
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Guerreiros de
capacete furado

Jaime Klintowitz
Fotos AFP
 |
TROPA
DE ELITE MALTRAPILHA
Soldados da Guarda Republicana entrincheirados nos arredores de Bagdá:
pouca munição e capacete furado (abaixo) contra
a maior potência militar do mundo |
 |

Acesso rápido |
|
|
|
|

Veja também |
|
|
|
|
A
batalha por Bagdá pode ser dividida em três fases. A primeira
delas resume-se a aniquilar as defesas da capital do Iraque e depor o
regime totalitário de Saddam Hussein. A segunda consiste em reconstruir
o que foi devastado na guerra e soerguer um país que já
era paupérrimo antes das guerras e, entre seus costumes bárbaros,
tinha como diversão juntar multidões ululantes para ver
a polícia cortar a mão de ladrões em praça
pública. A terceira etapa é o estabelecimento de um governo
democrático no país, como prometeu o presidente dos Estados
Unidos, George W. Bush. O primeiro estágio é o que está
mais adiantado. Na madrugada de sábado, as tropas americanas já
haviam penetrado as linhas de defesa da cidade e ocupado o aeroporto,
localizado a apenas 20 quilômetros do centro de Bagdá. É
ainda arriscado prever por quanto tempo o governo iraquiano
resistirá mas a vitória militar dos Estados Unidos
é uma questão de tempo. A fase seguinte, a da reconstrução,
é também uma questão de tempo. O governo americano
já escolheu um general para governar o Iraque e começa a
tratar do processo de concorrência para empresas interessadas em
abrir estradas, treinar professores e distribuir alimentos logo que a
ocupação militar estiver completa. A terceira etapa só
existe, por enquanto, no éter das boas intenções.
Paradoxalmente, essa é a que terá maior impacto no futuro.
Os países
vizinhos ao Iraque vêem com ceticismo a intenção americana
de criar ali um regime modelar mas, como escreveu Thomas Friedman,
colunista do jornal The New York Times, aguardam com enorme curiosidade
e expectativa para ver no que isso vai dar. Uma democracia para valer
em Bagdá teria o impacto de uma revolução no Oriente
Médio. O que se tem por lá são partidos únicos,
monarquias feudais e sombrios regimes islâmicos. Um governo representativo
não é o tipo de instituição que os árabes
estão em condições de conquistar por si próprios.
A tentativa dos Estados Unidos de criar um exemplo de democracia que se
multiplique por uma região de ditaduras cruéis é
vista com ceticismo pelos árabes e com razão. Washington
sempre apoiou os ditadores da região até mesmo Saddam
Hussein, antes que ele tivesse a infeliz idéia de invadir o Kuwait
em 1990. Os tiranos daquela área têm sido tradicionalmente
apoiados por potências imperialistas, desde que se mostrem amigáveis
e capazes de controlar suas populações. Quase sem exceção,
a imprensa da região apresenta a atual invasão anglo-americana
do Iraque como parte de um assalto brutal de uma potência imperialista
contra árabes indefesos. As analogias com a ação
americana são Israel oprimindo os palestinos, os cruzados massacrando
os muçulmanos em Jerusalém e a horda mongol que no século
XIII chegou às portas de Bagdá. Com esse sentimento de desconfiança,
fica difícil imaginar como os Estados Unidos poderão fornecer
um exemplo que venha a ser respeitado e talvez seguido por outros países
vizinhos do Iraque. É difícil, e a disposição
dos árabes dependerá em grande parte de como os americanos
vão administrar a paz pós-Saddam.
Os prognósticos
iniciais eram que Saddam arrastaria americanos e ingleses para um atoleiro
do tipo que Israel enfrenta nos territórios palestinos ocupados.
