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Entrevista: Severino
Cavalcanti "Até os 100 anos"
O presidente da Câmara avisa que não pretende se aposentar tão
cedo e dá sua visão da sociedade e do país  Felipe
Patury
Cristiano Mariz
 | "Cheguei
a presidente porque a população queria. A prova é que me
aplaudem aonde vou" | |
Há um mês, o pernambucano Severino Cavalcanti, de 74 anos, era só
um personagem folclórico da Câmara dos Deputados. Os deputados que
comandam o destino das votações o chamavam de "rei do baixo clero".
Isso porque a voz de Severino só era ouvida quando se tratava de obter
vantagens financeiras para os parlamentares que compõem a maioria silenciosa
daquela casa legislativa. De "rei do baixo clero", Severino tornou-se presidente
da Câmara. Ou seja, é o terceiro homem da República. Em caso
de ausência do presidente Lula e do vice-presidente José Alencar,
será ele a ocupar o Planalto. Na função de que está
investido, é responsável por escolher quais projetos serão
votados pela Câmara. Severino virou, enfim, "cardeal". Sua estréia
no comando da Mesa, na semana passada, foi marcada por um revés: ele viu
naufragar seu projeto de aumentar os salários dos deputados de 12 850 para
21 500 reais. Mas pôde saborear uma vitória a aprovação
da Lei de Biossegurança, que viabiliza a pesquisa com células-tronco
embrionárias. Católico fervoroso, Severino era contra a medida.
Mas foi convencido a voltar atrás pela filha. Nesta entrevista a VEJA,
ele fala sobre sua biografia e suas concepções. "Podem debochar
de mim, mas defendo princípios éticos", diz o presidente da Câmara.
Veja O senhor sempre quis
ser político? Severino Queria ser padre. Desisti
porque meu pai não tinha dinheiro para comprar o enxoval que a Igreja exigia.
Foi quando saí de minha cidade natal, João Alfredo, no interior
de Pernambuco, e fui estudar no Recife. Trabalhei para pagar o ginásio.
Depois fui para São Paulo. Lá nasceu essa vontade dentro de mim.
Veja Por que o senhor se tornou
político? Severino Porque eu era anticomunista e,
na época, o comunismo estava tomando conta do país. Miguel Arraes
mandava em Pernambuco fui candidato a prefeito de João Alfredo para
derrotar seu candidato. Tinha 33 anos. Ganhei porque, desde os 18 anos, eu ia
lá e distribuía o "natal" das crianças pobres. Veja
O senhor ainda é anticomunista? Severino
Não posso mais ser depois que o Muro de Berlim caiu. O comunismo acabou.
Veja O senhor foi da Arena, partido
que apoiou a ditadura militar. Como o senhor vê o regime de 64? Severino
Prestou grandes serviços ao Brasil. Evitou que caíssemos
nas mãos dos comunistas. Poderíamos ficar como a Rússia,
uma federação que se esfacelou. Se o comunismo fosse bom, não
teria acabado lá e nos outros países que eram seus satélites.
A teoria do comunismo é acabar com o povo. Nunca distribuiu renda. Quem
está distribuindo é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Só conseguimos isso porque ele mudou sua maneira de pensar. Viu que a esquerda
estava errada e não seguiu os esquerdistas do PT. Aquele partido é
uma confederação de tendências. Cada uma quer fazer uma coisa.
Por isso, Lula tem dificuldades com eles. Tenho o mais profundo respeito pelo
presidente porque só os homens de boa-fé pensam uma coisa e depois
mudam. Veja O senhor também
muda de opinião? Severino Mudo. Foi o caso da pesquisa
com as células-tronco. Era um item polêmico da Lei de Biossegurança
que votamos na semana passada. Eu era contra. Minha filha Ana me repreendeu. Ela
é preparada, freqüentou universidade. Disse: "Papai, o senhor está
sendo sectário". Conversei com cientistas de São Paulo, que foram
indicados pelo meu médico, David Uip. Minha filha tinha razão. Fiz
tudo para que o projeto fosse aprovado. Veja
O senhor luta contra a união civil entre homossexuais. O
que o senhor tem contra os gays? Severino Nada. Tenho amigos
entre eles que até fazem campanha para mim. O que não quero é
fazer propaganda dessa coisa. O que é ruim é fácil de proliferar.
