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Cidade
sitiada
Traficantes atacam pontos
turísticos,
desafiam a polícia
e espalham terror no Rio
Marcelo
Carneiro

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Às
vésperas do Carnaval, em fevereiro, o Rio de Janeiro conviveu,
por quatro dias consecutivos, com o apavorante cenário de ônibus
incendiados e bombas lançadas contra prédios. Tudo sob o
comando de bandidos trancafiados em um presídio de segurança
máxima. Naquela ocasião, a polícia tentou mais uma
vez mostrar capacidade de reação. Foram abertos inquéritos
e prenderam-se dezenas de suspeitos, alguns em flagrante. Só a
carceragem da Delegacia de Repressão a Entorpecentes recebeu 21
bandidos, acusados de promover os atos de violência. Desses, sete
voltaram às ruas, e até agora não se tem notícia
dos resultados da investigação sobre os atentados. Já
o banditismo segue seu rumo, inabalável. Na semana passada, os
criminosos deram outra demonstração de força. Em
um só dia, tornaram a incendiar ônibus e carros, provocando
o fechamento de uma das principais vias de acesso à cidade, jogaram
granadas na entrada de um luxuoso hotel da Zona Sul e atiraram contra
a estação de trem do Corcovado, que leva ao Cristo Redentor,
o maior símbolo turístico do Rio. Foi o quinto incidente
desse tipo após os quatro dias infernais do final de fevereiro.
A estratégia de pânico criada pelos bandidos tem causado
dois efeitos. O primeiro, óbvio, é aterrorizar a população
do Rio e os turistas que planejam desembarcar na cidade. O segundo é
deixar tontas as autoridades de segurança do Estado, que ainda
não conseguiram arranjar alguma forma de combater essas demonstrações
de ousadia. Numa palavra, têm sido incompetentes para resolver o
problema. Quando explodiram os ataques pré-carnavalescos, tanto
o governo estadual quanto o federal afirmaram que uniriam esforços
para solucionar a questão. Evidentemente, quase nada de concreto
aconteceu. Enquanto isso, o tráfico apresenta-se mais rico, mais
armado e mais audacioso em suas investidas. Após o episódio
de fevereiro, a única ação para tentar conter a onda
de violência foi a transferência do megatraficante Fernandinho
Beira-Mar do presídio de Bangu 1, onde o marginal dispunha de celular
e visitas íntimas, para o rigoroso regime de presídio de
segurança máxima de Presidente Prudente, em São Paulo.
Há duas semanas, Beira-Mar foi novamente transferido, dessa vez
para uma cela da Polícia Federal em Alagoas. O destino final do
traficante, cuja permanência em presídios estaduais tem sido
sistematicamente recusada pelos governadores, poderá ser o Espírito
Santo, onde se estuda a federalização de uma penitenciária.
Em meio a esse cenário, surgiu uma linha de investigação
da polícia fluminense que poderia explicar parte do caos instalado
na cidade. Os ataques estariam sendo perpetrados por um grupo de jovens
lideranças do tráfico de drogas nas favelas do Rio. Esses
bandidos dispõem de um armamento de guerra e, na maior parte das
vezes, agem sob o efeito de drogas. Isso ocorre porque, a partir de 1993,
praticamente todos os barões da droga que dominavam as favelas
do Rio foram mortos ou presos embora, de suas celas, continuassem
a mandar instruções aos morros cariocas. Com isso, ascenderam
a posições de destaque nas quadrilhas jovens "soldados"
do tráfico, alguns com cargo de chefia. Com tanta disposição
para o confronto, armamento pesado e um exército estimado em cerca
de 10.000 homens, os criminosos cariocas e suas ações-relâmpago
têm provocado um discurso contraditório na cúpula
da Secretaria de Segurança Pública. Uma ala quer convencer
a população de que os atos são mais uma reação
do crime organizado ao endurecimento das operações repressivas.
Outra aposta na tese de que as ações são isoladas
e partem dos jovens líderes do tráfico. Enquanto a incompetente
polícia fluminense bate cabeça e o governo federal olha
tudo sem saber o que fazer, o Rio de Janeiro se ajoelha.
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