Edição 1891 . 9 de fevereiro de 2005

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Tales Alvarenga
Companheiros afônicos

"Os discursos de Hugo Chávez lembram
letra de samba-enredo. Ele convidou o
planeta inteiro a participar de sua 'revolução
bolivariana'. Ninguém sabe o que é isso. Mas
Fidel Castro já está dentro"

A esquerda estava na seguinte situação na semana passada:

Segundo levantamento do governo colombiano, os 17.000 guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, de inspiração comunista e de prática mafiosa, faturaram em 2003 a soma de 1,5 bilhão de dólares, principalmente com a venda de cocaína. Também fizeram algum caixa com extorsões por meio de seqüestros. As Farc, um grupo criminoso, são a maior referência militar da esquerda mundial.

O Fórum Social de Porto Alegre, o maior encontro anticapitalista do mundo, elegeu como a grande estrela do seu último encontro, encerrado no domingo passado, o presidente Hugo Chávez, da Venezuela. Chávez é o populista mais primitivo da América Latina. No conteúdo surrealista, os seus discursos lembram letra de samba-enredo. Em Porto Alegre, ele convidou o planeta inteiro a participar de sua "revolução bolivariana". Ninguém sabe o que é isso. Mas, segundo Chávez, Fidel Castro já está dentro. "Só vamos mudar essa terra pelo caminho da revolução. Vamos fazer uma conspiração mundial antineoliberal", disse ele a uma platéia embevecida de 15.000 pessoas. No seu país, Chávez produziu mais pobreza e insegurança. Entre outras façanhas, dá abrigo aos guerrilheiros narcotraficantes das Farc colombianas.

O grande espetáculo das eleições democráticas no Iraque, no domingo passado, deixou boquiaberta e afônica a esquerda engajada na campanha anti-Bush. Foi a primeira boa notícia vinda do Iraque depois da queda e da prisão de Saddam Hussein. A eleição iraquiana pode ser obscurecida logo adiante por uma campanha de explosões terroristas ou uma guerra civil. Mas é uma coisa a ser comemorada no mundo inteiro, mesmo porque a regra nos países islâmicos é a ditadura.

A essa esquerda sem prumo, eu daria um conselho. Revejam suas metas, companheiros. Há causas objetivas pelas quais lutar com resultados, aí sim, revolucionários. Por exemplo? A exigência de educação básica e média de alta qualidade para todas as crianças e jovens brasileiros. Em uma geração, teremos outro país pela frente. E tratem de esquecer as bandeiras abstratas que deixam vocês tão espevitados. A principal causa da esquerda brasileira, hoje em dia, é a guerra ao neoliberalismo, como se viu no Fórum Social de Porto Alegre. Neoliberalismo não existe, meus docinhos-de-coco. Me apontem um único país que tenha diminuído o tamanho do Estado a ponto de deixar o mercado tomar conta de tudo, menos das tarefas típicas de Estado, como Justiça, polícia ou emissão e controle da moeda.

Se vocês me derem o nome de um país onde essa utopia tenha sido realizada, poderei ganhar muito dinheiro com a condução de turistas em massa para conhecer o exotismo neoliberal. Fidel Castro tem um país exótico, um dos dois únicos lugares comunistas do planeta, junto com a Coréia do Norte. E Fidel ganha dólares sem parar com o turismo cultural daqueles que desejam ver seu parque temático marxista. Basta seguir o exemplo de Fidel: é fundar uma agência de turismo e encher o cofrinho levando deslumbrados ricos para passear nos paraísos neoliberais. Está aí uma idéia bolivariana.

 
 
 
 
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