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"Minha profissão não é tão perigosa quanto parece. As possibilidades de morrer são muitas para todo mundo" |
Cinco vezes campeão do mundo e o maior recordista da Fórmula 1, o alemão Michael Schumacher, 34 anos, está tendo um início de temporada difícil neste ano. Ele ainda não subiu ao pódio em 2003 e está em terceiro lugar no campeonato. A última vez que o piloto alemão viu outro adversário ocupar o primeiro lugar na competição foi em setembro de 2000. O mau começo e a mudança de regras na Fórmula 1 não abalaram seu humor e a confiança de que será hexacampeão. "As novas regras não vão influenciar no resultado final", diz ele. Schumacher vive com a mulher, Corinna, e os dois filhos na cidade de Vufflens-le-Château, na Suíça. A família adora animais. "Minha casa parece um pequeno zoológico", conta o piloto. Na entrevista que concedeu a VEJA na semana passada em São Paulo, o alemão diz que veria com alegria uma vitória de Rubinho Barrichello, seu colega na Ferrari, no Grande Prêmio Brasil deste domingo, dia 6. Mas fez uma ressalva: "O.k., desde que o campeão seja eu".
Veja
Naquele acidente de 1999 na Inglaterra, em que seu carro ficou
destruído, o senhor chegou a pensar que podia morrer?
Schumacher
Sim.
Foi um momento muito dramático. Tive medo ao ver a parede de proteção
se aproximando de mim numa velocidade altíssima. Um ou dois minutos
depois do choque, tentei sair do carro. Destravei o cinto, mas não
consegui mover a perna. O socorro chegou, porém eles também
não conseguiam me tirar. Eu estava preso. Finalmente me tiraram
e o médico me mandou deitar. Nesse instante eu tive uma experiência
realmente estranha da qual ainda me recordo como se fosse ontem. Eu podia
ouvir as batidas do meu coração, mas, de repente, tudo ficou
escuro e senti que ele foi batendo cada vez mais devagar até parar
completamente. Foi exatamente isso, nessa seqüência. Eu fui
reanimado pelos médicos imediatamente, porém vivi uma cena
que só tinha lido em livros e visto em filmes. Foi o pior momento
da minha vida.
Veja
Essa experiência mudou sua maneira de viver ou de pilotar?
Schumacher
Não muito. Eu sou uma pessoa que acredita no destino. Minha profissão
não é tão perigosa quanto parece. As possibilidades
de morrer são muitas para todo mundo. Não acredito que,
se parar de correr, terei maiores chances de viver mais tempo. Nos primeiros
momentos depois do acidente, pensei em parar de correr. Depois, percebi
que correr é o que gosto de fazer e que a vida continua.
Veja
Para alguém que ama a velocidade, o que seria pior, morrer
numa corrida ou passar o resto da vida na cama?
Schumacher
Não
quero pensar nessas coisas nem como hipótese. Acho que meu destino
está traçado.
Veja
Quais são as maiores diferenças entre seu estilo
de guiar e o do tricampeão brasileiro Ayrton Senna, morto em Ímola
em 1994?
Schumacher
Senna sempre se dedicou muito ao que fazia. Sempre deu o máximo
de si. O estilo de Senna era muito preciso. Parecia que dirigia sem muito
esforço físico, tinha um talento natural. Nigel Mansell
dirigia como um jogador de rúgbi inglês, e Senna, como um
jogador de futebol brasileiro.
Veja
O senhor já bateu vários recordes na Fórmula
1. O que ainda falta para provar a si mesmo?
Schumacher
Não é por aí. Não tenho de provar nada a ninguém.
O que acontece é que realmente gosto do que faço e vou continuar
enquanto me sentir bem. Não corro pensando em bater um determinado
número de recordes.
Veja Os pilotos envelhecem muito rápido na Fórmula
1 por causa da pressão. O senhor não parece sofrer do mesmo
modo as tensões da profissão. Por quê?
Schumacher
Quem entra ainda jovem no circuito sente, sim, a pressão. No começo,
a gente acha que não ficará nessa profissão por muito
tempo. Mas, se o piloto consegue se manter alguns anos, isso muda. Com
o passar do tempo, eu me sinto cada vez mais confortável. Suspeito
que tenha a ver com a equipe. Tenho tanto apoio que não sinto pressão.
Somente a que imponho a mim mesmo. Isso me permite focar os problemas
de verdade, não os artificiais. Minha vida na Fórmula 1
nunca foi tão boa quanto agora.
Veja Como o senhor se sentirá se o brasileiro Rubinho
Barrichello ganhar a corrida deste domingo no Brasil, diante da torcida
brasileira?
Schumacher
Eu me lembraria com alegria do fato de ter visto o Rubens comemorando
diante da torcida dele, mas, é claro, desde que eu vença
o campeonato.
