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Vícios, taras
e crimes

Gabriela
Carelli
AFP
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OS
FILHOS DE SADDAM
Qusai (à esq.) é quieto e violento. Udai, um
playboy psicopata |

Veja também |
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Destacar-se
pela crueldade entre ditadores é um feito. Os filhos de Saddam
Hussein já entraram para a história nessa competição.
Udai, de 39 anos, e Qusai, de 37, que estão desaparecidos desde
a invasão americana ao Iraque, têm uma lista documentada
de atrocidades, vícios, taras e crimes que nada ficam a dever aos
de outras dinastias sanguinárias. Uma longa reportagem da versão
inglesa da revista americana Vanity
Fair que começou a circular na sexta-feira
passada aumenta bastante essa lista. O repórter David Rose ouviu
exilados que deixaram o Iraque há pouco tempo e que pertenciam
ao círculo íntimo do clã de Saddam Hussein. Eles
falaram com Rose logo depois de ter sido interrogados pelo serviço
secreto britânico. As histórias contadas em conversas separadas
são complementares, ricas em detalhes, e quase não existem
discrepâncias entre elas, o que dá aos relatos maior confiabilidade.
"Qusai, o mais novo, é mais cerebral, mas igualmente assassino.
Udai é depravado", disse Rose à rede de televisão
CBS. Os exilados contam que viram Udai torturar amigos, namoradas, serviçais
e colegas de faculdade que discordaram minimamente de sua opinião
ou chegaram atrasados a encontros e reuniões. Os filhos de Saddam
se aproveitaram do poder, da riqueza quase sem limites e da certeza da
impunidade para extorquir os iraquianos. A fortuna dos filhos do ditador
do Iraque se conta em bilhões de dólares. Eles carrearam
para seus bolsos propinas sobre quase todas as atividades produtivas do
país. Com eles, Saddam montou o tripé de sustentação
de seu clã no poder. Qusai é o chefe dos porões.
Ele controla o aparato de terror, a espionagem militar. Todos os departamentos
secretos das polícias iraquianas respondem diretamente a ele. Qusai
é quase tão poderoso e temido quanto Saddam. Em 1991, Saddam
convocou Qusai para conter a revolta dos xiitas e dos curdos depois da
Guerra do Golfo. O filho mais novo mostrou muita eficiência. Qusai
não negociou. A revolta curda foi contida com a morte dos revoltosos.
"Ele mesmo interrogou os civis. Os que não cooperavam eram despidos
e mortos a tiros. Homens, mulheres e crianças tinham o mesmo tratamento
diante de todos", diz um dos exilados entrevistados pela revista inglesa.
Qusai mandou bombardear indiscriminadamente as casas dos moradores de
um distrito curdo que resistiu por mais tempo. Em seguida, os mortos foram
enterrados em valas comuns abertas por tratores. "Qusai é silencioso,
quase não olha nos olhos dos interlocutores, mas é tão
violento quanto o irmão. Muitas vezes está envolvido nos
crimes de Udai ou pede para que o irmão mais velho faça
o serviço sujo", conta um dos exilados.
Udai acumulou
seus bilhões controlando seis jornais e quase todas as emissoras
de televisão e rádio do país. Ele é também
o chefe da milícia fedain, os fanáticos pagos a peso de
ouro para proteger Saddam e assassinar os adversários. O hábito
do filho mais velho do ditador de torturar os amigos e conhecidos, punindo-os
pelas transgressões mais leves, já era conhecido no Ocidente,
porém não com tanto detalhismo. Os exilados contaram à
revista inglesa que Udai se ressentiu de ter perdido para Qusai o posto
de sucessor presumível do pai e, como compensação
psicológica, passou a viver sem nenhum constrangimento moral. Depois
de 1996, quando ele sofreu um atentado e começou a andar com dificuldade,
Udai tornou-se ainda mais amargo e suas torturas, que antes eram feitas
com espancamento da sola dos pés das vítimas com um bastão
de madeira, ficaram mais duras. Udai reinventou uma modalidade de tortura
comum no mundo árabe, a falaqa. Normalmente, a falaqa
termina com a pessoa com dores terríveis nos pés e nas pernas,
porém ainda capaz de se recuperar sem precisar de ajuda médica.
Udai passou a golpear também os ossos da perna, quebrando-os. "Como
Udai ficou quase aleijado depois do atentado, ele queria que os amigos
compartilhassem a deficiência física com ele", disse um dos
exilados.
Udai se viciou
em bebidas e sua figura elegante, quase sempre vestida em ternos Versace
brancos, era temida em Bagdá. Como um mafioso com o Estado a protegê-lo,
ele fez transações milionárias simplesmente matando
os concorrentes e se apossando de seus negócios. "Eu vi Udai dar
dois tiros em um negociante. Um pegou na perna. Outro no braço.
Ele se sentou numa cadeira e assistiu calmamente ao homem sangrar até
a morte", relata outro exilado. Nomeado pelo pai para chefiar o Comitê
Olímpico do Iraque, Udai montou no porão da sede uma prisão
particular. Os exilados lembram que as celas eram pintadas de vermelho
e que ali dezenas de adversários do filho de Saddam eram torturados
até que assinassem termos de doações pretensamente
para o comitê, mas que eram apropriadas por Udai. "Muitos foram
presos e torturados tantas vezes que acabaram morrendo", relata um dos
exilados. Numa ocasião conta a Vanity Fair citando
outra de suas fontes , "Udai foi pescar com os amigos em um lago
usando granadas de mão. Depois das explosões, peixes mortos
boiavam. Um homem que nadava no lago pegou um dos peixes. Udai tirou a
pistola e matou o homem". Na semana passada, o jornal espanhol El País
revelou outras histórias do mesmo teor contadas por um sósia
de Udai que conseguiu fugir do Iraque. O sósia foi soldado iraquiano
e se chama Latif Yahia. Ele mora atualmente em Dublin, na Irlanda. "Um
dia, sem nenhuma razão, Udai sacou uma arma e me deu um tiro como
se eu fosse um alvo", diz Latif.
