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Especial A
nova química do sangue  Paula
Neiva Fotos
Fabiano Accorsi
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Uma revolução silenciosa (e sem data
para acabar) está em curso na medicina preventiva. Com uma simples gota
de sangue é possível traçar o retrato da saúde de
cada um de nós com extrema precisão. A análise sanguínea
não se restringe mais ao diagnóstico de doenças. Por meio
dela, é possível avaliar os riscos de aparecimento de moléstias
antes mesmo de seus primeiros sintomas. Os novos exames apontam os assassinos
invisíveis que percorrem a corrente sanguínea e, em algum ponto
da vida, podem desencadear diversos tipos de câncer, diabetes, doenças
cardiovasculares, moléstias infecciosas e auto-imunes. Os
exames sanguíneos tornaram-se também uma arma vital para a realização
de um antigo sonho dos médicos a individualização
dos tratamentos. Quantidades ínfimas de sangue informam como um paciente
responde a determinado medicamento. "Com isso, os médicos ganham um tempo
precioso tanto pelo diagnóstico precoce quanto pelo acompanhamento minucioso
da evolução clínica do doente", diz o patologista Rogério
Rabelo, um dos maiores estudiosos de testes de sangue automatizados do país
e pesquisador do Instituto Fleury, um importante centro de pesquisa de análises
clínicas. "Dessa forma, as chances de sucesso do tratamento aumentam sobremaneira."
O arsenal à disposição dos especialistas é vastíssimo.
Existem atualmente cerca de 5.000 tipos de exame de sangue para ajudar nos cuidados
e na prevenção dos mais diversos males do diabetes à
artrite reumatóide, das hepatites ao lúpus, dos infartos e derrames
aos cânceres de mama e de intestino. Um bom
exemplo dessa história de conquistas é um novo exame para a detecção
precoce da artrite reumatóide. Com 2 milhões de vítimas no
Brasil, a doença se caracteriza pelo ataque do sistema imunológico
contra as células das articulações. A investida desencadeia
um processo inflamatório, que danifica os ossos. O resultado são
dores terríveis e deformações, principalmente nas mãos,
nos punhos, joelhos, tornozelos e pés. Há cinco anos, surgiu o anti-CCP,
teste capaz de flagrar a artrite reumatóide em estágios bastante
iniciais o que é essencial para o controle dos danos articulares.
O exame detecta a presença de anticorpos contra a substância CCP,
produzida pelo organismo das vítimas da artrite reumatóide. Com
um índice de 98% de acerto, ele é cinco vezes mais preciso do que
os testes tradicionais.
 | | Arsenal
vasto: há cerca de 5 000 tipos de exame de sangue para o diagnóstico e a prevenção
das mais variadas doenças |
Outra área
da medicina muito beneficiada pelos avanços na qualidade das análises
sanguíneas foi a cardiologia. "Com a popularização do exame
de colesterol, na década de 50, os paradigmas do tratamento das doenças
cardíacas mudaram completamente", diz o cardiologista Raul Santos Filho,
do Instituto do Coração, de São Paulo. "A sobrevivência
da cardiologia seria praticamente inviável sem os exames de colesterol."
Baixar os níveis dessa gordura circulante no organismo reduz em um terço
as mortes por infartos e derrames. Por isso, a medição do colesterol
continua a integrar a lista dos exames sanguíneos imprescindíveis
(veja quadro na pág. 89). Além do colesterol, nos últimos
cinco anos surgiram importantes marcadores de problemas coronarianos. Quem carrega
no sangue excesso da proteína C-reativa, do aminoácido homocisteína
e da enzima fosfolipase A2 tem risco aumentado para doenças cardiovasculares.
Os novos exames só são resultado
do conhecimento mais profundo da química do sangue, sobretudo ao longo
dos últimos dez anos. Um dos campos que mais avançaram e possibilitaram
essa evolução foi o da biologia molecular, especificamente com a
criação de um método batizado de PCR, capaz de copiar pedaços
específicos de material genético bilhões de vezes em poucas
horas. Abria-se o caminho para a análise quantitativa e qualitativa de
vírus e bactérias em escala industrial e a descoberta de mutações
no DNA associadas a diversas doenças genéticas, como câncer.
O autor da façanha foi um ex-hippie americano, o químico Kary Mullins,
ganhador do Nobel de 1993 graças a sua invenção. Antes do
desenvolvimento do PCR, os exames de sangue para o tratamento de doentes infectados
por vírus ou bactérias resumiam-se aos testes de identificação
da presença desses microrganismos na circulação. Com o método
criado por Mullis, hoje os médicos conseguem definir com bastante acuidade
a quantidade e a cepa do vírus ou bactéria que causam a doença.
