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Edição 1 797 - 9 de abril de 2003
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Guerreiros de
capacete furado

Jaime Klintowitz


Fotos AFP
TROPA DE ELITE MALTRAPILHA
Soldados da Guarda Republicana entrincheirados nos arredores de Bagdá: pouca munição e capacete furado (abaixo) contra a maior potência militar do mundo

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2000 | 2001 | 2002 | 2003
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Nesta edição
O bunker de Saddam
Para não faltar nada
Vícios, taras e crimes
À espera do sorriso
De olho nos dólares da paz
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Especial Guerra no Iraque

A batalha por Bagdá pode ser dividida em três fases. A primeira delas resume-se a aniquilar as defesas da capital do Iraque e depor o regime totalitário de Saddam Hussein. A segunda consiste em reconstruir o que foi devastado na guerra e soerguer um país que já era paupérrimo antes das guerras e, entre seus costumes bárbaros, tinha como diversão juntar multidões ululantes para ver a polícia cortar a mão de ladrões em praça pública. A terceira etapa é o estabelecimento de um governo democrático no país, como prometeu o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. O primeiro estágio é o que está mais adiantado. Na madrugada de sábado, as tropas americanas já haviam penetrado as linhas de defesa da cidade e ocupado o aeroporto, localizado a apenas 20 quilômetros do centro de Bagdá. É ainda arriscado prever por quanto tempo o governo iraquiano resistirá – mas a vitória militar dos Estados Unidos é uma questão de tempo. A fase seguinte, a da reconstrução, é também uma questão de tempo. O governo americano já escolheu um general para governar o Iraque e começa a tratar do processo de concorrência para empresas interessadas em abrir estradas, treinar professores e distribuir alimentos logo que a ocupação militar estiver completa. A terceira etapa só existe, por enquanto, no éter das boas intenções. Paradoxalmente, essa é a que terá maior impacto no futuro.

Os países vizinhos ao Iraque vêem com ceticismo a intenção americana de criar ali um regime modelar – mas, como escreveu Thomas Friedman, colunista do jornal The New York Times, aguardam com enorme curiosidade e expectativa para ver no que isso vai dar. Uma democracia para valer em Bagdá teria o impacto de uma revolução no Oriente Médio. O que se tem por lá são partidos únicos, monarquias feudais e sombrios regimes islâmicos. Um governo representativo não é o tipo de instituição que os árabes estão em condições de conquistar por si próprios. A tentativa dos Estados Unidos de criar um exemplo de democracia que se multiplique por uma região de ditaduras cruéis é vista com ceticismo pelos árabes – e com razão. Washington sempre apoiou os ditadores da região – até mesmo Saddam Hussein, antes que ele tivesse a infeliz idéia de invadir o Kuwait em 1990. Os tiranos daquela área têm sido tradicionalmente apoiados por potências imperialistas, desde que se mostrem amigáveis e capazes de controlar suas populações. Quase sem exceção, a imprensa da região apresenta a atual invasão anglo-americana do Iraque como parte de um assalto brutal de uma potência imperialista contra árabes indefesos. As analogias com a ação americana são Israel oprimindo os palestinos, os cruzados massacrando os muçulmanos em Jerusalém e a horda mongol que no século XIII chegou às portas de Bagdá. Com esse sentimento de desconfiança, fica difícil imaginar como os Estados Unidos poderão fornecer um exemplo que venha a ser respeitado e talvez seguido por outros países vizinhos do Iraque. É difícil, e a disposição dos árabes dependerá em grande parte de como os americanos vão administrar a paz pós-Saddam.

