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Edição 1 797 - 9 de abril de 2003
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Bom desempenho
na lua-de-mel

Em 100 dias, Lula colhe aplausos
na economia e
vitórias na política,
mas há tumulto nos bastidores

Felipe Patury e Malu Gaspar

 
Antonio Milena
Roberto Stuckert Filho
O presidente Lula e sua primeira vitória expressiva numa votação no Congresso: 442 votos a favor e só 13 contra

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Notícias diárias sobre o governo Lula

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva completa 100 dias nesta semana, período que os marqueteiros classificam como "o trimestre de graça" dos governantes recém-eleitos – ou a fase de lua-de-mel com a população. Uma pesquisa do Ibope mostrou que metade da população classifica o governo como "ótimo" ou "bom" e 80% diz confiar no presidente. O conceito da graça é internacional. Qualquer presidente em qualquer país pode-se dar ao direito de desfrutar como bem entender esses três meses, sem muito risco de perder popularidade. Nessa fase, os presidentes têm mais força e a opinião pública está propensa a desculpar seus erros. No caso de Lula, seu governo cometeu vários erros, todos devidamente desculpados. Houve o anúncio precipitado do Fome Zero, que não passa de uma idéia em busca de um projeto, houve declarações estapafúrdias de ministros, desmentidos, brigas e muita reunião jogada fora, muito blá-blá-blá, um cenário mais adequado a entidades estudantis ou sindicatos. Ainda assim, o marco dos 100 dias é positivo.

Lula errou em várias ramificações de seu governo que parecem ainda não ter percebido que o petismo dos anos 80 está enterrado. Apesar desse desacerto nas pontas, o núcleo central do poder, formado pelos ministros Antônio Palocci, da Fazenda, e José Dirceu, da Casa Civil, está ganhando a parada até aqui. Agregam-se a eles dois outros ministros que funcionam como guarda-costas administrativos de Lula, o secretário de Comunicação, Luiz Gushiken, e o secretário-geral do Palácio do Planalto, Luiz Dulci. O comportamento desse time tem servido para dissipar dúvidas dos investidores e analistas, dando ao mercado a confiança necessária para voltar a recomendar o Brasil como opção de negócio. A bolsa de valores bate recorde de volume de negócios, o dólar está caindo, a inflação voltou a ceder, o risco Brasil recuou para um patamar inferior a 1 000 pontos, os títulos brasileiros no exterior se valorizam. São indicações seguras de que o meio empresarial começa a deixar de lado o medo de que o Palácio do Planalto esconde um plano B na economia. Na semana passada, o governo deu mais uma indicação de serenidade ao anunciar o novo salário mínimo no patamar máximo suportável para as contas do governo: 240 reais, equivalente a pouco mais de 70 dólares.

Todas as movimentações da fatia ponderada do governo deixam claro que Lula realmente se modernizou. O comportamento positivo dos indicadores pode ser lido de dois jeitos. Os petistas tentam provar que Lula é desde já melhor que FHC. Os observadores mais ponderados percebem que Lula agrada justamente porque faz na economia exatamente aquilo que FHC fazia com grande competência. Opera o mercado sem sustos e com transparência. Essa é a grande contribuição de Lula: dar continuidade à política econômica tucana. Desde que assumiu, Lula aumentou ainda mais os juros, hoje em 26,5%, e cortou gastos públicos ao elevar a meta de superávit primário para 4,25% do PIB neste ano – um porcentual inédito na história do país. O governo faz isso não porque queira remunerar banqueiros, crítica que os petistas faziam a Pedro Malan e Armínio Fraga. Faz isso porque não há outra saída. Os juros só vão baixar quando a economia entrar nos eixos e o Congresso Nacional aprovar a reforma previdenciária e a tributária.

Na semana passada, o governo travou sua primeira batalha no Congresso e se deu muito bem. Por 442 votos a favor, apenas 13 contra, o governo conseguiu aprovar a emenda constitucional que regulamenta o sistema financeiro. As lideranças petistas no Congresso dobraram a resistência dos radicais do partido e contaram com a boa vontade da oposição. Tanto o PSDB de Fernando Henrique Cardoso quanto o PFL, de Jorge Bornhausen, votaram a favor da emenda, dando aos petistas uma lição de como fazer oposição construtiva, coisa que os seguidores de Lula sempre se negaram a fazer.

O lado negativo dos 100 primeiros dias fica por conta da forma como o governo está preenchendo os cargos na administração pública. Fazia muito tempo que Brasília não via tamanha confusão. Todo governo que se inicia se atrapalha na fase das nomeações. Afinal, o volume de cargos de confiança passa dos 20.000. O que chama a atenção no atual governo é a aparente naturalidade com que o PT adota algumas posturas no mínimo ousadas. Há altos postos ocupados por eleitos em assembléias sindicais, subordinado que indica o superior, técnico preterido em favor de apaniguado político, apadrinhado ascendendo sem um currículo que o recomende, excesso de gente num canto e falta de gente noutro. Na compreensão dos mais atentos, tais atitudes tendem a comprometer a qualidade da administração pública.

