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Tales
Alvarenga
Companheiros afônicos
"Os discursos de Hugo Chávez lembram
letra de samba-enredo. Ele convidou o
planeta inteiro a participar de sua 'revolução
bolivariana'. Ninguém sabe o que é isso. Mas
Fidel Castro já está dentro"
A esquerda estava na seguinte situação
na semana passada:
Segundo levantamento do governo colombiano, os 17.000 guerrilheiros
das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia,
de inspiração comunista e de prática mafiosa,
faturaram em 2003 a soma de 1,5 bilhão de dólares,
principalmente com a venda de cocaína. Também fizeram
algum caixa com extorsões por meio de seqüestros. As
Farc, um grupo criminoso, são a maior referência militar
da esquerda mundial.
O Fórum Social de Porto Alegre, o maior encontro
anticapitalista do mundo, elegeu como a grande estrela do seu último
encontro, encerrado no domingo passado, o presidente Hugo Chávez,
da Venezuela. Chávez é o populista mais primitivo
da América Latina. No conteúdo surrealista, os seus
discursos lembram letra de samba-enredo. Em Porto Alegre, ele convidou
o planeta inteiro a participar de sua "revolução bolivariana".
Ninguém sabe o que é isso. Mas, segundo Chávez,
Fidel Castro já está dentro. "Só vamos mudar
essa terra pelo caminho da revolução. Vamos fazer
uma conspiração mundial antineoliberal", disse ele
a uma platéia embevecida de 15.000 pessoas. No seu país,
Chávez produziu mais pobreza e insegurança. Entre
outras façanhas, dá abrigo aos guerrilheiros narcotraficantes
das Farc colombianas.
O grande espetáculo das eleições democráticas
no Iraque, no domingo passado, deixou boquiaberta e afônica
a esquerda engajada na campanha anti-Bush. Foi a primeira boa notícia
vinda do Iraque depois da queda e da prisão de Saddam Hussein.
A eleição iraquiana pode ser obscurecida logo adiante
por uma campanha de explosões terroristas ou uma guerra civil.
Mas é uma coisa a ser comemorada no mundo inteiro, mesmo
porque a regra nos países islâmicos é a ditadura.
A essa esquerda sem prumo, eu daria um conselho.
Revejam suas metas, companheiros. Há causas objetivas pelas
quais lutar com resultados, aí sim, revolucionários.
Por exemplo? A exigência de educação básica
e média de alta qualidade para todas as crianças e
jovens brasileiros. Em uma geração, teremos outro
país pela frente. E tratem de esquecer as bandeiras abstratas
que deixam vocês tão espevitados. A principal causa
da esquerda brasileira, hoje em dia, é a guerra ao neoliberalismo,
como se viu no Fórum Social de Porto Alegre. Neoliberalismo
não existe, meus docinhos-de-coco. Me apontem um único
país que tenha diminuído o tamanho do Estado a ponto
de deixar o mercado tomar conta de tudo, menos das tarefas típicas
de Estado, como Justiça, polícia ou emissão
e controle da moeda.
Se vocês me derem o nome de um país
onde essa utopia tenha sido realizada, poderei ganhar muito dinheiro
com a condução de turistas em massa para conhecer
o exotismo neoliberal. Fidel Castro tem um país exótico,
um dos dois únicos lugares comunistas do planeta, junto com
a Coréia do Norte. E Fidel ganha dólares sem parar
com o turismo cultural daqueles que desejam ver seu parque temático
marxista. Basta seguir o exemplo de Fidel: é fundar uma agência
de turismo e encher o cofrinho levando deslumbrados ricos para passear
nos paraísos neoliberais. Está aí uma idéia
bolivariana.
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