajetória pessoal de muitos dos detentos de quem se aproximou. Evidentemente, fala também do massacre de 1992, quando a invasão da Polícia Militar para conter uma rebelião deixou 111 presos mortos – um episódio de destaque na vasta crônica da vergonha nacional. Estação Carandiru não é um relato singular só por ser em primeira mão, mas também por vir de um narrador verdadeiramente suprapartidário. Como médico, Varella deixava os julgamentos na porta de entrada, e essa isenção é a espinha dorsal do livro. O que não significa ausência de espírito crítico. Embora nunca deixe de se assombrar com a subumanidade da vida no Carandiru, em vários momentos Varella confessa seu medo ou sua frustração com as manobras dos presos para manipulá-lo e condói-se do trabalho ingrato dos carcereiros (ao menos daqueles que não se deixaram corromper).

 

Santoro, como Lady Di, com Gero Camilo: quase 150 atores em cena

Livro e filme têm no massacre de 1992 o seu desfecho e clímax, e em ambos também se avisa – ao final – que apenas a versão dos presos para o episódio foi ouvida. Varella, de fato, não tinha nenhuma obrigação de ouvir outras pessoas para seu livro: ele estava relatando uma experiência pessoal. No filme, as coisas funcionam de outro jeito. Carandiru usa tantos pontos de vista diferentes para narrar as histórias dos personagens que se tem a sensação de que tudo o que havia para contar sobre elas foi contado, e ali está a verdade inteira e completa. Mas a sensação é errônea. Como o próprio filme admite (nos seus estertores, enfatize-se), todos esses pontos de vista não passam de um só – o dos presos. Também incomoda, e muito, que o personagem do médico em Carandiru tenha virado um modelo de passividade, capaz de ouvir as maiores barbaridades sem nem piscar, e até com um sorrisinho no rosto. Tudo, por pior que seja, não passa de um "causo".

A intenção de Babenco – e há grande mérito nela – com essa operação é a de inverter o processo de demonização dos detentos e mostrar que a humanidade persiste neles no respeito à família dos companheiros, na preocupação com a higiene e em instaurar códigos de conduta, no passado freqüentemente tumultuado que os levou ao crime e à Detenção. O problema está no trajeto simplificado que o roteiro percorre para chegar a esse objetivo: o da vitimização e, não raro, sentimentalização desses personagens. Na cadeia, corre o ditado, todos são inocentes. Se Carandiru não chega ao ponto de endossar essa máxima, ele reforça uma certa crença de que ninguém, lá, é totalmente culpado. A verdadeira culpa, como na piada, é da sociedade.

Não resta dúvida de que as desigualdades do Brasil são um caldo de cultura para o crime, a ponto de este hoje manter a sociedade em estado de sítio. E não há dúvida também de que este é um país que não sabe o que fazer com os criminosos que consegue condenar, submetidos a um regime que combina paroxismos de relaxo disciplinar e de desumanidade. Convive-se hoje, grosso modo, com duas reações a esse cenário grotesco: a culpa e a conseqüente complacência, e o medo e a conseqüente brutalidade. Ambas as respostas – culpa e medo – vêm se mostrando igualmente prejudiciais. Essa não é uma questão que pertence à esfera emocional, mas à da justiça e dos princípios básicos das sociedades democráticas.


Babenco: a realidade é mais complicada

Filmes não têm de ser úteis. Mas Carandiru parece, sim, querer sê-lo. Nesse caso, talvez fosse melhor que, em vez de mirar nos sentimentos humanitários do espectador, que são incertos, o filme buscasse despertar nele esse outro sentido, o de apego à justiça e civilidade. Achar que a culpa de um criminoso pode ser relativizada por causa do seu passado miserável e da vida cruel da cadeia equivale, de certa forma, a sugerir que ele não teve escolha, ou que nele a desigualdade e o preconceito doeram mais do que nas multidões de pessoas igualmente desprivilegiadas que elegeram permanecer dentro da lei. Outro perigo dessa lógica dos sentimentos é que, uma vez aplicada aos presos, ela teria de ser estendida também aos policiais: eles vêm da mesma camada social, são postos em ação com soldo e preparo escandalosamente deficientes e ostentam um número de baixas quase tão drástico quanto o do crime. Se a questão é perdoar ou ter pena, então, bandidos e policiais mereceriam os mesmos benefícios – até porque são todos filhos do mesmo Estado omisso e irresponsável. E aí teríamos de mandar a sociedade para a cadeia por ter gerado um criminoso e desculpar os agentes do poder constituído por agir como bandidos. Por isso tal raciocínio sentimental é falacioso. Não porque haja algo de errado em ter compaixão – muito pelo contrário –, mas porque ela é uma base insuficiente para conter o caos social.

Essa é a tragédia brasileira: muitas vezes é impossível distinguir vítimas de vilões, já que freqüentemente eles são a mesma pessoa – algo que o documentário Ônibus 174, que aborda o famoso seqüestro de um coletivo no Rio de Janeiro, mostra com precisão admirável. Era essa também, no fundo, a grande revelação de Estação Carandiru, o livro: quase todos aqueles 7.000 homens eram vilões (é preciso dar um desconto para os inevitáveis erros judiciais), e todos eram vítimas. Carandiru simplifica as coisas. Todo o filme não passa, na verdade, de uma preparação para o ato final, que retrata o massacre de 1992 – um momento singular do cotidiano brasileiro, em que os policiais foram indiscutivelmente vilões (estavam armados) e os presos foram tão-somente vítimas (estavam desarmados). Babenco mostra essa exceção como se ela fosse a regra. Seria injusto pedir que um único filme iluminasse na totalidade uma questão tão complexa. Mas, a julgar Carandiru de acordo com sua própria ambição, não seria demais esperar que um cineasta com a inteligência e o talento de Babenco não a reduzisse a termos maniqueístas. Seu filme de fato desfere aquele proverbial soco no estômago da platéia. Mas dores agudas freqüentemente fazem esquecer outras, estas crônicas – por exemplo, a da consciência e a da razão.

   
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