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Edição 1 797 - 9 de abril de 2003
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De costas para a vida

A Igreja Católica não é a única instituição que se paralisa quando precisa lidar com questões ligadas ao sexo. Os governos, as escolas, mesmo as corporações empresariais têm dificuldades para estabelecer normas comportamentais no terreno sexual que não sejam invasivas, obsoletas ou claramente inaplicáveis na vida real das pessoas. Mas a Igreja Católica é de longe a instituição que se mostra a mais despreparada para fazer face a desafios dessa natureza. No ano passado, a hierarquia do Vaticano agiu com lentidão e aparentemente a contragosto na crise dos padres pedófilos nos Estados Unidos. Por pouco não saiu totalmente desmoralizada do escândalo.

Agora, chega às livrarias italianas uma obra do Conselho Pontifício para a Família destinada a esclarecer os católicos acerca de "termos ambíguos" relacionados à sexualidade e à reprodução humana. O livro tem a chancela do Vaticano e seus 78 verbetes são uma amostra de que a Igreja Católica não chegou ao século XXI. Muitos dos conceitos ali expostos são obsoletos, outros quase ofensivos, como o que trata da homossexualidade. No que diz respeito à prevenção da Aids, o léxico do Vaticano contraria frontalmente as campanhas governamentais de saúde, algumas muito bem-sucedidas, como a brasileira, que incentivam o uso da camisinha para evitar doenças e a gravidez indesejada.

"Não existe sexo seguro. A única estratégia totalmente eficaz é a abstinência e a relação sexual monogâmica no matrimônio", estabelece irrealisticamente o documento da Igreja. Essa declaração tem até algum amparo na ciência, já que os preservativos não atingiram ainda o grau de 100% de eficácia. Mas a pregação do Vaticano contra os preservativos é inócua e irresponsável, especialmente no que se refere aos jovens. Eles se iniciam sexualmente muito cedo e se mostram, a cada geração, mais refratários a obedecer a normas de comportamento ditadas por clérigos celibatários que nada entendem da prática do sexo, do amor entre homem e mulher, da reprodução e criação de filhos. Ao condenar o uso da camisinha, o documento do Vaticano divulgado na semana passada atende à ética católica mas é um desastre de comunicação que não ajuda em nada a diminuir a exposição dos jovens aos perigos do mundo, como a praga da Aids e os riscos da gravidez precoce, que interrompe dramaticamente o curso normal da vida de tantas adolescentes. Veja reportagem.

 
 
   
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