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 Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Que
é isto? Qué es esto? Perplexidade
e indagações diante
de três esquisitices do mundo
político em curso nestes dias
Que é isso, companheiro Severino?
Com que entusiasmo, com que ganas o "rei do baixo clero" assumiu o cargo de presidente
da Câmara dos Deputados! É Severino Cavalcanti para cá e para
lá. Severino em Dom Pedrito, lá perto da fronteira com o Uruguai,
triunfalmente encarapitado numa colheitadeira, como estrela da festa de abertura
da colheita de arroz, e no outro dia Severino no outro extremo do país,
em Roraima, a discutir a demarcação de terras indígenas.
Até mostrar o umbigo ele mostrou numa espetacular foto na primeira
página de O Globo, em que a camisa aberta na altura da cintura deixava-lhe
aquele gentil recanto da barriguinha à mostra.
Quem chegasse de repente poderia pensar que aquela simpática figura de
homem do povo era o novo presidente da República, não de uma das
Casas do Legislativo. Ou que o Brasil tinha mudado de regime e, como ocorre no
parlamentarismo, o escolhido pela Câmara é que efetivamente mandava
no país. Até primeira-dama Severino trouxe consigo, algo até
então alheio à liturgia do cargo, e dona Catharina Amélia
fez sua arrebatadora irrupção no cenário da República
ao mesmo tempo em que, coincidência ou não, a outra primeira-dama,
a legítima, dona Marisa Letícia, revelava uma certa retração.
A derrota, pelo menos temporária, do carro-chefe
de sua campanha eleitoral o aumento do salário dos parlamentares
talvez venha a baixar-lhe o facho. Mas, até prova em contrário,
estamos diante de um caso em que Severino, seus entusiastas de primeira hora e
os muitos aderentes de última hora, dentro e fora dos círculos políticos,
estão todos docemente embalados na mesma fabulação. A de
que com Severino raiou no céu da pátria a possibilidade de um Lula
de direita unidos, um e outro, pela origem sertaneja, o jeito de povão
e as permanentes e acachapantes derrotas diante dos desafios da concordância
verbal. • • •
Que é isso, companheiros do PSDB? Dá
até para entender o gostinho de vingança com que, diante do famoso
impromptu do presidente da República sobre corrupção no governo
passado, os tucanos lançaram mão da carta do impeachment. Dia sim
dia não, no governo passado, o PT queria impichar o presidente. Soam cômicas
declarações como a do ministro da Educação, Tarso
Genro, de que a abertura de processo contra Lula por crime de responsabilidade
é uma "aventura irresponsável". O mesmo Tarso Genro defendia em
1999 a renúncia de Fernando Henrique Cardoso.
O.k., dá para entender o apetite com que os próceres do PSDB se
lançaram ao prato saboroso da vingança, que se recomenda comer sempre
frio. Mas agora seria hora de decretar que a brincadeira acabou, estamos quites
e não se fala mais nisso. O impeachment é a pena capital da política.
Quando se lança mão dele por motivos fúteis e já
se sabe a esta altura que os desarranjos verbais do presidente merecem a mesma
condescendência, digamos, que os britânicos devotam à vida
amorosa do príncipe Charles , de duas uma. Ou se desmoraliza o mandato
popular, investindo contra ele como se fosse moeda de pouco valor, ou se desmoraliza
o instituto do impeachment, de tanto invocar seu santo nome em vão.
• • • Qué es esto, compañeros?
No Chile, em dezembro, na seqüência
da queda de uma ponte no sul do país uma custosa obra de engenharia,
inaugurada poucos anos antes , o ministro de Obras Públicas, Javier
Etcheberry, assumiu a responsabilidade política pelo desastre e renunciou
ao cargo. Posteriormente, quatro funcionários do ministério foram
demitidos, outro foi suspenso e outro ainda mereceu uma censura por escrito.
Na Argentina, no mês passado, o caso do contrabando, de Buenos Aires para
Madri, num avião, de quatro malas contendo 60 quilos de cocaína
levou o presidente Néstor Kirchner a demitir o comandante da Força
Aérea, Carlos Rohde, e outros dezessete brigadeiros, detentores de cargos-chave
da instituição. De quebra, Kirchner dissolveu a Polícia Aeronáutica.
No Paraguai (sim, no Paraguai) demitiram-se ou
foram demitidos pelo presidente Nicanor Duarte o ministro do Interior, Nelson
Mora, o chefe de polícia, Carlos Zelaya, e mais 31 policiais em altos cargos,
em conseqüência do seqüestro, seguido de assassinato, de Cecilia
Cubas, filha do ex-presidente Raúl Cubas. Toda a cúpula da polícia
mais o ministro a que ela é subordinada foram julgados responsáveis
pelo fracasso em localizar Cecilia com vida. No
Brasil seqüestra-se, trafica-se cocaína, caem pontes, ruem túneis,
freiras são assassinadas, sem-teto são desalojados em operações
militares, e não se registram casos de, em conseqüência, rolarem
cabeças de ministro, de secretários estaduais ou de responsáveis
municipais. Os compañeros estão dando mau exemplo. |