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Ponto
de vista: Lya Luft Notas
sobre cinema
"O filme Perto
Demais retrata, entre muitos,
um aspecto marcante do nosso tempo: a superficialidade
e o hedonismo burro com que tantas vezes
nos desperdiçamos" Antes que
alguém tresleia, explico que não entendo de cinema, não sou
cinéfila, não sei citar diretores nem produtores, apenas freqüento
cinemas como qualquer mortal. Há filmes que a crítica malha e me
agradam, há filmes que a crítica dita sofisticada endeusa e me entediam.
Como passo os dias neste computador lidando com reflexão, destino, personagens,
tramas, não curto demais, fora desta casa, nada tão hermético
que nem o próprio diretor ou roteirista entendem. Dito isso, vou escrever
aqui sobre o que mexeu comigo em dois filmes recentes.
O primeiro foi Closer, que de "Mais Perto" resolveram traduzir como Perto
Demais. Tinham-me falado do filme de várias maneiras: muitas mulheres
dizendo que ele mostrava mais uma vez que "homens não prestam, são
todos infantis e boçais"; outros, que revelava a diferença abissal
entre masculino e feminino isso me interessou, pois um de meus projetos
atuais de trabalho é um pequeno ensaio sobre o assunto fascinante.
Atomic
Studio
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Seja
como for, assisti sem esperar nem grande decepção nem maior entusiasmo.
Ao sair me perguntei: de que, resumidamente, trata esse filme? Perto Demais
trata de desencontro e solidão. De incomunicabilidade. De futilidade,
de não-entrega. O que menos se aborda ali é amor. Nada vi de diferenças
marcantes entre masculino e feminino: ao contrário, todo mundo está
com alguém, mas de olho no outro, e tanto faz qual o sexo de quem; saboreando
um, espreita o vizinho. Perto Demais retrata, entre muitos, um aspecto
marcante do nosso tempo: a superficialidade e o hedonismo burro com que tantas
vezes nos desperdiçamos.
• • • Menina de Ouro me desagradaria de saída,
pois detesto violência, sobretudo física, e nunca entendi como se
pode ferir e deixar-se ferir enquanto outros seres humanos em torno torcem como
se fossem todos, no ringue e fora dele, animais. Por outro lado, o tema da eutanásia
é difícil, duro, e a algumas pessoas toca muito de perto: por exemplo,
a quem eventualmente assistiu, ano após ano, à deterioração
mental e física de uma pessoa amada, indizível sofrimento. Bom para
provocar os falsos moralistas no mundo inteiro. Mas o diretor Clint Eastwood disse
numa entrevista que não quis fazer um filme sobre boxe nem sobre eutanásia.
Fez um filme sobre a precariedade da vida, e sobre os sentimentos humanos. Para
quem escreve sobre eles e sobre família em especial, o filme provocou um
mar de reflexões. O treinador, culpado,
batendo anos a fio à porta de uma filha rancorosa que lhe devolvia pontualmente
as cartas, encontrou na jovem boxeadora alguém que soube valorizá-lo,
que precisava dele, e que lhe deu tudo o que a sua filha de sangue negava. Para
a moça, solitária e desamada, o velho treinador, fingidamente frio
e crítico, foi a família que ela não teve. Ou melhor: tinha,
mas antes não existisse, pois era fria, aproveitadora, ridicularizando
seus esforços e ignorando seus sentimentos.
Mocinha e treinador jogavam pérolas a porcos. A vida lhes deu uma chance
de escolher algo mais, na arguta e comovida visão de Clint Eastwood, a
quem a passagem do tempo foi extremamente favorável. Os obcecados pela
beleza física e pela eterna juventude dirão que ele está
enrugado, feioso, torto até mas que ator. E que diretor. Que abrangência
de talentos, pois até da trilha musical ele cuida. Grande filme sobre dois
grandes personagens, aparentemente fracassados, mas poderosos na sua generosidade
em dar e aceitar amor. Boa sugestão: transformou-se o desperdício
em generosa troca. Lya Luft é
escritora |