Veja Quando as pessoas vibram nas arquibancadas o piloto
ouve alguma coisa?
Schumacher
Não. O ronco do motor é muito alto e não se ouve
nada. Até que eu gostaria, mas não dá para ouvir
nada. Mas consigo ver o rosto das pessoas.
Veja
É possível distinguir o rosto das pessoas a 300
quilômetros por hora?
Schumacher
É
possível ver as pessoas, mas durante certos momentos das corridas
nós ficamos tão focados que não nos lembramos de
vê-las. Quando você reduz a velocidade na pista depois de
uma volta de classificação ou quando a corrida termina e
fazemos aquela volta final de saudação aos torcedores é
fácil distinguir os rostos.
Veja
Então quem o aplaude ou vaia no autódromo está
perdendo tempo?
Schumacher
Não é tão radical assim. Eu sinto quando estão
me incentivando. Tenho um exemplo muito claro na lembrança. Foi
em Monza em 1996. Estava disputando posição com o francês
Jean Alesi, da Benetton. Eu era o segundo colocado. Alesi, o primeiro.
Meu carro estava mais veloz, mas eu simplesmente não conseguia
ultrapassá-lo. Nesse instante, Alesi entrou no boxe para fazer
seu pit stop e assumi a liderança da prova. Andei algumas voltas
na frente até chegar minha vez de parar para a troca de pneus.
Quando voltei não sabia se Alesi estava à minha frente ou
atrás. Eu estava realmente desorientado. Quando entrei na reta
e vi a torcida italiana enlouquecida nas arquibancadas soube que estava
na frente de Alesi. Os torcedores me ajudaram naquele momento da prova.
Veja Dentro do carro, vestido com o macacão corta-fogo
e de capacete, o piloto sente o frio ou calor vindos de fora?
Schumacher
Claro. No inverno eu sinto muito frio em torno do pescoço, nas
mãos e nos pés. As temporadas de treino ocorrem sempre no
inverno e nós pilotamos em temperaturas abaixo de zero. É
estranho porque faz você sentir ao mesmo tempo calor em outras partes
do corpo, como por exemplo nas costas. As costas sempre ficam molhadas
de suor. Nas corridas em lugares quentes também não é
confortável dentro do carro. O vento da velocidade não refresca
nada ali dentro.
Veja
O senhor chega a perder peso com o suadouro?
Schumacher
Sim.
Eu e os outros pilotos perdemos muito peso durante as corridas. Guiar
um carro de Fórmula 1 é um trabalho muito extenuante. A
preparação física é essencial. Neste ano estou
especialmente bem preparado fisicamente. Na última corrida, na
Malásia, eu pude ver a exaustão estampada no rosto de muitos
pilotos. Por natureza eu costumo suar pouco mesmo no calor. Conseqüentemente,
eu me desidrato mais lentamente que muitos outros pilotos, o que é
uma vantagem adicional.
Veja
O que se faz quando, no meio da corrida, dá aquela vontade
invencível de ir ao banheiro?
Schumacher
Bem,
é raro, mas quando isso ocorre simplesmente se faz no macacão
mesmo. Mas normalmente o calor é tanto que você perde líquido
pela transpiração e não sente necessidade de ir ao
banheiro.
Veja O senhor disse que a concentração durante
a corrida é total. Mas é tanta a ponto de não conseguir
pensar em nada, numa música, na família ou em problemas
pessoais?
Schumacher Não
há necessidade de estar tão concentrado. As situações
de corrida variam e é possível pensar em outras coisas sem
prejuízo para o desempenho. Penso muito na minha família.
Vou lhe dar um exemplo. Em 1996 minha filha estava para nascer e durante
as corridas eu pensei algumas vezes em como seria bom ser pai.
Veja
Quando um piloto comete um erro estúpido na sua frente
ou, em sua interpretação, age de modo pouco ético,
o senhor sente raiva?
Schumacher
Claro.
Em uma corrida em Spa-Francorchamps, em 1998, eu saí do sério.
As pessoas nem me reconheceram. No entanto, durante as provas, quando
o erro do outro não tira meu carro da pista, mas apenas o perturba,
eu grito, falo palavrões, porém logo volto à calma
e continuo o trabalho. A situação mais irritante é
quando encontro pilotos retardatários na pista, aqueles que ficam
uma volta atrás, e eles não permitem a ultrapassagem. Isso
é uma atitude antiesportiva.
Veja
O senhor é descrito como uma pessoa fria e robótica.
Até que ponto isso é verdade?
Schumacher Acho
muito estranho ter de provar aos outros que sou um ser humano normal.
Como a maioria das pessoas, tento fazer o melhor que posso em minha profissão.
