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Saúde Menos
gordura, mais neurose A cirurgia de redução
do estômago pode levar a depressão, bulimia, anorexia e alcoolismo,
entre outras doenças psiquiátricas  Giuliana
Bergamo
Claudio
Rossi
 | Alessandra
Cucatti Sarilho, 21 anos,
produtora Cirurgia feita em julho de 2001 Peso
antes: 145 quilos Peso
hoje: 55 quilos |
DA
OBESIDADE À BULIMIA
"Sempre culpei a gordura
por minha tristeza. Apesar de ter muitos amigos homens, nunca fui vista como mulher.
Era sempre aquela amigona com quem eles podiam contar. Isso me incomodava. Para
acabar com o sofrimento, fiz todos os tipos de dieta. Eu emagrecia, mas sempre
recuperava o peso. Cheguei ao ponto de pesar 145 quilos, e olha que só
tenho 1,65 metro de altura. Foi quando decidi fazer a cirurgia. Os primeiros dois
anos foram maravilhosos. Redescobri a vida. Os rapazes passaram a me ver como
mulher. Há pouco mais de um ano, meu corpo magro não era mais uma
novidade. Aquela tristeza que sentia quando era gorda voltou e eu novamente passei
a comer compulsivamente. Culpada e com dores por causa do excesso de comida, eu
vomitava. Tornei-me bulímica. Cheguei a vomitar vinte vezes em um único
dia. Em um ano, perdi mais de quinze quilos. Procurei tratamento psicológico
e hoje tomo antidepressivo. Sinto-me melhor. Vomito cada vez menos e tenho certeza
de que vou me curar." | |
Ao longo dos últimos dez anos, quadruplicou
o número de obesos mórbidos no Brasil. Com 45 quilos ou mais além
do limite recomendável para o seu biotipo, 2 milhões de homens e
mulheres estão naquele estágio em que a gordura pode causar complicações
que levam à morte. Nesses casos, emagrecer é urgente e o método
mais rápido e eficaz para eliminar quantidades tão grandes de tecido
adiposo é a cirurgia bariátrica a fim de limitar a ingestão
e a absorção de alimentos pelo organismo do paciente, os médicos
reduzem drasticamente o tamanho do estômago. Trazida para o Brasil no fim
da década de 70, a cirurgia bariátrica começou a ser realizada
em maior escala a partir de 2000, quando alguns seguros particulares e a rede
pública de saúde passaram a pagar os custos do procedimento. Hoje,
o país só perde para os Estados Unidos em número de procedimentos
desse tipo. Todos os anos, 15.000 brasileiros têm o estômago diminuído.
O efeito costuma ser impressionante. Passado um ano da operação,
perdem-se, em média, 40% do peso inicial. Muitos pacientes continuam gordos,
mas todos saem do patamar da obesidade mórbida. A redução
do estômago é uma cirurgia de alta complexidade e, como tal, implica
perigos. Um deles é a obstrução do intestino dias depois
do procedimento. Há, porém, um tipo de complicação
pós-operatória que não se relaciona ao ato cirúrgico
em si e sobre o qual pouco se fala. São os transtornos psiquiátricos.
Para cerca de 20% dos operados, a conquista da magreza leva a depressão,
bulimia, anorexia, alcoolismo, dependência de drogas ou compulsão
por jogo, compras ou sexo. Poucas intervenções
são tão radicais quanto as cirurgias de emagrecimento. O estômago
reduzido perde até 90% de sua capacidade de absorção. O paciente,
antes habituado a consumir até 1 quilo de comida por refeição,
vê-se obrigado a satisfazer-se com 100, no máximo 200, gramas, e
a voracidade precisa ser substituída pela paciência de mastigar dezenas
de vezes uma única garfada. Comer em excesso ou demasiadamente rápido
causa um tremendo mal-estar, cujos sintomas vão de náuseas e vômito
a taquicardia, engasgos e fraqueza. Um estômago menor requer, assim, disciplina
física e reorientação psicológica. O operado tem de
aprender a viver e pensar como magro, o que não é fácil.