Nesse cenário, se repetiria o pesadelo enfrentado pelos Estados
Unidos no Vietnã. Para agravar a situação, esse atoleiro
iria gerar uma onda de fúria popular que acabaria por engolfar
os regimes árabes hoje alinhados com Washington. É muito
cedo para descartar a possibilidade de a invasão do Iraque se converter
no estopim da grande revolta árabe. Basta prestar atenção
no campo de batalha, porém, para ver o que havia de exagerado nessas
previsões. A intervenção americana no Sudeste Asiático
durou dez anos. No Iraque, os atacantes precisaram de apenas duas semanas
para chegar a Bagdá. É uma velocidade espetacular, como
poucas vezes se viu na história militar. Em 1940, os alemães
levaram 44 dias para obter a rendição da França,
e isso foi chamado de "guerra-relâmpago".
Fotos AP
 |
 |
O
INIMIGO DENTRO DA CAPITAL
Boeing 727 da Iraqi Airways destruído e blindado americano
na pista do aeroporto de Bagdá. Ao lado, TV do Iraque mostra
imagens de Saddam sendo aclamado nas ruas, na quinta-feira passada
|
A única
esperança do regime de Saddam diante de inimigos tão poderosos
é prolongar a guerra até esgotar a paciência da opinião
pública americana. Mais ou menos como aconteceu no Vietnã.
Os iraquianos podem tentar fazer isso com uma defesa encarniçada
de sua capital, com soldados e paramilitares defendendo casa por casa.
A rapidez com que as tropas americanas apertaram o cerco ao coração
do regime faz supor outro desfecho. O que os iraquianos vêem no
campo de batalha não dá margem a esperanças. Na semana
passada, duas das seis divisões da Guarda Republicana, as melhores
tropas de que o Iraque dispõe, foram pulverizadas pelos bombardeios
aéreos e pelo fogo de artilharia na periferia sul de Bagdá,
com baixas mínimas entre os americanos. Os sobreviventes renderam-se
ou recuaram para dentro da cidade. A tomada do aeroporto forneceu aos
aliados uma base perfeita para desembarcar tropas e equipamentos no coração
da cidadela inimiga. Do terminal, que se chamava Saddam Hussein e já
foi rebatizado pelos americanos como Aeroporto Internacional de Bagdá,
parte uma avenida de seis pistas que vai direto à área central,
em que se ergue o palácio presidencial do ditador.
Nem nos Estados
Unidos existe consenso a respeito da guerra, em seus aspectos moral, tático
e estratégico. Ao contrário, há muita crítica
ao presidente George W. Bush e aos falcões direitistas de que ele
se cerca no governo. Generais de pijama, contratados como comentaristas
pela televisão americana, acusaram o secretário de Defesa,
Donald Rumsfeld, de ter enviado soldados de menos ao campo de batalha,
arriscando-se a uma derrota humilhante por falta de guerreiros, de suprimento
para os soldados, além de peças de reposição
e combustível para o arsenal de guerra em movimento rumo a Bagdá.
Rumsfeld, mais ideólogo que estrategista, disse acreditar que um
exército moderno vence mais por sua rapidez e sua tecnologia do
que pelo tamanho da tropa. Na Guerra do Golfo, em 1991, foram mobilizados
500.000 homens para expulsar Saddam Hussein do Kuwait.
Desta vez são apenas 310.000 na região
do Golfo, com pouco mais de 100.000 deles no Iraque.
As críticas
sobre a estratégia americana foram amortecidas pelo rápido
avanço das tropas. Ainda assim, falta mão-de-obra militar
para completar a ocupação do território. A maioria
das cidades foi cercada, mas não ocupada. Para dar fôlego
à linha de frente, o Pentágono já ordenou um reforço
de 100.000 homens muitos deles devem estar
prontos para entrar em ação ainda neste mês. A estratégia
também é um sucesso no que se refere a causar grandes perdas
ao inimigo com baixas mínimas nas tropas atacantes. Entre mortos
e desaparecidos em combate, americanos e ingleses tinham perdido até
sexta-feira passada cerca de 100 soldados. É muito pouco para uma
operação dessa envergadura. Em 1967, quando esmagaram cinco
exércitos árabes em seis dias, os israelenses tiveram 700
baixas.