Se os homossexuais podem ir ao cartório doar seus bens uns para os outros,
por que vamos oficializar uma coisa dessas? Podem debochar de mim, mas defendo
princípios éticos. Quem de bom senso defende a união de homem
com homem e mulher com mulher? Veja
O senhor vai colocar o projeto em votação? Severino
Vou, mas farei de tudo para que não seja aprovado. Esse projeto
desencaminha a juventude. Se há deputados que se sentem bem defendendo
os homossexuais e as lésbicas, o problema é deles.
Veja O senhor fez um acordo com
o presidente do Supremo Tribunal Federal, Nelson Jobim, para aumentar os salários
dos deputados sem precisar levar o assunto ao plenário... (veja reportagem
na pág. 38) Severino Isso não é verdade.
Jobim mandou para a Câmara uma mensagem reajustando o salário dos
ministros do Supremo de 17 340 reais para 21 500. Isso é da alçada
dele. Nós só temos de aprovar. É o que vamos fazer. Na próxima
semana, coloco em votação. Veja
Como ficou sua relação com o presidente do Senado,
Renan Calheiros, depois que ele abortou o aumento de salário dos parlamentares,
uma promessa sua de campanha à presidência da Câmara? Severino
Cada um tem sua maneira de pensar e agir. No lugar dele, não
teria dado uma entrevista contra o aumento no momento em que isso estava sendo
negociado. Eu não ajo assim, mas, para ele, isso não tem importância.
Não vou julgar seus pronunciamentos. Veja
Muitos deputados dizem que o senhor vai administrar a Câmara
como se fosse um sindicato. Severino Só respondo a
isso porque você está refletindo opinião alheia. A Câmara,
até hoje, não era independente nem respeitada. Quero que seja. Se
a imprensa fosse mais sensível, a população já estaria
ao meu lado. Vamos mudar as regras do Orçamento para tornar obrigatória
a liberação de verbas das emendas dos parlamentares. Com isso, as
emendas não serão moeda de troca com o governo. Veja
Como são os partidos políticos brasileiros? Severino
Uma verdadeira indecência. Os deputados fazem troca-troca de
legendas, o que mostra que faltam ética e princípios a algumas pessoas
que estão na Câmara. Sou favorável à fidelidade partidária.
Veja O senhor vai promover uma
investigação para descobrir se os deputados que participaram do
último troca-troca receberam dinheiro para mudar de partido? Severino
Não tenho indícios concretos que me levem a abrir um
processo contra eles, mas não entendo por que um deputado dorme em um partido
e acorda em outro. São sonhos noturnos? Vou pedir ao presidente do PMDB,
Michel Temer, que dê um basta nisso. Afinal, o troca-troca mesmo foi no
partido dele. Veja O que o senhor
pretende fazer quando concluir seu mandato? Severino Vou
concorrer a outro. Meu pai morreu com 98 anos. Minha mãe, com 97. Tenho
74. Já fui operado de tanta coisa que, se lhe disser, você pensará
que morri. Já operei a próstata, botei marca-passo, mas vou até
os 100 anos. Até lá, eu quero ser deputado. Essa é a razão
da minha vida. Tanto que fiz em cartório uma declaração de
que não serei candidato a senador nem a governador por Pernambuco. Não
quero colocar meu mandato de presidente da Câmara em benefício de
uma candidatura majoritária. Veja
Seu antecessor, João Paulo Cunha, ambicionava deixar o cargo para ser
candidato ao governo de São Paulo. Ele está errado? Severino
É direito dele, mas eu estou realizando meu sonho. É
o coroamento da minha vida. Veja
É por isso que o chamam de "rei do baixo clero"? Severino
Podia ser rei antes de ser eleito presidente da Câmara. Mas,
agora, sou presidente de todos os deputados, não só dos que me apoiaram.
Além do mais, quero acabar com essa história de baixo, médio,
alto clero. Todos os deputados têm a mesma delegação popular.
Tomei medidas para acabar com isso de baixo clero. Por exemplo, estamos mandando
uma delegação para Nova York, e escolhi deputados que nunca viajaram
em missão oficial. Veja Como
o presidente Lula, o senhor vem de uma família pobre do interior de Pernambuco.