Por esse motivo, diferentemente do que muita gente imagina, o tratamento cirúrgico
da obesidade não se encerra com a alta hospitalar. "Esses pacientes requerem
acompanhamento para o resto da vida", diz o cirurgião Arthur Garrido, professor
da Universidade de São Paulo e pioneiro no Brasil das operações
bariátricas. Sem o monitoramento de uma equipe de especialistas, aumentam
os riscos de manifestação de transtornos psiquiátricos.
Grande parte dos obesos sofre de compulsão por comida. Submetidos à
cirurgia bariátrica, eles não podem mais comer como antes, mas continuam
compulsivos o que faz com que desenvolvam outros distúrbios afins,
num processo de compensação. A substituição de uma
compulsão por outra é resultado da conjunção de dois
fatores. O primeiro deles é de ordem orgânica. Nesses pacientes,
a resposta do estômago à ação do hormônio da
saciedade é tímida. Além disso, eles são mais suscetíveis
ao hormônio da fome (veja quadro). Ou seja,
naturalmente sentem mais apetite e têm mais dificuldade para se fartar do
que os magros. Os obesos compulsivos por comida sofrem ainda de outro descompasso
na química cerebral. Eles produzem poucas quantidades de dopamina e serotonina,
substâncias associadas à sensação de bem-estar, determinantes
na cadeia de comando cerebral que estabelece o momento de parar de ingerir alimentos
por prazer. O resultado disso é que, por mais que comam, nunca estão
satisfeitos. Somam-se a esse desequilíbrio neuroquímico fatores
psicológicos que fazem com que a comida sirva como válvula de escape
para a falta de auto-estima que acomete os obesos. Instala-se, então, um
círculo vicioso. "Quando essas pessoas são privadas da comida, por
causa da cirurgia, elas buscam novas formas para satisfazer suas carências
psicológicas", diz Marlene Monteiro da Silva, psicóloga do Hospital
das Clínicas de São Paulo. A dona-de-casa Ana Lúcia Reis
dos Santos, de 42 anos, trocou a comida pelas compras. Em 2002, com 115 quilos
em 1,62 metro, ela submeteu-se à operação de redução
do estômago. Um ano depois, 50 quilos mais leve, quando começou a
refazer o seu guarda-roupa, Ana Lúcia se deu conta de que, apesar da silhueta
alinhada, continuava doente. "Eu fazia compras com a mesma voracidade e aflição
com que comia", lembra. Com psicoterapia e antidepressivos, Ana Lúcia acredita
que, em breve, será uma mulher magra com uma conta bancária mais
gorda. As mudanças de hábitos impostas
pela redução do estômago podem ser tão penosas que
alguns pacientes pedem que a cirurgia seja desfeita o que nem sempre é
possível. Outros criam estratégias para driblar as limitações
impostas pelo estômago reduzido e saciar a vontade de comer. A maioria escolhe
o leite condensado que é pastoso, calórico, sacia rapidamente
e pode ser digerido com facilidade. Os compulsivos, evidentemente, tomam litros
por dia. O comerciante J.S., de 42 anos, enveredou por um caminho mais perigoso.
Submetido à cirurgia bariátrica em 1997, um ano depois ele começou
a beber. Em pouco tempo, transformou-se num alcoólatra e praticamente parou
de comer. Com 1,92 metro de altura, chegou a pesar 78 quilos 112 menos
do que quando foi para a mesa de operação. Com problemas hepáticos
e conflitos no casamento por causa da bebida, há um mês ele decidiu
finalmente procurar ajuda. Está em tratamento com um psicólogo e
um psiquiatra. "Ainda não sei o que é pior: se a obesidade ou o
alcoolismo", diz, com a voz embargada. Os arquivos dos principais hospitais e
clínicas especializadas em cirurgia bariátrica guardam dramas ainda
piores. Há vários casos de pacientes que, em profunda depressão,
cometeram suicídio. Os transtornos psiquiátricos
costumam se manifestar entre o primeiro e o terceiro ano subseqüentes à
redução do estômago. É quando, passado o entusiasmo
com a nova silhueta, os ex-obesos têm de confrontar as limitações
que serão para toda a vida. Nesse momento é que, na falta de apoio,
o compulsivo volta a manifestar sua doença. A produtora Alessandra Cucatti
Sarilho, hoje com 21 anos, tinha 145 quilos acumulados em 1,65 metro de altura
quando fez a redução do estômago, em 2001. A euforia com o
novo corpo durou dois anos. Depois disso, Alessandra desabou. "Passei a sentir
aquela tristeza dos tempos em que eu era gorda", diz. Ela, então, voltou
a comer vorazmente, o que lhe causava mal-estar e culpa. A trilha estava aberta
para que se tornasse uma bulímica. Alguns
psiquiatras defendem a tese de que as operações bariátricas
podem favorecer o surgimento de transtornos alimentares que merecem ser estudados
com mais cuidado, apesar de sua semelhança com distúrbios conhecidos.
