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Edição 1 797 - 9 de abril de 2003
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Vícios, taras e crimes

Gabriela Carelli


AFP
OS FILHOS DE SADDAM
Qusai (à esq.) é quieto e violento. Udai, um playboy psicopata

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Especial Guerra no Iraque

Destacar-se pela crueldade entre ditadores é um feito. Os filhos de Saddam Hussein já entraram para a história nessa competição. Udai, de 39 anos, e Qusai, de 37, que estão desaparecidos desde a invasão americana ao Iraque, têm uma lista documentada de atrocidades, vícios, taras e crimes que nada ficam a dever aos de outras dinastias sanguinárias. Uma longa reportagem da versão inglesa da revista americana Vanity Fair que começou a circular na sexta-feira passada aumenta bastante essa lista. O repórter David Rose ouviu exilados que deixaram o Iraque há pouco tempo e que pertenciam ao círculo íntimo do clã de Saddam Hussein. Eles falaram com Rose logo depois de ter sido interrogados pelo serviço secreto britânico. As histórias contadas em conversas separadas são complementares, ricas em detalhes, e quase não existem discrepâncias entre elas, o que dá aos relatos maior confiabilidade. "Qusai, o mais novo, é mais cerebral, mas igualmente assassino. Udai é depravado", disse Rose à rede de televisão CBS. Os exilados contam que viram Udai torturar amigos, namoradas, serviçais e colegas de faculdade que discordaram minimamente de sua opinião ou chegaram atrasados a encontros e reuniões. Os filhos de Saddam se aproveitaram do poder, da riqueza quase sem limites e da certeza da impunidade para extorquir os iraquianos. A fortuna dos filhos do ditador do Iraque se conta em bilhões de dólares. Eles carrearam para seus bolsos propinas sobre quase todas as atividades produtivas do país. Com eles, Saddam montou o tripé de sustentação de seu clã no poder. Qusai é o chefe dos porões. Ele controla o aparato de terror, a espionagem militar. Todos os departamentos secretos das polícias iraquianas respondem diretamente a ele. Qusai é quase tão poderoso e temido quanto Saddam. Em 1991, Saddam convocou Qusai para conter a revolta dos xiitas e dos curdos depois da Guerra do Golfo. O filho mais novo mostrou muita eficiência. Qusai não negociou. A revolta curda foi contida com a morte dos revoltosos. "Ele mesmo interrogou os civis. Os que não cooperavam eram despidos e mortos a tiros. Homens, mulheres e crianças tinham o mesmo tratamento diante de todos", diz um dos exilados entrevistados pela revista inglesa. Qusai mandou bombardear indiscriminadamente as casas dos moradores de um distrito curdo que resistiu por mais tempo. Em seguida, os mortos foram enterrados em valas comuns abertas por tratores. "Qusai é silencioso, quase não olha nos olhos dos interlocutores, mas é tão violento quanto o irmão. Muitas vezes está envolvido nos crimes de Udai ou pede para que o irmão mais velho faça o serviço sujo", conta um dos exilados.

Udai acumulou seus bilhões controlando seis jornais e quase todas as emissoras de televisão e rádio do país. Ele é também o chefe da milícia fedain, os fanáticos pagos a peso de ouro para proteger Saddam e assassinar os adversários. O hábito do filho mais velho do ditador de torturar os amigos e conhecidos, punindo-os pelas transgressões mais leves, já era conhecido no Ocidente, porém não com tanto detalhismo. Os exilados contaram à revista inglesa que Udai se ressentiu de ter perdido para Qusai o posto de sucessor presumível do pai e, como compensação psicológica, passou a viver sem nenhum constrangimento moral. Depois de 1996, quando ele sofreu um atentado e começou a andar com dificuldade, Udai tornou-se ainda mais amargo e suas torturas, que antes eram feitas com espancamento da sola dos pés das vítimas com um bastão de madeira, ficaram mais duras. Udai reinventou uma modalidade de tortura comum no mundo árabe, a falaqa. Normalmente, a falaqa termina com a pessoa com dores terríveis nos pés e nas pernas, porém ainda capaz de se recuperar sem precisar de ajuda médica. Udai passou a golpear também os ossos da perna, quebrando-os. "Como Udai ficou quase aleijado depois do atentado, ele queria que os amigos compartilhassem a deficiência física com ele", disse um dos exilados.

Udai se viciou em bebidas e sua figura elegante, quase sempre vestida em ternos Versace brancos, era temida em Bagdá. Como um mafioso com o Estado a protegê-lo, ele fez transações milionárias simplesmente matando os concorrentes e se apossando de seus negócios. "Eu vi Udai dar dois tiros em um negociante. Um pegou na perna. Outro no braço. Ele se sentou numa cadeira e assistiu calmamente ao homem sangrar até a morte", relata outro exilado. Nomeado pelo pai para chefiar o Comitê Olímpico do Iraque, Udai montou no porão da sede uma prisão particular. Os exilados lembram que as celas eram pintadas de vermelho e que ali dezenas de adversários do filho de Saddam eram torturados até que assinassem termos de doações pretensamente para o comitê, mas que eram apropriadas por Udai. "Muitos foram presos e torturados tantas vezes que acabaram morrendo", relata um dos exilados. Numa ocasião – conta a Vanity Fair citando outra de suas fontes –, "Udai foi pescar com os amigos em um lago usando granadas de mão. Depois das explosões, peixes mortos boiavam. Um homem que nadava no lago pegou um dos peixes. Udai tirou a pistola e matou o homem". Na semana passada, o jornal espanhol El País revelou outras histórias do mesmo teor contadas por um sósia de Udai que conseguiu fugir do Iraque. O sósia foi soldado iraquiano e se chama Latif Yahia. Ele mora atualmente em Dublin, na Irlanda. "Um dia, sem nenhuma razão, Udai sacou uma arma e me deu um tiro como se eu fosse um alvo", diz Latif.