Reuters
 |
O
QUE VEM DEPOIS
Bush discursa para fuzileiros navais nos Estados Unidos: com a guerra
no estágio final, desafio maior será obter apoio dos
iraquianos para reconstruir o Iraque |
Os ataques
pela retaguarda dos fedains de Saddam a milícia paramilitar
comandada por Udai, o filho mais velho do ditador , que nos primeiros
dias tanto assustaram os americanos, são agora um incômodo
menor. A vitória americana repousa na total disparidade de poder
de fogo e tecnologia bélica. Em duas semanas de ataques aéreos,
os Estados Unidos lançaram 4 400 mísseis e bombas inteligentes
sobre o inimigo. Isso representa apenas 10% do estoque preparado para
esta campanha. O controle americano do espaço aéreo é
tão completo que nenhum avião da força iraquiana
ousou levantar vôo. Os radares de mira da artilharia antiaérea
do Iraque são facilmente localizados pelo monitoramento eletrônico
e destruídos em segundos. Por isso, os iraquianos os deixam desligados
e disparam a esmo seus mísseis, sem perigo para a aviação
dos Estados Unidos. Os tiros dos tanques iraquianos M-55, fabricados na
antiga União Soviética, têm alcance de 1 quilômetro,
sem precisão. Os Abrams americanos atingem, com exatidão,
alvos a 1,5 quilômetro de distância. Também atiram
em qualquer direção, enquanto os M-55 só disparam
para a frente. Na primeira semana, catorze tanques ingleses enfrentaram
o mesmo número de blindados iraquianos em campo aberto. Destruíram
todos eles, sem uma única baixa.
O Exército
de Saddam Hussein é o maior do mundo árabe. É também
o mais experiente, tendo lutado com bravura desde a Guerra do Yom Kipur,
contra Israel, em 1973. Nada disso valeu diante do moedor de carne americano.
Blindados da Guarda Republicana que defendiam Bagdá foram dizimados
por bombas CBU-105 lançadas de bombardeiros B-52. Cada bomba produz
quarenta projéteis que localizam pelo calor o motor dos tanques
inimigos, cobrindo de destruição uma área equivalente
a sete campos de futebol colocados lado a lado. A superioridade americana
é comprovada até mesmo no equipamento pessoal. Todo soldado
tem óculos de visão noturna e um fuzil de assalto equipado
com mira a laser e lançador de granada. O colete à prova
de balas, feito de kevlar e reforçado com placa de cerâmica,
protege o soldado dos projéteis de fuzis. Os iraquianos contam
apenas com seu AK-47, o fuzil russo que é a arma-padrão
no Oriente Médio, e uma quantidade limitada de munição
adicional.
O primeiro-ministro
inglês, Tony Blair, que tem sua parcela no mérito da vitória
militar, declarou na semana passada que gostaria que a ONU tivesse papel
decisivo no Iraque pós-Saddam. A proposta conta com o apoio de
seu colega espanhol José María Aznar, que também
apoiou os Estados Unidos, apesar de não ter enviado tropas para
o Golfo Pérsico. Não é o que o governo George W.
Bush pretende fazer. O secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, e
seu vice, Paul Wolfowitz, já afirmaram que, uma vez que os Estados
Unidos tenham vencido a guerra, eles terão o direito de reconstruir
o Iraque seguindo apenas a política de Washington. O plano é
colocar um general americano para administrar o país por um período
mínimo de três meses, prorrogável pelo prazo que for
necessário. Na semana passada, ao visitar os chanceleres da União
Européia, em Bruxelas, o secretário de Estado Colin Powell
afirmou que vê apenas um papel humanitário para a ONU. É
o esquema básico usado na Alemanha e no Japão no fim da
II Guerra. Muitos iraquianos vão festejar a queda da ditadura de
Saddam mas como irão reagir a um governo militar estrangeiro?
E os demais países árabes que ainda têm vivo na memória
o período em que eram colônias da Inglaterra e da França?
Em ensaio sobre o tema, o jornalista Fareed Zakaria, da revista Newsweek,
lembrou que alemães e japoneses também não gostaram
do arranjo em 1945. Mas dez anos mais tarde, com seus países convertidos
em prósperas democracias, manifestavam sem pudor seu agradecimento
aos americanos. Talvez seja preciso esperar dez anos para saber em que
resultou a guerra no Iraque.
|
|
 |