Os prognósticos iniciais eram que Saddam arrastaria americanos e ingleses para um atoleiro do tipo que Israel enfrenta nos territórios palestinos ocupados. Nesse cenário, se repetiria o pesadelo enfrentado pelos Estados Unidos no Vietnã. Para agravar a situação, esse atoleiro iria gerar uma onda de fúria popular que acabaria por engolfar os regimes árabes hoje alinhados com Washington. É muito cedo para descartar a possibilidade de a invasão do Iraque se converter no estopim da grande revolta árabe. Basta prestar atenção no campo de batalha, porém, para ver o que havia de exagerado nessas previsões. A intervenção americana no Sudeste Asiático durou dez anos. No Iraque, os atacantes precisaram de apenas duas semanas para chegar a Bagdá. É uma velocidade espetacular, como poucas vezes se viu na história militar. Em 1940, os alemães levaram 44 dias para obter a rendição da França, e isso foi chamado de "guerra-relâmpago".

Fotos AP
O INIMIGO DENTRO DA CAPITAL
Boeing 727 da Iraqi Airways destruído e blindado americano na pista do aeroporto de Bagdá. Ao lado, TV do Iraque mostra imagens de Saddam sendo aclamado nas ruas, na quinta-feira passada

A única esperança do regime de Saddam diante de inimigos tão poderosos é prolongar a guerra até esgotar a paciência da opinião pública americana. Mais ou menos como aconteceu no Vietnã. Os iraquianos podem tentar fazer isso com uma defesa encarniçada de sua capital, com soldados e paramilitares defendendo casa por casa. A rapidez com que as tropas americanas apertaram o cerco ao coração do regime faz supor outro desfecho. O que os iraquianos vêem no campo de batalha não dá margem a esperanças. Na semana passada, duas das seis divisões da Guarda Republicana, as melhores tropas de que o Iraque dispõe, foram pulverizadas pelos bombardeios aéreos e pelo fogo de artilharia na periferia sul de Bagdá, com baixas mínimas entre os americanos. Os sobreviventes renderam-se ou recuaram para dentro da cidade. A tomada do aeroporto forneceu aos aliados uma base perfeita para desembarcar tropas e equipamentos no coração da cidadela inimiga. Do terminal, que se chamava Saddam Hussein e já foi rebatizado pelos americanos como Aeroporto Internacional de Bagdá, parte uma avenida de seis pistas que vai direto à área central, em que se ergue o palácio presidencial do ditador.

Nem nos Estados Unidos existe consenso a respeito da guerra, em seus aspectos moral, tático e estratégico. Ao contrário, há muita crítica ao presidente George W. Bush e aos falcões direitistas de que ele se cerca no governo. Generais de pijama, contratados como comentaristas pela televisão americana, acusaram o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, de ter enviado soldados de menos ao campo de batalha, arriscando-se a uma derrota humilhante por falta de guerreiros, de suprimento para os soldados, além de peças de reposição e combustível para o arsenal de guerra em movimento rumo a Bagdá. Rumsfeld, mais ideólogo que estrategista, disse acreditar que um exército moderno vence mais por sua rapidez e sua tecnologia do que pelo tamanho da tropa. Na Guerra do Golfo, em 1991, foram mobilizados 500.000 homens para expulsar Saddam Hussein do Kuwait. Desta vez são apenas 310.000 na região do Golfo, com pouco mais de 100.000 deles no Iraque.

As críticas sobre a estratégia americana foram amortecidas pelo rápido avanço das tropas. Ainda assim, falta mão-de-obra militar para completar a ocupação do território. A maioria das cidades foi cercada, mas não ocupada. Para dar fôlego à linha de frente, o Pentágono já ordenou um reforço de 100.000 homens – muitos deles devem estar prontos para entrar em ação ainda neste mês. A estratégia também é um sucesso no que se refere a causar grandes perdas ao inimigo com baixas mínimas nas tropas atacantes. Entre mortos e desaparecidos em combate, americanos e ingleses tinham perdido até sexta-feira passada cerca de 100 soldados. É muito pouco para uma operação dessa envergadura. Em 1967, quando esmagaram cinco exércitos árabes em seis dias, os israelenses tiveram 700 baixas.

