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Tales
Alvarenga
O preço do calote
"No Brasil, muita gente comemora ao ver
um
país emergente como a Argentina enfrentando
gringos de peito aberto. Mas é a Argentina que
deve ter inveja do Brasil, não o contrário"
O Fórum Social de Porto Alegre, a maior
reunião anticapitalista do mundo, já tem um novo herói,
o presidente da Argentina, Néstor Kirchner. No último
encontro, o herói da multidão foi o presidente venezuelano,
Hugo Chávez, um populista fanfarrão. Tudo o que é
contra a economia de mercado, o sistema financeiro e as multinacionais
também alegra os freqüentadores do Fórum Social.
Por ideologia, eles detestam o agronegócio e veneram a agricultura
primitiva e oportunista do MST.
O presidente Néstor Kirchner será
muito aplaudido em Porto Alegre se por lá aparecer no ano
que vem porque na semana passada conseguiu aplicar o maior calote
da história naqueles que compraram papéis da dívida
argentina. De um total de 103 bilhões de dólares de
dívida, Kirchner ofereceu-se para pagar 30% em até
42 anos. Cerca de 76% dos investidores aceitaram a migalha. Era
isso ou nada.
Foi uma vitória política e econômica
de Néstor Kirchner. O sucesso está no fato de que
sua manobra para acuar os credores deu certo. Ele informou aos detentores
dos bônus argentinos, meio milhão de cidadãos
de classe média espalhados pelo mundo, além de investidores
profissionais, que simplesmente não tinha dinheiro para quitar
mais do que um terço do que devia.
O risco para o Brasil, em relação
a essa vitória de Kirchner, é que passe pela cabeça
dos brasileiros a idéia de imitá-lo. Por aqui, muita
gente comemora ao ver um país emergente como a Argentina
enfrentando gringos de peito aberto. Especialmente aqueles que acusam
o ministro Antonio Palocci de levar muito a sério a disciplina
fiscal.
Na semana passada, ao se encontrar com o presidente
Lula e o venezuelano Hugo Chávez, em Montevidéu, Kirchner
convidou-os a se unir para negociar juntos melhores condições
de pagamento com organismos multilaterais de crédito como
o Fundo Monetário Internacional. Lula e Chávez ficaram
animados com o convite e combinaram que seus ministros da Fazenda
deverão se reunir para discutir o tema dentro de um mês.
Nesta hora, é bom saber que na Fazenda brasileira está
um ministro como Antonio Palocci, que detesta fanfarronices.
É ainda cedo para dizer se os investidores
passarão a fugir de Buenos Aires, mas essa é a maior
probabilidade. Ao contrário do que se anda dizendo, a Argentina
entrou no inferno na semana passada. Terá de enfiar a mão
no bolso e pagar juros e parcelas da dívida renegociada e
também o resto de seus débitos que ficaram de fora
do calote e que são gigantescos. A dívida pública
argentina representa agora 72% do PIB do país. A brasileira,
52%.
Os brasileiros que aprovaram a bravata de
Kirchner devem entender que a Argentina faliu antes de decretar
moratória. No Brasil do presidente Fernando Collor, também
havia uma desculpa para ele fazer o confisco da poupança
popular: a superinflação de 80% ao mês. Nada
produziu a não ser um ambiente de grande instabilidade. No
Brasil de Lula, o país tem caixa para saldar seus compromissos,
respeita os contratos com investidores e conquistou a confiança
da comunidade financeira internacional. Tornou-se um país
adulto, coisa que não era no tempo de Collor. A Argentina
é que deve ter inveja do Brasil, não o contrário.
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