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Edição 1 797 - 9 de abril de 2003
Entrevista: Michael Schumacher

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"Meu destino
está traçado"

O pentacampeão mundial de Fórmula 1
diz que não teme morrer nas pistas
e que os pilotos de hoje precisam
mais de técnica que de coragem

Eduardo Salgado

 
Reuters
"Minha profissão não é tão perigosa quanto parece. As possibilidades de morrer são muitas para todo mundo"

Cinco vezes campeão do mundo e o maior recordista da Fórmula 1, o alemão Michael Schumacher, 34 anos, está tendo um início de temporada difícil neste ano. Ele ainda não subiu ao pódio em 2003 e está em terceiro lugar no campeonato. A última vez que o piloto alemão viu outro adversário ocupar o primeiro lugar na competição foi em setembro de 2000. O mau começo e a mudança de regras na Fórmula 1 não abalaram seu humor e a confiança de que será hexacampeão. "As novas regras não vão influenciar no resultado final", diz ele. Schumacher vive com a mulher, Corinna, e os dois filhos na cidade de Vufflens-le-Château, na Suíça. A família adora animais. "Minha casa parece um pequeno zoológico", conta o piloto. Na entrevista que concedeu a VEJA na semana passada em São Paulo, o alemão diz que veria com alegria uma vitória de Rubinho Barrichello, seu colega na Ferrari, no Grande Prêmio Brasil deste domingo, dia 6. Mas fez uma ressalva: "O.k., desde que o campeão seja eu".

Veja – Naquele acidente de 1999 na Inglaterra, em que seu carro ficou destruído, o senhor chegou a pensar que podia morrer?
Schumacher – Sim. Foi um momento muito dramático. Tive medo ao ver a parede de proteção se aproximando de mim numa velocidade altíssima. Um ou dois minutos depois do choque, tentei sair do carro. Destravei o cinto, mas não consegui mover a perna. O socorro chegou, porém eles também não conseguiam me tirar. Eu estava preso. Finalmente me tiraram e o médico me mandou deitar. Nesse instante eu tive uma experiência realmente estranha da qual ainda me recordo como se fosse ontem. Eu podia ouvir as batidas do meu coração, mas, de repente, tudo ficou escuro e senti que ele foi batendo cada vez mais devagar até parar completamente. Foi exatamente isso, nessa seqüência. Eu fui reanimado pelos médicos imediatamente, porém vivi uma cena que só tinha lido em livros e visto em filmes. Foi o pior momento da minha vida.

Veja – Essa experiência mudou sua maneira de viver ou de pilotar?
Schumacher – Não muito. Eu sou uma pessoa que acredita no destino. Minha profissão não é tão perigosa quanto parece. As possibilidades de morrer são muitas para todo mundo. Não acredito que, se parar de correr, terei maiores chances de viver mais tempo. Nos primeiros momentos depois do acidente, pensei em parar de correr. Depois, percebi que correr é o que gosto de fazer e que a vida continua.

Veja – Para alguém que ama a velocidade, o que seria pior, morrer numa corrida ou passar o resto da vida na cama?
Schumacher – Não quero pensar nessas coisas nem como hipótese. Acho que meu destino está traçado.

Veja – Quais são as maiores diferenças entre seu estilo de guiar e o do tricampeão brasileiro Ayrton Senna, morto em Ímola em 1994?
Schumacher – Senna sempre se dedicou muito ao que fazia. Sempre deu o máximo de si. O estilo de Senna era muito preciso. Parecia que dirigia sem muito esforço físico, tinha um talento natural. Nigel Mansell dirigia como um jogador de rúgbi inglês, e Senna, como um jogador de futebol brasileiro.

Veja – O senhor já bateu vários recordes na Fórmula 1. O que ainda falta para provar a si mesmo?
Schumacher – Não é por aí. Não tenho de provar nada a ninguém. O que acontece é que realmente gosto do que faço e vou continuar enquanto me sentir bem. Não corro pensando em bater um determinado número de recordes.

Veja – Os pilotos envelhecem muito rápido na Fórmula 1 por causa da pressão. O senhor não parece sofrer do mesmo modo as tensões da profissão. Por quê?
Schumacher – Quem entra ainda jovem no circuito sente, sim, a pressão. No começo, a gente acha que não ficará nessa profissão por muito tempo. Mas, se o piloto consegue se manter alguns anos, isso muda. Com o passar do tempo, eu me sinto cada vez mais confortável. Suspeito que tenha a ver com a equipe. Tenho tanto apoio que não sinto pressão. Somente a que imponho a mim mesmo. Isso me permite focar os problemas de verdade, não os artificiais. Minha vida na Fórmula 1 nunca foi tão boa quanto agora.

