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Sérgio
Abranches
Batalha
verbal
"A
coalizão governista é frágil
e minoritária. Para legislar, precisa
dos votos que já foram de FHC"
Ilustração Ale Setti
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Quem assistiu à sessão da Câmara dos Deputados na
qual o governo aprovou a emenda que retirou quase toda a regulamentação
do sistema financeiro nacional da Constituição, por 442
votos 222 da coalizão governista, 160 da oposição
e sessenta do PMDB, que se declara independente , tem até
maior dificuldade para entender como se chegou a esse resultado. Não
por acaso, vez por outra, um deputado mais gaiato dirigia-se ao presidente
da mesa, João Paulo Cunha: "Presidente, pela ordem, só para
entender, o regimento permite que se encaminhe contra e vote a favor?".
Na hora de encaminhar a votação pelo regimento, três
deputados encaminham contra e três a favor , falavam contra
a proposta parlamentares governistas do PT, do PDT e do PCdoB e, a favor,
deputados do PT, do PFL e do PSDB, os dois últimos partidos formalmente
em oposição. Mas os governistas votaram a favor, grande
número se dizendo "contrariado", e a oposição também.
A "batalha do 192" foi puramente verbal. A maior parte do calor veio do
PT e do PCdoB. Foi exemplar desses dias de troca de posições
com governistas e oposicionistas perdidos em seus novos papéis.
Ouviu-se deputado petista dizer que denunciaria o presidente Lula como
traidor do povo e da soberania nacional se enviasse projeto de autonomia
do Banco Central ao Congresso. A briga real sempre foi pela autonomia
do BC.
PSDB e PFL não sabem o que fazer. O governo está implementando,
com mais autoritarismo e inflexibilidade, a agenda de quando eles eram
governo. A disputa sobre o 192 descambou para um bate-boca sobre a autoria
da emenda. O PSDB dizia que o governo passava o rolo compressor para fazer
o PT votar a "emenda Serra". O PT dizia que estava votando a "emenda Jefferson
Peres", para a qual o PT contribuíra, escoimando os "desvios" do
projeto de Serra. Meias verdades. A verdade inteira é que José
Serra, quando senador, redigiu o projeto de emenda à Constituição
para desconstitucionalizar o artigo 192, após longo trabalho, do
qual participaram senadores de outros partidos, como o falecido Vilson
Kleinübing, do PFL, e José Eduardo Dutra, do PT. O senador
Jefferson Peres, do PDT, como relator do projeto de emenda, redigiu um
substitutivo que foi aprovado no Senado, com amplo apoio.
Na Câmara, ele recebeu críticas e propostas de emendas em
pontos relevantes de parlamentares do PT. Emendas que foram pulverizadas
na quarta-feira, em votação preliminar à da emenda
constitucional, pelo rolo compressor governista, dirigido pelo presidente
petista da Câmara. Foi a vez de a liderança do PSDB pedir
esclarecimento. "Pela ordem, só para entender: o governo quer que
derrotemos em globo as três emendas do deputado Ricardo Berzoini
e uma do deputado Orlando Desconsi, ambos do PT, é isso?" "É
isso, correto", responde o deputado João Paulo, do PT. O PSDB votou
contra as emendas petistas, com satisfação. O PT também
votou, só que contrariado: deu 82 de seus 92 votos para derrubá-las.
As sessões se afogam em discussões bizantinas. Líderes
governistas poderiam ganhar o Oscar de contorcionismo verbal, defendendo
teses "neoliberais" com o mesmo discurso socialista e antiimperialista
usado no passado para denunciá-las. O destaque têm sido os
deputados Aldo Rebelo (PCdoB) e Professor Luizinho (PT). A oposição
(PSDB e PFL) faz discursos "acusando" o governo de repetir FHC e para
dizer que votará nas propostas governistas porque elas copiam as
suas próprias.
O governo está dando continuidade à agenda de FHC, a qual
xingava de neoliberal, porque ela era e ainda é a agenda necessária.
Suas tropas, acostumadas a defender outras bandeiras, estão zonzas.
Com esforço, atiram na direção correta. Mas o que
mais se vê é mesmo fogo amigo. A oposição teve
suas bandeiras tomadas pelo governo e não sabe o que fazer. Esperneia
no vazio. Acaba adotando atitudes reacionárias para atazanar o
governo, como fez o PSDB em discussão recente sobre o estatuto
da igualdade racial. Na votação das reformas provavelmente
vai ocorrer a mesma coisa. A confusão será enorme. O rolo
compressor do governo talvez tenha de fazer baixas na esquerda para aprovar
quesitos mais controvertidos da reforma da Previdência.
A votação da questão menos controversa da nova pauta
petista mostrou o que se sabia. A coalizão governista é
frágil e minoritária. Para legislar, precisa dos votos que
já foram de FHC. Enquanto estiver implementando a agenda que o
próprio PT chamava de neoliberal e acusava de ser antipopular e
contrária aos interesses do país, terá esses votos.
Logo, apesar da desorientação geral, ao final o país
se salvará e as reformas serão aprovadas.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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