AFP
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SÁDICOS
E MILIONÁRIOS
Udai Hussein: o pai mandou incendiar seus quarenta carros de luxo
e depois lhe mandou um anel de diamantes |
A história de como Udai perdeu as graças de Saddam é
conhecida. Ele matou um dos homens de confiança do pai, um ex-camareiro,
segurança, gigolô e provador de comidas de Saddam chamado
Kamel Hannah Jajo. Os detalhes do assassinato só foram revelados
agora à revista Vanity Fair por um dos exilados que eram
íntimos do clã que estava ao lado do assassino no instante
do crime. Acreditava-se que Udai havia matado Kamel Jajo com uma faca
elétrica que estava sobre a mesa no banquete que Saddam oferecia
à primeira-dama do Egito, Suzanne Mubarak. O exilado conta que
Udai estourou a cabeça de Jajo com um cajado árabe que ele
sempre carregava consigo. O motivo do ataque ao amigo do pai seria vingança
por ter sido ele o intermediário entre o polígamo Saddam
e sua segunda mulher, Samira, que acabara de dar à luz um filho
do ditador. Pelos costumes do clã, o filho daria a Samira um poder
extraordinário, que Udai e Qusai não puderam suportar. "O
pai colocou Udai na cadeia por algumas semanas e mandou incendiar todos
os quarenta carros de luxo que o filho possuía. Depois o aceitou
de volta e lhe deu um enorme anel de brilhantes, mas a relação
entre eles nunca mais foi a mesma", contou o exilado.
Os exilados
revelaram também mais detalhes sobre o assassinato dos irmãos
Hussein e Saddam Kamel, ambos genros do ditador do Iraque. Encarregados
de alguns órgãos de segurança do país e do
controle do programa nuclear, os irmãos Kamel ficaram demasiado
poderosos e ricos. Udai e o irmão Qusai decidiram afastá-los
do poder. Para isso, forjaram provas de que os dois tramavam contra Saddam.
Assustados, os irmãos fugiram para a Jordânia. Até
aqui não há nada de novo no relato feito pelos exilados
ao repórter David Rose. A maneira como eles foram convencidos a
retornar ao Iraque e como foram eliminados é a novidade. "Saddam
pediu a Udai para ir à Jordânia e convencer os irmãos
Kamel a voltar. Saddam mandou o filho prometer aos genros que eles não
seriam fuzilados", contou um dos exilados. Como se sabe, os irmãos
Kamel morreram a tiros, porém, para manter a palavra empenhada
de que não seriam fuzilados, Udai arranjou para que perecessem
em um tiroteio. "Eles foram instalados em suas antigas residências,
já sem as filhas de Saddam. Um dia logo cedo receberam pacotes
do que parecia ser o café da manhã. Eram armas mandadas
por Udai", conta o exilado. Mais tarde, a casa foi atacada por agentes
de Saddam que mataram os irmãos Kamel em meio a um tiroteio feroz.
Sete agentes iraquianos morreram na luta. "Udai gostava de recontar o
episódio e lembrar que cumpriu a palavra. Mas o que ele fez foi
ainda pior. Os agentes mataram todo mundo na casa. Além dos irmãos
Kamel, morreram duas irmãs e quatro crianças."
De acordo
com o relato dos exilados, Udai era acometido de crises momentâneas
de ira que geralmente acabavam em mortes pela madrugada de Bagdá.
Em uma dessas noites, segundo a revista, Udai disparou sua submetralhadora
indiscriminadamente contra os convidados de uma festa que os parentes
dos Hussein promoviam nos arredores da capital. Ele disse mais tarde que
pretendia acertar um dos tios, Warban, adorado por Saddam Hussein, mas
acabou matando diversos integrantes de um grupo de dança que fora
contratado para animar a reunião.
Os príncipes
sauditas são acusados de opulentos, alcoólatras e de dormir
com prostitutas, porém não há nenhum indício
de que sejam dados a crueldades e explosões assassinas como os
filhos de Saddam. Também existem especulações sobre
o comportamento de Saif Kadafi, filho do líder da Líbia,
acusado de participação em desvio de dinheiro e enriquecimento
ilícito. Mas nada se compara à dupla Udai e Qusai. "O comportamento
dos filhos de Saddam é um reflexo do regime brutal em que vivem.
É impossível pensar em alguém com a educação
e a cultura da família Kadafi envolvido em atos tão grotescos",
disse a VEJA Jeremy Binnie, da Jane's Sentinel Security, uma consultoria
inglesa especializada em assuntos militares. Binnie estuda há muitos
anos a vida dos herdeiros de vários países no Oriente Médio.
"As ditaduras árabes costumam ser incontrastáveis. A de
Saddam não tinha adversários. Portanto, não existem
razões objetivas para o líder e seus filhos terem se envolvido
em atos tão bárbaros", analisa o inglês.
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