Edição 1895 . 9 de março de 2005

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André Petry
Ciência, graças a Deus

"A aprovação pelo Congresso das pesquisas
com células-tronco é uma vitória a ser
comemorada duas vezes"

Com a graça de Deus, Deus fez-se surdo – e não ouviu as preces trevosas de quem, em nome de Deus, queria barrar as pesquisas com células-tronco embrionárias. A aprovação pelo Congresso, agora em definitivo, faltando apenas a sanção presidencial, é uma vitória a ser comemorada duas vezes. Primeiro, porque finalmente o Brasil poderá abandonar o ambiente medieval, claustrofóbico, em que esteve confinado até o momento sob a proibição de pesquisar em embriões humanos. Agora, os cientistas brasileiros poderão explorar as possibilidades ainda desconhecidas das células-tronco embrionárias – essa maravilha que a natureza nos entregou e que pode trazer a cura para doenças como Alzheimer, Parkinson, esclerose, distrofia muscular e outras, além de ter o poder espetacular de transformar-se em qualquer um dos mais de 200 tecidos humanos – da pele aos ossos. Será o gênio da ciência trabalhando a favor da vida humana.

Essa foi uma vitória a ser comemorada.

A outra apareceu na forma avassaladora – foram 366 votos a favor, 59 contra e 3 abstenções – com que a Câmara derrotou o lobby religioso contra as pesquisas. Integrado por evangélicos mas liderado por católicos, o lobby religioso queria que as pesquisas sobre células-tronco fossem limitadas às encontradas no cordão umbilical e na medula óssea, excluindo as dos embriões. Os religiosos, entendendo que a vida é um dom divino e que a destruição de um embrião equivale a eliminar uma vida, levantaram-se contra as pesquisas. Os igrejeiros, carolas, crentes, o que for, têm pleno direito de viver segundo suas convicções, que são aliás sumamente respeitáveis, mas é sempre difícil entender o que os leva a julgar que todas as demais pessoas também precisam viver debaixo de verdades religiosas. Por quê? Se o Estado é laico, por que um ateu deve ser constrangido a guiar-se por leis religiosas? Se o Estado é laico, por que um ateu precisa viver sob a ordem de um Deus? Graças a Deus, como se viu na votação no Congresso, parece que nem Deus pensa assim...

A derrota do lobby religioso é importante porque a luta em defesa da ciência e da vida não acabou. A lei aprovada pelo Congresso permite a pesquisa em embriões inviáveis e que estejam congelados nas clínicas de fertilização há mais de três anos. Isso quer dizer o seguinte: nem todos os embriões poderão ser pesquisados. Os embriões passíveis de pesquisa são aqueles que, de qualquer modo, por inviáveis, iriam ser jogados no lixo ou ficariam congelados para o resto dos tempos. O importante a ressaltar é que permanece proibida a clonagem terapêutica, que vem a ser a produção de um embrião geneticamente idêntico ao paciente para fornecer-lhe células – um caminho sensacional de pesquisa que já está sendo trilhado cientificamente na Inglaterra, por exemplo. Mais cedo ou mais tarde, o Brasil voltará a discutir o tema para decidir sobre a clonagem terapêutica. Aí reside a importância de ter derrotado o lobby religioso. Se, quando o país discutir clonagem terapêutica, o lobby religioso tiver recuperado forças, cairemos na treva. Se, ao contrário, o lobby religioso ainda estiver fraco, quando esse dia chegar, aí então, com a graça de Deus, podemos ter esperança de mais luz.

 
 
 
 
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