Na anorexia clássica, o doente não come porque se vê mais
gordo do que realmente é. Na bulimia tradicional, ele come, mas procura
se livrar da comida induzindo o vômito ou tomando laxantes. "Há,
entretanto, uma diferença crucial entre esses transtornos e os que se manifestam
nas pessoas que passam pela cirurgia: a motivação para tais comportamentos",
diz Adriano Segal, psiquiatra da Associação Brasileira para o Estudo
da Obesidade (Abeso). "Esses pacientes desenvolvem um tipo de anorexia e de bulimia
que ainda não foram descritos na literatura médica. Eles deixam
de se alimentar não por uma percepção distorcida do próprio
corpo, mas porque têm medo de voltar a engordar." Apesar de sutil, essa
distinção é essencial para que se criem métodos de
tratamento específicos tanto remédios como terapias
para os ex-obesos que sofrem de tais males.
Claudio
Rossi
 | Ana
Lúcia Reis dos Santos, 42
anos, dona-de-casa Cirurgia feita em 2002 Peso
antes: 115 quilos Peso
hoje: 65 quilos |
MAGRA,
MAS ENDIVIDADA "Desde criança fui gordinha.
Aos 13 anos, tomei escondido o primeiro remédio para emagrecer. Quando
minha mãe descobriu, ela me levou ao médico. Desde então,
não parei mais de fazer dieta. Emagrecia e voltava a engordar. Eu me empanturrava
de comida num dia porque jurava que no dia seguinte começaria mais uma
daquelas dietas milagrosas. O tal do "dia seguinte", porém, nunca chegava.
Optei pela operação. Quando tive de comprar roupas novas, comecei
a consumir compulsivamente. Fazia compras com a mesma voracidade com que comia.
Eu sabia que não tinha dinheiro para pagar tudo aquilo, mas, mesmo assim,
não conseguia me controlar. Depois de seis meses, fui em busca de tratamento
psiquiátrico. Hoje, faço terapia, tomo remédio e tento me
livrar das dívidas." | |
Harmonia entre mente e estômago Antonio
Milena
 | Raphael
Falavigna
 | | Adas,
antes e depois da cirurgia: compulsão sob controle |
O
empresário paulista William Adas, de 36 anos, pesava 163 quilos em 2002.
Com sérias limitações por causa da obesidade mórbida,
ele foi submetido à cirurgia bariátrica em novembro daquele ano.
Num período que se estendeu por dezesseis meses, VEJA acompanhou o início
de sua transformação. Hoje, 61 quilos mais magro, Adas lembra que
os dois meses subseqüentes à operação foram muito difíceis.
Antes da cirurgia, ele ingeria 1 quilo de comida a cada refeição.
Depois, não agüentava mais do que 200 gramas. "A luta contra a vontade
de comer era muito penosa", diz ele. "Meu estômago não conseguia
acompanhar a minha gula." Graças às visitas periódicas a
especialistas das mais diversas áreas, Adas aprendeu a controlar a compulsão.
"Hoje eu como um bife pequeno no almoço e me sinto plenamente satisfeito",
afirma. O trabalho de adaptação ao novo estômago começa
geralmente um mês antes da cirurgia. Médicos, psicólogos e
nutricionistas têm a missão de preparar o paciente para as privações
que virão. Realizada a operação, o paciente é monitorado
de três em três meses durante um ano. Se até esse momento tudo
tiver corrido bem, as avaliações passam a ser semestrais pelos próximos
três anos. Só então elas se tornam anuais (pelo resto da vida).
Infelizmente, muitos pacientes deixam de fazer esse acompanhamento e se tornam
presas fáceis para as compulsões. | |
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