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A
comédia da fome
"Agora
querem lançar o bolsa-figuração.
Guaribas vai virar
um pólo de cinema.
O único inconveniente é
que nordestinos
famintos só servem para interpretar
nordestinos famintos"
O
Iraque será reconstruído pelas mesmas empresas que construíram
o Brasil. A Halliburton, por exemplo, quando ainda era comandada pelo
atual vice-presidente americano, Dick Cheney, construiu o gasoduto BrasilBolívia.
A Bechtel também foi convidada para repartir o bolo bilionário
da reconstrução iraquiana. Em suas atividades no Brasil,
a Bechtel ergueu desde usinas elétricas até fábricas
de meias de náilon, mas seu nome é recordado, sobretudo,
pelos reatores nucleares de Angra dos Reis. A Fluor, cujo nome é
associado à instalação de grandes siderúrgicas
e fábricas de automóveis no Brasil, irá participar,
igualmente, da boca-livre iraquiana, da mesma forma que a Washington Group
International, a empreiteira responsável, entre nós, pelas
obras da hidrelétrica de Itaipu. Tudo indica, portanto, que o Iraque,
depois da guerra, ficará igual ao Brasil. Bagdá será
uma réplica exata de Teresina. Basra, uma réplica de Francinópolis.
Nassiriah, uma réplica de Guaribas.
O trabalho de reconstrução do Iraque será coordenado
pela Usaid, a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento
Internacional. Andrew Natsios, seu diretor, ficou conhecido no mundo todo
por ter declarado, algum tempo atrás, que os africanos não
deveriam receber remédios contra a Aids porque nem sabiam ler as
horas. A Usaid sempre foi muito ativa no Brasil. Em 1964, depois do golpe
militar, mandou seus técnicos para cá e reformou nosso ensino,
do primário até a universidade. Se aplicar a mesma receita
educacional no Iraque, conseguirá dobrar o número de analfabetos
em poucos anos. Até hoje a Usaid financia programas assistenciais
no Brasil, ligados à preservação da floresta tropical,
à prevenção da tuberculose e à luta contra
a exploração sexual de crianças. Durante a viagem
de Lula aos Estados Unidos, cogitou-se inclusive de a Usaid ajudar no
Fome Zero.
Não que o Fome Zero precise de ajuda. As melhores mentes do governo
já estão engajadas no projeto. Outro dia, o Ministério
da Cultura anunciou que pretende oferecer incentivos fiscais aos produtores
que se dispuserem a rodar seus filmes em regiões carentes, usando
mão-de-obra e figurantes locais. Depois do bolsa-escola, bolsa-renda,
bolsa-alimentação, bolsa-criança cidadã e
bolsa-qualificação profissional, agora também querem
lançar o bolsa-figuração. Guaribas vai virar um pólo
cinematográfico, a futura Hollywood do agreste. O único
inconveniente é que nordestinos famintos só servem para
interpretar nordestinos famintos. Ficam um pouco inverossímeis
em outros papéis. Temo que, nos próximos anos, tenhamos
de assistir a uns dezoito filmes sobre Antônio Conselheiro e Canudos.
Mas nunca se sabe. Pode ser que surja um novo Marlon Brando por lá.
Ou um novo Fred Astaire, que revolucione o gênero musical. Se a
experiência de implantar um pólo cinematográfico em
Guaribas der certo, os técnicos do Ministério da Cultura,
em direta concorrência com os da Usaid, podem ajudar a implantar
um em Nassiriah, transformando-a numa Hollywood do deserto. Será
nossa contribuição desinteressada para a reconstrução
do Iraque. O problema da fome, pelo menos, estará resolvido. Tanto
aqui como lá.
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