Esse tipo de análise é essencial no tratamento de doentes de aids
e vítimas das hepatites. Uma das grandes dificuldades do tratamento da
hepatite C, por exemplo, é que a doença exige um acompanhamento
muito rigoroso. Com a genotipagem e carga viral de HCV, o médico pode determinar
o melhor tipo de tratamento para cada paciente. É o que acontece também
com as terapias anti-aids. A contribuição
do refinamento dos exames de sangue estende-se também para o campo da oncologia.
A partir do momento em que se identificou a relação entre determinadas
mutações genéticas e o aparecimento de tumores malignos,
uma única gota de sangue passou a ser suficiente para determinar a propensão
de uma pessoa ao desenvolvimento da doença. Dessa amostra são colhidos,
geralmente, alguns linfócitos um tipo de glóbulo branco,
a estrutura sanguínea responsável pela defesa do organismo. Eles
fornecem o DNA a ser analisado. Desses exames, um dos mais novos e importantes
é o que procura defeitos nos genes MSH1 e MLH2, associados à neoplasia
de intestino. Alterações nesses genes determinam um risco 30% maior
para o aparecimento do câncer. A presença dessas anormalidades genéticas
não significa necessariamente que a pessoa vá desenvolver a doença.
Esses exames genéticos são importantes para que os pacientes invistam
mais nas medidas preventivas e fiquem mais atentos aos primeiros sinais do câncer,
caso ele se manifeste. Pelas veias e artérias
de um adulto circulam, em média, 5 litros de sangue. Numa mulher, a quantidade
é um pouco menor 4,5 litros. "O sangue é uma fonte inesgotável
de novidades científicas", diz o médico Adagmar Andriolo, professor
de patologia clínica da Universidade Federal de São Paulo. É
quase rotineira a descoberta de um novo componente ou de uma utilidade inédita
para substâncias já conhecidas (veja quadro na pág. 89).
Sabe-se hoje que o sangue carrega dezenas de milhares de compostos, além
de suas estruturas básicas os glóbulos vermelhos, os brancos
e as plaquetas. Essas microestruturas ficam mergulhadas no plasma (a parte líquida
do sangue) junto com hormônios, proteínas, gorduras, enzimas, vitaminas,
sais minerais, bactérias, entre outros. Tão importante quanto identificar,
quantificar e qualificar essas estruturas é decifrar seus benefícios
e seus malefícios para o organismo. A insulina, por exemplo, é um
hormônio essencial à vida. Cabe a ela retirar as moléculas
de açúcar da circulação e jogá-las para dentro
das células, onde se transformam em energia. O excesso desse hormônio
pode ser extremamente danoso à saúde das veias e artérias.
Em grandes quantidades, quando carregada pelo sangue, a insulina age como um arame
farpado sendo arrastado pelos vasos sanguíneos. Os danos causados por esse
processo são os responsáveis pelas principais complicações
do diabetes, como retinopatia, insuficiência renal e quadros de gangrena,
entre outras. Há dois anos começou a ganhar popularidade uma nova
utilidade para o exame de hemoglobina glicada, que mede a taxa de açúcar
no sangue até três meses antes de sua realização. Altos
índices dessa substância em circulação estão
diretamente relacionados a um aumento na probabilidade de ocorrência de
complicações.
 | | Revolução:
uma gota de sangue basta para realizar um hemograma, exame que analisa os principais
componentes sanguíneos |
Outra evolução
notável nas análises sanguíneas diz respeito aos equipamentos
utilizados. A maioria dos testes de sangue atualmente é feita por um maquinário
ultramoderno, que ocupa apenas 6 metros quadrados, mas é capaz de analisar
até 15.000 amostras de sangue por dia. Em 1960, quando o processamento
era quase totalmente manual, o espaço para fazer essa quantidade de testes
seria de 2.000 metros quadrados. Além disso, as máquinas atuais
requerem amostras cada vez menores para discriminar ou dosar as diversas substâncias
encontradas no sangue. Um teste de glicemia, por exemplo, requer apenas um vigésimo
de gota. O mesmo exame, quinze anos atrás, exigiria um tubo de ensaio.
A partir da década de 90, um verdadeiro
arsenal de aparelhos portáteis para exames de sangue chegou ao mercado.
