Edição 1895 . 9 de março de 2005

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10 nohtas

I. O trocadilho, dizem os que gostam de dizer, é "a forma mais baixa de humor". É. Não há nada mais chato do que um debilóide que gosta de "contar" um trocadilho. Isto é, fala um trocadilho dito antes, geralmente sem nenhuma criatividade. Pois o trocadilho vale pela espontaneidade, feito in the spur of the moment, na velocidade do instante. Por pessoas que têm o dom do "processamento" repentino.

Mas há também o bom trocadilho pensado, refletido. Sem trocadilho, jogo de palavras, Shakespeare não existiria. Ainda mais – a literatura não existiria.

Este longo nariz-de-cera é porque vi, nas ondas de protesto contra as tropas de ocupação da Síria, no Líbano, uma faixa dizendo: GO HOME SIRIAL KILLERS!  

II. Ah, e nunca esquecer que o maior trocadilho, sobre o qual se firmou o cristianismo, está lá, gigantesco, rodeando a cúpula da Igreja de São Pedro: "Pedro, tu és pedra, e sobre ti edificarei a minha Igreja". Dito pelo próprio Cristo. A verdadeira graça de Deus.  

III. Calma, calma, me dizem a toda hora, tudo passa. E eu respondo: "Átila também passava. E todo mundo sabe o que acontecia com a grama".  

IV. Noutro dia falei sobre a hipótese de já estarmos voando, individualmente, dentro de poucos anos. E vejo até como possível uma notícia nos jornais: "Millôr Fernandes e Chico Caruso morreram ontem, quando Chico, voando no Arpoador, abalroou violentamente o conhecido ventríloquo dos desfavorecidos".  

V. O Banco do Brasil está ensinando como reconhecer uma nota falsa. Mas como é que a maioria da população vai reconhecer a falsa, se nunca viu a verdadeira?

VI. No mundo inteiro lutas internas, guerras externas, violência e sacrifício pra conseguir o sufrágio universal. E onde fico eu, que até hoje nem sei muito bem o que é sufrágio?  

VII. Todo mundo quer ser alguma coisa, alguns querem ser muita coisa, e tem os que querem ser tudo. E quando o cara não dá mesmo pra nada – veja a história – dá pra vítima. Grande vítima, que se chama mártir, e vítima medíocre, que se chama vítima do sistema.

VIII. Todos sabem, os poucos que sabem, que sou grande admirador da tecnologia. Mas o progresso é sempre melhor? Sempre? Todo dia a gente vê desastres. Terríveis acidentes aéreos, engavetamento de trens, batida coletiva de automóveis. Você alguma vez ouviu falar de algum acidente com os maravilhosos meios de transporte do passado – soube da queda de algum tapete voador, de alguma batida de vassouras de bruxas, de algum enguiço de botas de sete léguas?

IX. Entre um crente e um bêbado, ambos xiitas em suas preferências, com qual você fica?

X. Outra vez um lamentável erro médico com graves conseqüências na vida do país. Vocês ainda devem estar lembrados de quando, no século passado, Tancredo Neves, o candidato eleito pela oposição, ia tomar posse. Deu um treco lá nele e chamaram os médicos do Hospital de Base de Brasília. Opera aqui, opera ali, discute aqui, discute ali, corta aqui, corta acolá, elegeram o Sarney. Deu no que deu.

Agora, vocês todos viram, o Lula também teve um treco e os médicos operaram ele no nariz – rinoplastia – quando todo o país precisava que lhe fizessem uma traqueotomia. Deu no que deu. No que está dando. No que vai dar.

 

ENQUANTO ISSO, NO MAIS
ALTO ESCALÃO DO BAIXO CLERO...

 
 
 
 
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