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André
Petry Ciência, graças a Deus
"A
aprovação pelo Congresso das pesquisas com células-tronco
é uma vitória a ser comemorada duas vezes"
Com a graça de Deus, Deus fez-se surdo e não ouviu as preces
trevosas de quem, em nome de Deus, queria barrar as pesquisas com células-tronco
embrionárias. A aprovação pelo Congresso, agora em definitivo,
faltando apenas a sanção presidencial, é uma vitória
a ser comemorada duas vezes. Primeiro, porque finalmente o Brasil poderá
abandonar o ambiente medieval, claustrofóbico, em que esteve confinado
até o momento sob a proibição de pesquisar em embriões
humanos. Agora, os cientistas brasileiros poderão explorar as possibilidades
ainda desconhecidas das células-tronco embrionárias essa
maravilha que a natureza nos entregou e que pode trazer a cura para doenças
como Alzheimer, Parkinson, esclerose, distrofia muscular e outras, além
de ter o poder espetacular de transformar-se em qualquer um dos mais de 200 tecidos
humanos da pele aos ossos. Será o gênio da ciência trabalhando
a favor da vida humana. Essa foi uma vitória
a ser comemorada. A outra apareceu na forma avassaladora
foram 366 votos a favor, 59 contra e 3 abstenções
com que a Câmara derrotou o lobby religioso contra as pesquisas. Integrado
por evangélicos mas liderado por católicos, o lobby religioso queria
que as pesquisas sobre células-tronco fossem limitadas às encontradas
no cordão umbilical e na medula óssea, excluindo as dos embriões.
Os religiosos, entendendo que a vida é um dom divino e que a destruição
de um embrião equivale a eliminar uma vida, levantaram-se contra as pesquisas.
Os igrejeiros, carolas, crentes, o que for, têm pleno direito de viver segundo
suas convicções, que são aliás sumamente respeitáveis,
mas é sempre difícil entender o que os leva a julgar que todas as
demais pessoas também precisam viver debaixo de verdades religiosas. Por
quê? Se o Estado é laico, por que um ateu deve ser constrangido a
guiar-se por leis religiosas? Se o Estado é laico, por que um ateu precisa
viver sob a ordem de um Deus? Graças a Deus, como se viu na votação
no Congresso, parece que nem Deus pensa assim...
A derrota do lobby religioso é importante porque a luta em defesa da ciência
e da vida não acabou. A lei aprovada pelo Congresso permite a pesquisa
em embriões inviáveis e que estejam congelados nas clínicas
de fertilização há mais de três anos. Isso quer dizer
o seguinte: nem todos os embriões poderão ser pesquisados. Os embriões
passíveis de pesquisa são aqueles que, de qualquer modo, por inviáveis,
iriam ser jogados no lixo ou ficariam congelados para o resto dos tempos. O importante
a ressaltar é que permanece proibida a clonagem terapêutica, que
vem a ser a produção de um embrião geneticamente idêntico
ao paciente para fornecer-lhe células um caminho sensacional de
pesquisa que já está sendo trilhado cientificamente na Inglaterra,
por exemplo. Mais cedo ou mais tarde, o Brasil voltará a discutir o tema
para decidir sobre a clonagem terapêutica. Aí reside a importância
de ter derrotado o lobby religioso. Se, quando o país discutir clonagem
terapêutica, o lobby religioso tiver recuperado forças, cairemos
na treva. Se, ao contrário, o lobby religioso ainda estiver fraco, quando
esse dia chegar, aí então, com a graça de Deus, podemos ter
esperança de mais luz. |