O que mais os senhores têm em comum? Severino Completei
52 anos de casado com minha mulher, Amélia. Nunca vivi com outra. Lula
é viúvo, mas casou em segundas núpcias e vive muito bem com
dona Marisa. Eles têm o mesmo entusiasmo pelo casamento que nós.
Veja Do ponto de vista político,
há semelhanças? Severino Não. Tive muito
mais mandatos do que ele. Tenho quarenta anos de mandatos. Cheguei a presidente
da Câmara porque os deputados e a população queriam. A prova
é que fui aplaudido em Roraima e no Rio Grande do Sul. Em um restaurante
em Manaus, as madames queriam tirar retrato comigo. Em Goiás, tirei uns
200 retratos com líderes rurais. Só não tirei mais porque
o tempo era curto. Veja Na última
quarta-feira, o senhor foi vaiado por sindicalistas no mesmo dia em que seu projeto
de aumento de salários de deputados foi derrotado. Severino
Os sindicalistas reclamaram do meu atraso. Pedi desculpas e saí
aplaudido. Veja Na sua posse,
o senhor prometeu paz ao governo, mas colocou na pauta de votação
vários projetos que incomodam o Palácio do Planalto. Severino
A Câmara é independente. Quem faz a pauta não é
o governo, é o presidente da Câmara. Não sei como funcionava
antes, mas é de se perguntar por que os projetos não andavam. Vou
levar ao plenário os projetos que estão prontos para votação.
Se o governo tem maioria, que faça valer sua posição.
Veja O senhor prometeu paz, mas disse que
o presidente do PT, José Genoíno, pediu sua cabeça. Severino
Isso acabou. Ele falou mal de mim em um programa de televisão
para ficar bem com o povo. Estava reproduzindo o que fez a vida toda: atacar os
outros. Perdôo porque errar humanum est. Agora, ele tem de se entrosar
com a nossa administração. Veja
Como o senhor avalia o desempenho do ministro Antonio Palocci na
Fazenda? Severino Presta grandes serviços ao país.
A economia está estabilizada. Evidentemente, não acerta todas. A
medida provisória 232 (que aumenta impostos do setor de serviços),
por exemplo, foi uma falha. Veja Descobriu-se
que o senhor passou alguns cheques sem fundos. Severino
Olhe, já tive uma posição boa. Tive lojas em São Paulo,
em Pernambuco e em Brasília. Fui vendendo tudo para gastar em política.
Um assessor meu diz que, por falta do que dizer, estão me acusando de "empobrecimento
ilícito". Veja Quem
são os políticos que o senhor mais admira? Severino
Admirava Carlos Lacerda (líder da UDN). Nos anos 50, participei das Caravanas
da Liberdade que ele promoveu quando o governo Juscelino Kubitschek seguiu um
caminho tortuoso. Hoje respeito muito o Juscelino também. Discordei dele
na época, mas lhe devemos a industrialização do país.
Agora, que ele está no céu, peço desculpas por ter feito
oposição a seu governo. Veja
Que político o senhor gostaria de ter sido? Severino
Abraham Lincoln. Ele tem uma certa semelhança comigo. Veio de baixo, apesar
de, nos Estados Unidos, os pobres serem sempre mais ricos que no Brasil. Defendeu
os oprimidos. Eu me espelho nele. Veja
Há historiadores que defendem a tese de que Lincoln era homossexual. Severino
É? Os livros que li não diziam isso. Mas o que me interessa
nele é a sua trajetória política. Veja
O que o senhor faz nas horas vagas? Severino
Não tenho mais horas vagas. Gostava de jogar xadrez, mas não tenho
mais tempo. Faz uns trinta anos que não jogo uma partida. Veja
O senhor não gosta de ler, assistir a filmes? Severino
Às vezes, leio um pouquinho os jornais para saber se estão
falando mal de mim. Quando falam bem, fico cheio de vida. Quando falam mal, tenho
piedade, porque estão cometendo uma injustiça. Veja
E cinema, o senhor vai de vez em quando? Severino
Não sou muito chegado. Ia quando namorava, porque Amélia gosta.
Depois que casei, parei. Não me lembro qual foi o último filme que
vi no cinema. Já faz uns quarenta anos. |