AFP
SÁDICOS E MILIONÁRIOS
Udai Hussein: o pai mandou incendiar seus quarenta carros de luxo e depois lhe mandou um anel de diamantes


A história de como Udai perdeu as graças de Saddam é conhecida. Ele matou um dos homens de confiança do pai, um ex-camareiro, segurança, gigolô e provador de comidas de Saddam chamado Kamel Hannah Jajo. Os detalhes do assassinato só foram revelados agora à revista Vanity Fair por um dos exilados que eram íntimos do clã que estava ao lado do assassino no instante do crime. Acreditava-se que Udai havia matado Kamel Jajo com uma faca elétrica que estava sobre a mesa no banquete que Saddam oferecia à primeira-dama do Egito, Suzanne Mubarak. O exilado conta que Udai estourou a cabeça de Jajo com um cajado árabe que ele sempre carregava consigo. O motivo do ataque ao amigo do pai seria vingança por ter sido ele o intermediário entre o polígamo Saddam e sua segunda mulher, Samira, que acabara de dar à luz um filho do ditador. Pelos costumes do clã, o filho daria a Samira um poder extraordinário, que Udai e Qusai não puderam suportar. "O pai colocou Udai na cadeia por algumas semanas e mandou incendiar todos os quarenta carros de luxo que o filho possuía. Depois o aceitou de volta e lhe deu um enorme anel de brilhantes, mas a relação entre eles nunca mais foi a mesma", contou o exilado.

Os exilados revelaram também mais detalhes sobre o assassinato dos irmãos Hussein e Saddam Kamel, ambos genros do ditador do Iraque. Encarregados de alguns órgãos de segurança do país e do controle do programa nuclear, os irmãos Kamel ficaram demasiado poderosos e ricos. Udai e o irmão Qusai decidiram afastá-los do poder. Para isso, forjaram provas de que os dois tramavam contra Saddam. Assustados, os irmãos fugiram para a Jordânia. Até aqui não há nada de novo no relato feito pelos exilados ao repórter David Rose. A maneira como eles foram convencidos a retornar ao Iraque e como foram eliminados é a novidade. "Saddam pediu a Udai para ir à Jordânia e convencer os irmãos Kamel a voltar. Saddam mandou o filho prometer aos genros que eles não seriam fuzilados", contou um dos exilados. Como se sabe, os irmãos Kamel morreram a tiros, porém, para manter a palavra empenhada de que não seriam fuzilados, Udai arranjou para que perecessem em um tiroteio. "Eles foram instalados em suas antigas residências, já sem as filhas de Saddam. Um dia logo cedo receberam pacotes do que parecia ser o café da manhã. Eram armas mandadas por Udai", conta o exilado. Mais tarde, a casa foi atacada por agentes de Saddam que mataram os irmãos Kamel em meio a um tiroteio feroz. Sete agentes iraquianos morreram na luta. "Udai gostava de recontar o episódio e lembrar que cumpriu a palavra. Mas o que ele fez foi ainda pior. Os agentes mataram todo mundo na casa. Além dos irmãos Kamel, morreram duas irmãs e quatro crianças."

De acordo com o relato dos exilados, Udai era acometido de crises momentâneas de ira que geralmente acabavam em mortes pela madrugada de Bagdá. Em uma dessas noites, segundo a revista, Udai disparou sua submetralhadora indiscriminadamente contra os convidados de uma festa que os parentes dos Hussein promoviam nos arredores da capital. Ele disse mais tarde que pretendia acertar um dos tios, Warban, adorado por Saddam Hussein, mas acabou matando diversos integrantes de um grupo de dança que fora contratado para animar a reunião.

Os príncipes sauditas são acusados de opulentos, alcoólatras e de dormir com prostitutas, porém não há nenhum indício de que sejam dados a crueldades e explosões assassinas como os filhos de Saddam. Também existem especulações sobre o comportamento de Saif Kadafi, filho do líder da Líbia, acusado de participação em desvio de dinheiro e enriquecimento ilícito. Mas nada se compara à dupla Udai e Qusai. "O comportamento dos filhos de Saddam é um reflexo do regime brutal em que vivem. É impossível pensar em alguém com a educação e a cultura da família Kadafi envolvido em atos tão grotescos", disse a VEJA Jeremy Binnie, da Jane's Sentinel Security, uma consultoria inglesa especializada em assuntos militares. Binnie estuda há muitos anos a vida dos herdeiros de vários países no Oriente Médio. "As ditaduras árabes costumam ser incontrastáveis. A de Saddam não tinha adversários. Portanto, não existem razões objetivas para o líder e seus filhos terem se envolvido em atos tão bárbaros", analisa o inglês.

 
 
   
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