Veja – Como o senhor se sentirá se o brasileiro Rubinho Barrichello ganhar a corrida deste domingo no Brasil, diante da torcida brasileira?
Schumacher – Eu me lembraria com alegria do fato de ter visto o Rubens comemorando diante da torcida dele, mas, é claro, desde que eu vença o campeonato.

Veja – Quando as pessoas vibram nas arquibancadas o piloto ouve alguma coisa?
Schumacher – Não. O ronco do motor é muito alto e não se ouve nada. Até que eu gostaria, mas não dá para ouvir nada. Mas consigo ver o rosto das pessoas.

Veja – É possível distinguir o rosto das pessoas a 300 quilômetros por hora?
Schumacher – É possível ver as pessoas, mas durante certos momentos das corridas nós ficamos tão focados que não nos lembramos de vê-las. Quando você reduz a velocidade na pista depois de uma volta de classificação ou quando a corrida termina e fazemos aquela volta final de saudação aos torcedores é fácil distinguir os rostos.

Veja – Então quem o aplaude ou vaia no autódromo está perdendo tempo?
Schumacher – Não é tão radical assim. Eu sinto quando estão me incentivando. Tenho um exemplo muito claro na lembrança. Foi em Monza em 1996. Estava disputando posição com o francês Jean Alesi, da Benetton. Eu era o segundo colocado. Alesi, o primeiro. Meu carro estava mais veloz, mas eu simplesmente não conseguia ultrapassá-lo. Nesse instante, Alesi entrou no boxe para fazer seu pit stop e assumi a liderança da prova. Andei algumas voltas na frente até chegar minha vez de parar para a troca de pneus. Quando voltei não sabia se Alesi estava à minha frente ou atrás. Eu estava realmente desorientado. Quando entrei na reta e vi a torcida italiana enlouquecida nas arquibancadas soube que estava na frente de Alesi. Os torcedores me ajudaram naquele momento da prova.

Veja – Dentro do carro, vestido com o macacão corta-fogo e de capacete, o piloto sente o frio ou calor vindos de fora?
Schumacher – Claro. No inverno eu sinto muito frio em torno do pescoço, nas mãos e nos pés. As temporadas de treino ocorrem sempre no inverno e nós pilotamos em temperaturas abaixo de zero. É estranho porque faz você sentir ao mesmo tempo calor em outras partes do corpo, como por exemplo nas costas. As costas sempre ficam molhadas de suor. Nas corridas em lugares quentes também não é confortável dentro do carro. O vento da velocidade não refresca nada ali dentro.

Veja – O senhor chega a perder peso com o suadouro?
Schumacher – Sim. Eu e os outros pilotos perdemos muito peso durante as corridas. Guiar um carro de Fórmula 1 é um trabalho muito extenuante. A preparação física é essencial. Neste ano estou especialmente bem preparado fisicamente. Na última corrida, na Malásia, eu pude ver a exaustão estampada no rosto de muitos pilotos. Por natureza eu costumo suar pouco mesmo no calor. Conseqüentemente, eu me desidrato mais lentamente que muitos outros pilotos, o que é uma vantagem adicional.

Veja – O que se faz quando, no meio da corrida, dá aquela vontade invencível de ir ao banheiro?
Schumacher – Bem, é raro, mas quando isso ocorre simplesmente se faz no macacão mesmo. Mas normalmente o calor é tanto que você perde líquido pela transpiração e não sente necessidade de ir ao banheiro.

Veja – O senhor disse que a concentração durante a corrida é total. Mas é tanta a ponto de não conseguir pensar em nada, numa música, na família ou em problemas pessoais?
Schumacher – Não há necessidade de estar tão concentrado. As situações de corrida variam e é possível pensar em outras coisas sem prejuízo para o desempenho. Penso muito na minha família. Vou lhe dar um exemplo. Em 1996 minha filha estava para nascer e durante as corridas eu pensei algumas vezes em como seria bom ser pai.

Veja – Quando um piloto comete um erro estúpido na sua frente ou, em sua interpretação, age de modo pouco ético, o senhor sente raiva?
Schumacher – Claro. Em uma corrida em Spa-Francorchamps, em 1998, eu saí do sério. As pessoas nem me reconheceram. No entanto, durante as provas, quando o erro do outro não tira meu carro da pista, mas apenas o perturba, eu grito, falo palavrões, porém logo volto à calma e continuo o trabalho. A situação mais irritante é quando encontro pilotos retardatários na pista, aqueles que ficam uma volta atrás, e eles não permitem a ultrapassagem. Isso é uma atitude antiesportiva.