Reuters
O QUE VEM DEPOIS
Bush discursa para fuzileiros navais nos Estados Unidos: com a guerra no estágio final, desafio maior será obter apoio dos iraquianos para reconstruir o Iraque

Os ataques pela retaguarda dos fedains de Saddam – a milícia paramilitar comandada por Udai, o filho mais velho do ditador –, que nos primeiros dias tanto assustaram os americanos, são agora um incômodo menor. A vitória americana repousa na total disparidade de poder de fogo e tecnologia bélica. Em duas semanas de ataques aéreos, os Estados Unidos lançaram 4 400 mísseis e bombas inteligentes sobre o inimigo. Isso representa apenas 10% do estoque preparado para esta campanha. O controle americano do espaço aéreo é tão completo que nenhum avião da força iraquiana ousou levantar vôo. Os radares de mira da artilharia antiaérea do Iraque são facilmente localizados pelo monitoramento eletrônico e destruídos em segundos. Por isso, os iraquianos os deixam desligados e disparam a esmo seus mísseis, sem perigo para a aviação dos Estados Unidos. Os tiros dos tanques iraquianos M-55, fabricados na antiga União Soviética, têm alcance de 1 quilômetro, sem precisão. Os Abrams americanos atingem, com exatidão, alvos a 1,5 quilômetro de distância. Também atiram em qualquer direção, enquanto os M-55 só disparam para a frente. Na primeira semana, catorze tanques ingleses enfrentaram o mesmo número de blindados iraquianos em campo aberto. Destruíram todos eles, sem uma única baixa.

O Exército de Saddam Hussein é o maior do mundo árabe. É também o mais experiente, tendo lutado com bravura desde a Guerra do Yom Kipur, contra Israel, em 1973. Nada disso valeu diante do moedor de carne americano. Blindados da Guarda Republicana que defendiam Bagdá foram dizimados por bombas CBU-105 lançadas de bombardeiros B-52. Cada bomba produz quarenta projéteis que localizam pelo calor o motor dos tanques inimigos, cobrindo de destruição uma área equivalente a sete campos de futebol colocados lado a lado. A superioridade americana é comprovada até mesmo no equipamento pessoal. Todo soldado tem óculos de visão noturna e um fuzil de assalto equipado com mira a laser e lançador de granada. O colete à prova de balas, feito de kevlar e reforçado com placa de cerâmica, protege o soldado dos projéteis de fuzis. Os iraquianos contam apenas com seu AK-47, o fuzil russo que é a arma-padrão no Oriente Médio, e uma quantidade limitada de munição adicional.

O primeiro-ministro inglês, Tony Blair, que tem sua parcela no mérito da vitória militar, declarou na semana passada que gostaria que a ONU tivesse papel decisivo no Iraque pós-Saddam. A proposta conta com o apoio de seu colega espanhol José María Aznar, que também apoiou os Estados Unidos, apesar de não ter enviado tropas para o Golfo Pérsico. Não é o que o governo George W. Bush pretende fazer. O secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, e seu vice, Paul Wolfowitz, já afirmaram que, uma vez que os Estados Unidos tenham vencido a guerra, eles terão o direito de reconstruir o Iraque seguindo apenas a política de Washington. O plano é colocar um general americano para administrar o país por um período mínimo de três meses, prorrogável pelo prazo que for necessário. Na semana passada, ao visitar os chanceleres da União Européia, em Bruxelas, o secretário de Estado Colin Powell afirmou que vê apenas um papel humanitário para a ONU. É o esquema básico usado na Alemanha e no Japão no fim da II Guerra. Muitos iraquianos vão festejar a queda da ditadura de Saddam – mas como irão reagir a um governo militar estrangeiro? E os demais países árabes que ainda têm vivo na memória o período em que eram colônias da Inglaterra e da França? Em ensaio sobre o tema, o jornalista Fareed Zakaria, da revista Newsweek, lembrou que alemães e japoneses também não gostaram do arranjo em 1945. Mas dez anos mais tarde, com seus países convertidos em prósperas democracias, manifestavam sem pudor seu agradecimento aos americanos. Talvez seja preciso esperar dez anos para saber em que resultou a guerra no Iraque.

 
 


   
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