Para isso, preciso ser muito disciplinado e focado. Sempre obedecendo
às regras, tento aproveitar as oportunidades. Quando fiz algumas
corridas dirigindo de forma mais agressiva, alguns pilotos reclamaram.
Por quê? Qual é o problema? Eles achavam que eu estava dirigindo
sem cuidado. Tenho uma opinião diferente da deles.
Veja
O austríaco Niki Lauda, tricampeão de Fórmula
1, disse que o senhor não é adorado porque os fãs
gostam daqueles heróis com fases boas e ruins. O senhor está
sempre bem. É isso?
Schumacher
Não sou tão emotivo quanto outros pilotos. Sou muito centrado
e um grande pessimista. Sempre acho que as coisas não serão
tão fáceis quanto parecem. Por isso, minha dedicação
é elevada. Isso não quer dizer que eu seja imune ao sofrimento.
Fico triste e me sinto vulnerável como todo mundo. Talvez não
demonstre tanto. Quando assisto a um filme romântico ou triste,
muitas vezes choro como qualquer pessoa.
Veja
O senhor gosta de dirigir quando não está trabalhando?
Schumacher
Quando estou com minha família, geralmente sou eu quem dirige.
Mas não sempre. Às vezes, minha mulher pega a direção.
Veja
O senhor já dirigiu em São Paulo?
Schumacher
Já,
claro. Dirijo quando vou ao circuito treinar ou a um restaurante. É
muito difícil. Os engarrafamentos são inacreditáveis.
De longe, é o pior lugar em que já dirigi na minha vida.
Veja
Como é sua relação com seu irmão,
Ralf Schumacher?
Schumacher Sempre
dei apoio a ele e sinto muito orgulho de suas conquistas. Nosso relacionamento
é como o de todos os irmãos. O mais moço quer sempre
provar que é melhor que o mais velho. O mais velho, eu no caso,
dá conselhos, mas o mais novo não os escuta. Entram por
um ouvido e saem pelo outro. Tento cuidar dele, porém, na verdade,
ele não precisa dos meus cuidados. Somos grandes amigos e nos respeitamos
muito. Na pista, competimos de forma justa, mas dura. Para nós,
ultrapassar o outro é sempre uma grande motivação.
Veja
As novas regras da Fórmula 1 tornarão o campeonato
mais emocionante?
Schumacher
Algumas
pessoas chamam a Fórmula 1 de Fórmula Enfadonha, mas isso
me parece muito estranho. O número de espectadores de televisão
do campeonato cresce todos os anos. Se as regras são mudadas para
que as equipes baixem os custos, eu concordo. Se as mudanças são
para tentar criar um novo show, não. Propostas como fazer com que
os pilotos troquem de carro ao longo da temporada não fazem sentido.
Discordo de algumas mudanças que foram feitas. Para mim, é
muito estranha essa idéia de os mecânicos não mais
poderem mexer nos carros na noite de sábado.
Veja
O senhor se considera o melhor piloto de todos os tempos?
Schumacher
Não. Nunca me considerei. Hoje tenho o melhor carro e a melhor
equipe. Isso não veio de graça. Trabalhamos muito para chegar
aonde chegamos. É possível que haja um piloto melhor que
eu sem um carro tão bom. A comparação nunca será
justa.
Veja
Mas os números de suas vitórias e conquistas não
são a melhor prova?
Schumacher
Como
posso dizer que sou o melhor? Não sou arrogante. Pode ser que tenha
havido um piloto melhor que não tenha tido as oportunidades que
tive. Outra coisa: não dá para dizer que uma pessoa foi
a melhor da história do esporte. As circunstâncias mudaram
muito. Como comparar os anos 50 com agora? Sinto muito medo quando tenho
chance de guiar os carros que os pilotos usavam antigamente. Imagine fazer
uma corrida naquilo. Naquela época, a ousadia dos pilotos contava
mais. Hoje não. Fazer algo inesperado ou arriscado não é
sinônimo de andar mais rápido.
Veja
Não seria mais justo se todos os pilotos dirigissem o
mesmo tipo de carro?
Schumacher
Quando
entrei na Fórmula 1, tinha esse desejo. Via os outros pilotos em
carros melhores que o meu e sonhava. Queria provar que tinha talento.
Depois de trabalhar tão pesado para ter o melhor carro, não
alimento, obviamente, o mesmo sonho.
Veja
Quem será o novo Schumacher?
Schumacher
Não existe isso de um novo Schumacher. Há vários
pilotos novos e talentosos com o próprio nome e personalidade.
Por exemplo, tem o espanhol Fernando Alonso, o finlândês Kimi
Raikkonen, o meu irmão Ralf e o colombiano Juan Pablo Montoya.
Vários outros grandes pilotos já estão na Fórmula
1 há mais tempo, como o Barrichello. Quem será o campeão?
Não sei.
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