No BNDES, o presidente Carlos Lessa e Darc Costa, seu braço direito, defendem para o banco o papel de hospital de empresas. A dupla toca os negócios livremente, pois não dá a mínima para o ministro encarregado de orientá-los, Luiz Fernando Furlan, do Desenvolvimento. Lessa despacha no Rio de Janeiro e prefere desembarcar em Brasília quando seu chefe, cujo gabinete fica na capital, está em viagem. Na Eletronorte, uma das estatais de energia do país, Raimundo Dilson Trindade, que ocupa a poderosa diretoria de produção e comercialização, resolveu trocar quase todos os gerentes regionais. Escolheu-os pelo voto em assembléias sindicais.

Nas estatais, o caso mais extraordinário até aqui atingiu a jóia da coroa do Estado: a Petrobras. Ali, o governo foi imbatível. Instalou na diretoria mais importante da estatal o ex-presidente do PT em Nova Friburgo. O novo diretor chama-se Guilherme Estrella e tem em suas mãos um orçamento de 6 bilhões de reais em investimentos para este ano. Ao assumir o cargo, disse que o petróleo deve ser "administrado de forma estatal" e até xingou os acionistas da empresa, a quem chamou de "especuladores", ignorando que o maior "especulador" da Petrobras é o governo de Lula. Além disso, Guilherme Estrella trocou seis dos oito gerentes de sua área. Entre os promovidos, há gente que, embora estivesse apenas começando a carreira na Petrobras, já comanda coisa de 5.000 funcionários. Os candidatos a postos de direção na Petrobras são sempre entrevistados por Diego Hernandez, ex-operador de refinaria que estava cedido para a militância sindical. Um dos que passaram por seu crivo para presidir a Petros, o endinheirado fundo de pensão da estatal, foi Wilson Santarosa, que, no entanto, não pôde assumir por falta de diploma universitário. Ganhou um consolo: a presidência do conselho da Petros e, de lambuja, toda a área de comunicação da empresa – que gasta a bagatela de 260 milhões de reais em publicidade por ano.

O conflito de idéias é recorrente dentro do governo. Tome-se o que acontece no campo brasileiro, setor vital para o crescimento da economia. De um lado está o ministro Roberto Rodrigues, que defende o investimento numa agricultura moderna, baseada em mecanização, produtividade, competição, exportação. De outro está um time da pesada que defende o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). O mentor desse grupo é o ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, que já deixou evidente sua animosidade em relação ao respeito à propriedade privada. Seu ministério foi loteado de alto a baixo entre simpatizantes da causa. Uma parte ficou com os sem-terra do MST, outra com os integrantes da Comissão Pastoral da Terra, uma terceira é comandada pela confederação dos agricultores, a Contag. Outra autoridade que se destaca entre os defensores do MST é o presidente da Embrapa, Clayton Campanhola, responsável por dirigir um centro de excelência em pesquisas que ajudou a impulsionar a agricultura brasileira. Em vez de concentrar-se em pesquisa e agricultura, Campanhola, em seu discurso de posse, defendeu os sem-terra e disse que um dos papéis da empresa é combater a concentração de renda no país. Não é.

 

Radicais no governo

Saiba o que pensam três funcionários do alto escalão do governo petista, responsáveis por setores estratégicos da economia brasileira

Darc Costa,
vice-presidente do BNDES

IMPORTÂNCIA DA FUNÇÃO: além de ser o braço direito do presidente do banco na administração de 34 bilhões de reais em investimentos, é responsável pelas participações acionárias do banco e pelos projetos nas áreas de energia, telecomunicações e transporte.

O QUE ELE DIZ: "A globalização é a venda de uma hegemonia condensada, é um discurso de dominação ideológica. (...) O Brasil de Lula não sei o que é. O de Fernando Henrique era uma colônia. (...) A privatização do governo FHC não foi uma solução: nos traz uma série de problemas muito sérios. A infra-estrutura do Brasil foi profundamente atingida com a privatização, perdeu-se muito em produtividade".
(Em entrevista ao jornal Valor Econômico, em março)

 

Guilherme Estrella,
diretor de exploração
e produção da Petrobras

IMPORTÂNCIA DA FUNÇÃO: sua área é responsável pela pesquisa e produção de petróleo e gás natural. Tem 6 bilhões de reais para investir.

O QUE ELE DIZ: "A cultura da companhia transformou-se em uma cultura aberta, quando no passado era mais voltada para o Brasil, para atender a interesses genuinamente nacionalistas. Acho que uma cultura mais voltada para o Brasil é fundamental e mais importante do que uma cultura aberta. (...) Não vejo benefícios (na privatização). Temos muito mais telefones celulares, mas teríamos mesmo que o mercado não tivesse sido aberto."
(Em entrevista à revista Brasil Energia, em março)


Givaldo Barbosa


Clayton Campanhola,
presidente da Embrapa

IMPORTÂNCIA DA FUNÇÃO: a estatal é um centro de excelência em pesquisa e está por trás do salto tecnológico registrado na agricultura brasileira.

O QUE ELE DIZ: "O papel da Embrapa vai além da geração de tecnologias para o setor produtivo agropecuário visando ao aumento da produtividade e da competitividade do agronegócio, cabendo-lhe também contribuir para que as restrições socioeconômicas existentes no nosso meio rural sejam amenizadas ou até mesmo eliminadas. (...) Não basta apenas produzir alimentos, é preciso erradicar a fome! Não basta apenas atingir safras recordes, é preciso distribuir renda!"
(Em seu discurso de posse, em janeiro)

 

 
 

 

 

   
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