Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 797 - 9 de abril de 2003
Geral Religião
 

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
Especial
Geral
 

O terror da pneumonia asiática
O Vaticano diz que homossexuais são doentes
O Vale do Silício indiano
Jovens ricos apelam para o carro blindado
O custo da gordura no Brasil
Espermatozóides chegam até o óvulo pelo faro
A droga que alivia o mal-estar da quimioterapia

Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Luiz Felipe de Alencastro
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Arc
Gente
VEJA on-line
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Arquivo 1997-2003
Reportagens de capa
2000|01|02|03
Entrevistas
2000|01|02|03


Crie seu grupo




 

A bomba do Vaticano

Um dicionário organizado pela Igreja
Católica afirma, entre outras pérolas,
que homossexualidade é doença

Mario Sabino

Novecentas páginas, 78 verbetes. Essas são as dimensões da mãe de todas as bombas religiosas que o Vaticano acaba de despejar nas livrarias italianas. Seu título original é Lexicon – Termini Ambigui e Discussi su Famiglia, Vita e Questioni Etiche (Dicionário dos Termos Ambíguos e Discutidos sobre Família, Vida e Questões Éticas). Organizado pelo Conselho Pontifício para a Família, um dos braços da Cúria Romana, o livro é de uma clareza contundente a respeito do que a Igreja Católica pensa sobre questões como aborto, contracepção, divórcio, homossexualidade e sexo seguro. Não há nada que não tenha sido já afirmado e reafirmado pelo papa João Paulo II, em suas condenações do que considera a dissolução familiar perpetrada pela modernidade. Mas o Lexicon vai além: tenta revestir o que é puro dogma católico com explicações que oscilam entre a pseudo-ciência e a sociopsicologia de rodapé.

No verbete dedicado ao sexo seguro, decreta-se, talvez por inspiração do Espírito Santo, que essa é uma categoria que não existe. A intenção, aqui, é censurar o uso de preservativos (que, assim como a adoção de outros métodos contraceptivos artificiais, significa para a Igreja um passaporte para o inferno) e recomendar a abstinência sexual para quem não goza das delícias beatíficas do casamento monogâmico. Ao fulminar um anátema contra a camisinha, o autor do verbete diz que ela reduz a apenas 10% o risco de contrair Aids numa relação. "O que diríamos de um modelo de avião que caísse em 10% dos vôos?", compara. Trata-se de uma mentira: o uso de camisinha previne o contágio por HIV em 99% dos casos. Ou seja, o risco é de 1%, desprezível do ponto de vista estatístico.

O capítulo mais espantoso, no entanto, é o que discorre a respeito dos homossexuais. O Lexicon utiliza conceitos de um ateu convicto, Sigmund Freud, o pai da psicanálise, para concluir que a homossexualidade é um "conflito psíquico não resolvido que a sociedade não pode institucionalizar" – uma doença, enfim – e que o termo "homofobia" é uma "palavra criada por associações homossexuais para estigmatizar todos aqueles que se perguntam sobre o assunto e não aceitam a banalização e a 'normalização' da homossexualidade". Realmente Freud, que não se aprofundou muito no tema, formulou a hipótese de que a homossexualidade (em especial, a masculina) fosse fruto de uma diferente elaboração do complexo de Édipo. Mas jamais a timbrou como "conflito psíquico não resolvido". É bom lembrar ainda que, há mais de dez anos, a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças – com o aval de médicos e psicólogos. Quanto ao termo "homofobia", ele surgiu para designar a perseguição concreta que os homossexuais ainda sofrem em diversas esferas da sociedade. Como a que o Vaticano agora promove contra eles.

O Lexicon – um monumento à intolerância visto com reservas até mesmo dentro do Vaticano – é a obra magna do cardeal colombiano Alfonso López Trujillo, presidente do Conselho Pontifício para a Família e uma das personalidades de maior prestígio da Cúria Romana. Na década de 80, ele ajudou a torpedear a Teologia da Libertação (o que não foi exatamente ruim, convenhamos) e foi acusado por seus inimigos de usar métodos truculentos para neutralizar padres e bispos da Colômbia que não compartilhavam de seus pontos de vista. Seu trabalho frente ao Conselho Pontifício para a Família é motivo de admiração entre os ultraconservadores e o transformou em papável bem cotado. Deus nos livre.

   
 
   
  voltar
   
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS