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Edição 1 797 - 9 de abril de 2003
Brasil Rio de Janeiro

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Cidade sitiada

Traficantes atacam pontos
turísticos,
desafiam a polícia
e espalham terror no Rio

Marcelo Carneiro

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Dos arquivos de VEJA
"Estado de calamidade" (5/3/2003)
O narcoterrorismo no Rio de Janeiro (23/10/2002)
"O dia do bandido" (9/10/2002)
O poder de Fernandinho Beira-Mar (18/9/2002)

Às vésperas do Carnaval, em fevereiro, o Rio de Janeiro conviveu, por quatro dias consecutivos, com o apavorante cenário de ônibus incendiados e bombas lançadas contra prédios. Tudo sob o comando de bandidos trancafiados em um presídio de segurança máxima. Naquela ocasião, a polícia tentou mais uma vez mostrar capacidade de reação. Foram abertos inquéritos e prenderam-se dezenas de suspeitos, alguns em flagrante. Só a carceragem da Delegacia de Repressão a Entorpecentes recebeu 21 bandidos, acusados de promover os atos de violência. Desses, sete voltaram às ruas, e até agora não se tem notícia dos resultados da investigação sobre os atentados. Já o banditismo segue seu rumo, inabalável. Na semana passada, os criminosos deram outra demonstração de força. Em um só dia, tornaram a incendiar ônibus e carros, provocando o fechamento de uma das principais vias de acesso à cidade, jogaram granadas na entrada de um luxuoso hotel da Zona Sul e atiraram contra a estação de trem do Corcovado, que leva ao Cristo Redentor, o maior símbolo turístico do Rio. Foi o quinto incidente desse tipo após os quatro dias infernais do final de fevereiro.

A estratégia de pânico criada pelos bandidos tem causado dois efeitos. O primeiro, óbvio, é aterrorizar a população do Rio e os turistas que planejam desembarcar na cidade. O segundo é deixar tontas as autoridades de segurança do Estado, que ainda não conseguiram arranjar alguma forma de combater essas demonstrações de ousadia. Numa palavra, têm sido incompetentes para resolver o problema. Quando explodiram os ataques pré-carnavalescos, tanto o governo estadual quanto o federal afirmaram que uniriam esforços para solucionar a questão. Evidentemente, quase nada de concreto aconteceu. Enquanto isso, o tráfico apresenta-se mais rico, mais armado e mais audacioso em suas investidas. Após o episódio de fevereiro, a única ação para tentar conter a onda de violência foi a transferência do megatraficante Fernandinho Beira-Mar do presídio de Bangu 1, onde o marginal dispunha de celular e visitas íntimas, para o rigoroso regime de presídio de segurança máxima de Presidente Prudente, em São Paulo. Há duas semanas, Beira-Mar foi novamente transferido, dessa vez para uma cela da Polícia Federal em Alagoas. O destino final do traficante, cuja permanência em presídios estaduais tem sido sistematicamente recusada pelos governadores, poderá ser o Espírito Santo, onde se estuda a federalização de uma penitenciária.

Em meio a esse cenário, surgiu uma linha de investigação da polícia fluminense que poderia explicar parte do caos instalado na cidade. Os ataques estariam sendo perpetrados por um grupo de jovens lideranças do tráfico de drogas nas favelas do Rio. Esses bandidos dispõem de um armamento de guerra e, na maior parte das vezes, agem sob o efeito de drogas. Isso ocorre porque, a partir de 1993, praticamente todos os barões da droga que dominavam as favelas do Rio foram mortos ou presos – embora, de suas celas, continuassem a mandar instruções aos morros cariocas. Com isso, ascenderam a posições de destaque nas quadrilhas jovens "soldados" do tráfico, alguns com cargo de chefia. Com tanta disposição para o confronto, armamento pesado e um exército estimado em cerca de 10.000 homens, os criminosos cariocas e suas ações-relâmpago têm provocado um discurso contraditório na cúpula da Secretaria de Segurança Pública. Uma ala quer convencer a população de que os atos são mais uma reação do crime organizado ao endurecimento das operações repressivas. Outra aposta na tese de que as ações são isoladas e partem dos jovens líderes do tráfico. Enquanto a incompetente polícia fluminense bate cabeça e o governo federal olha tudo sem saber o que fazer, o Rio de Janeiro se ajoelha.

 
 
   
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