Em menos de cinco minutos, os dispositivos caseiros ajudam a controlar doenças
crônicas ou auxiliam atletas a avaliar sua performance. Um dos aparelhos
domésticos mede o tempo de coagulação do sangue e é
usado para pacientes que tomam anticoagulantes. Outro mede o colesterol total
e os triglicérides. E outro, importado, fornece informações
separadamente sobre os níveis de LDL e HDL no sangue. O mais popular desses
aparelhinhos é, no entanto, o medidor de glicemia. Ele melhorou sobremaneira
a qualidade de vida dos diabéticos, que têm de medir mais de uma
vez ao dia seu nível de açúcar no sangue. Vinte anos atrás,
o mesmo doente precisava ir ao laboratório coletar sangue diariamente.
Alguns até três vezes ao dia. Como era difícil dispor de tanto
tempo para os testes, o resultado era que o doente raramente controlava a doença
como deveria.  | | Linha
de produção: as máquinas mais modernas realizam até 15 000 exames de sangue por
dia – o dobro de dez anos atrás |
Um dos
maiores desafios dos cientistas agora é criar maneiras mais eficazes para
saber com exatidão quais são as principais ameaças e, mais
importante ainda, tentar desenvolver métodos que protejam o organismo contra
danos. Para isso, continua-se investindo pesado em pesquisas e tecnologias. Os
investimentos direcionam-se também para a invenção de novos
métodos de diagnóstico. No ano passado, um grupo de pesquisadores
de uma universidade australiana lançou o primeiro biossensor digital de
sangue. O dispositivo é quase do tamanho de uma fita cassete, com a espessura
de um CD. Ele usa nanotecnologia e foi criado para fazer diagnósticos de
algumas doenças ou detectar a presença de drogas, como maconha e
cocaína, ou hormônios em locais críticos, como ambulância
e salas de emergência. E a revolução continua.
As doenças que os novos
exames apontam As novas análises são
capazes de determinar a probabilidade de uma doença vir a se manifestar
ARTRITE REUMATÓIDE A
artrite reumatóide caracteriza-se pelo ataque do sistema imunológico
contra as células das articulações. A investida desencadeia
um processo inflamatório que danifica os ossos. Há um exame capaz
de flagrar a artrite reumatóide em estágios bastante iniciais. Trata-se
do anti-CCP. O exame detecta a presença de anticorpos contra a substância
CCP, produzida pelo organismo das vítimas da doença. Com um índice
de 98% de acerto, ele é cinco vezes mais preciso do que os testes tradicionais
CÂNCER DE MAMA, DE OVÁRIO E DE INTESTINO Por
meio do sangue, é possível determinar se uma pessoa tem propensão
genética a diversos tipos de câncer. Os genes mais testados atualmente
são os que se relacionam aos tumores malignos de mama e de intestino. Mulheres
com alterações nos genes BRCA1 e BRCA2 têm até
80% de risco de desenvolver tumores de mama e 40% os de ovário. Os genes
MSH1 e MLH2 são responsáveis por 90% dos casos de
câncer de intestino. Os exames verificam se o grau de mutação
genética indica riscos DIABETES Com
o teste da hemoglobina glicada é possível avaliar as alterações
nos níveis de açúcar ocorridas até três meses
antes. Assim o controle do diabetes fica muito mais preciso. Há dois anos,
os médicos descobriram que os níveis de hemoglobina glicada
estão intrinsecamente relacionados à probabilidade de o paciente
desenvolver complicações típicas do diabetes, como retinopatia,
insuficiência renal, infartos e derrames DOENÇAS
CARDIOVASCULARES Há no mercado testes capazes
de determinar alterações nos níveis de substâncias
diretamente relacionadas à ocorrência de infartos e derrames. Um
desses marcadores é a proteína Creativa, liberada pelo fígado
sempre que há uma inflamação no organismo, como a deflagrada
pelo acúmulo de placas de gordura nas artérias. O exame que mede
as quantidades dessa proteína chama-se PCR ultra-sensível.
Outro indicador de problemas cardiovasculares é o aminoácido homocisteína.
Ele está associado ao aumento dos riscos de formação de trombos,
que pode levar ao entupimento arterial. Há ainda o teste de nome PLAC,
que mede as taxas da enzima fosfolipase A2, importante marcador de inflamação
nas artérias LÚPUS O
lúpus é uma doença auto-imune bastante grave. Em 2000, chegou
ao mercado um exame de sangue capaz de detectar o início do problema no
sistema imunológico. Trata-se da identificação de anticorpos
anticromatina. Com esse tipo de análise, os pacientes conseguem
controlar os sintomas da doença antes que eles se tornem severos demais
Fontes: Rogério Rabelo
e Luís Eduardo Andrade, médicos do laboratório Fleury;
Raul Santos, do Instituto do Coração de São Paulo; e Cristóvão
Mangueira, do Hospital Albert Einstein, de São Paulo |
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