Veja – O senhor é descrito como uma pessoa fria e robótica. Até que ponto isso é verdade?
Schumacher – Acho muito estranho ter de provar aos outros que sou um ser humano normal. Como a maioria das pessoas, tento fazer o melhor que posso em minha profissão. Para isso, preciso ser muito disciplinado e focado. Sempre obedecendo às regras, tento aproveitar as oportunidades. Quando fiz algumas corridas dirigindo de forma mais agressiva, alguns pilotos reclamaram. Por quê? Qual é o problema? Eles achavam que eu estava dirigindo sem cuidado. Tenho uma opinião diferente da deles.

Veja – O austríaco Niki Lauda, tricampeão de Fórmula 1, disse que o senhor não é adorado porque os fãs gostam daqueles heróis com fases boas e ruins. O senhor está sempre bem. É isso?
Schumacher – Não sou tão emotivo quanto outros pilotos. Sou muito centrado e um grande pessimista. Sempre acho que as coisas não serão tão fáceis quanto parecem. Por isso, minha dedicação é elevada. Isso não quer dizer que eu seja imune ao sofrimento. Fico triste e me sinto vulnerável como todo mundo. Talvez não demonstre tanto. Quando assisto a um filme romântico ou triste, muitas vezes choro como qualquer pessoa.

Veja – O senhor gosta de dirigir quando não está trabalhando?
Schumacher – Quando estou com minha família, geralmente sou eu quem dirige. Mas não sempre. Às vezes, minha mulher pega a direção.

Veja – O senhor já dirigiu em São Paulo?
Schumacher – Já, claro. Dirijo quando vou ao circuito treinar ou a um restaurante. É muito difícil. Os engarrafamentos são inacreditáveis. De longe, é o pior lugar em que já dirigi na minha vida.

Veja – Como é sua relação com seu irmão, Ralf Schumacher?
Schumacher – Sempre dei apoio a ele e sinto muito orgulho de suas conquistas. Nosso relacionamento é como o de todos os irmãos. O mais moço quer sempre provar que é melhor que o mais velho. O mais velho, eu no caso, dá conselhos, mas o mais novo não os escuta. Entram por um ouvido e saem pelo outro. Tento cuidar dele, porém, na verdade, ele não precisa dos meus cuidados. Somos grandes amigos e nos respeitamos muito. Na pista, competimos de forma justa, mas dura. Para nós, ultrapassar o outro é sempre uma grande motivação.

Veja – As novas regras da Fórmula 1 tornarão o campeonato mais emocionante?
Schumacher – Algumas pessoas chamam a Fórmula 1 de Fórmula Enfadonha, mas isso me parece muito estranho. O número de espectadores de televisão do campeonato cresce todos os anos. Se as regras são mudadas para que as equipes baixem os custos, eu concordo. Se as mudanças são para tentar criar um novo show, não. Propostas como fazer com que os pilotos troquem de carro ao longo da temporada não fazem sentido. Discordo de algumas mudanças que foram feitas. Para mim, é muito estranha essa idéia de os mecânicos não mais poderem mexer nos carros na noite de sábado.

Veja – O senhor se considera o melhor piloto de todos os tempos?
Schumacher – Não. Nunca me considerei. Hoje tenho o melhor carro e a melhor equipe. Isso não veio de graça. Trabalhamos muito para chegar aonde chegamos. É possível que haja um piloto melhor que eu sem um carro tão bom. A comparação nunca será justa.

Veja – Mas os números de suas vitórias e conquistas não são a melhor prova?
Schumacher – Como posso dizer que sou o melhor? Não sou arrogante. Pode ser que tenha havido um piloto melhor que não tenha tido as oportunidades que tive. Outra coisa: não dá para dizer que uma pessoa foi a melhor da história do esporte. As circunstâncias mudaram muito. Como comparar os anos 50 com agora? Sinto muito medo quando tenho chance de guiar os carros que os pilotos usavam antigamente. Imagine fazer uma corrida naquilo. Naquela época, a ousadia dos pilotos contava mais. Hoje não. Fazer algo inesperado ou arriscado não é sinônimo de andar mais rápido.

Veja – Não seria mais justo se todos os pilotos dirigissem o mesmo tipo de carro?
Schumacher – Quando entrei na Fórmula 1, tinha esse desejo. Via os outros pilotos em carros melhores que o meu e sonhava. Queria provar que tinha talento. Depois de trabalhar tão pesado para ter o melhor carro, não alimento, obviamente, o mesmo sonho.

Veja – Quem será o novo Schumacher?
Schumacher – Não existe isso de um novo Schumacher. Há vários pilotos novos e talentosos com o próprio nome e personalidade. Por exemplo, tem o espanhol Fernando Alonso, o finlândês Kimi Raikkonen, o meu irmão Ralf e o colombiano Juan Pablo Montoya. Vários outros grandes pilotos já estão na Fórmula 1 há mais tempo, como o Barrichello. Quem será o campeão? Não sei.

 
 
   
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