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Ponto
de vista: Lya Luft Novidades
assustadoras
"Acho esquisito falar
'no meu tempo', porque nosso tempo deve ser sempre
hoje. Somos tão fixados no mito da eterna juventude que depois
dos 30 nem o tempo é mais nosso, somos exilados da própria
vida?" Devo avisar que detesto saudosismos,
do tipo "No meu tempo era tudo melhor". Primeiro, porque quase sempre é
engano: antigamente as coisas eram, em vários aspectos, bem piores. Não
havia ar-condicionado, nem penicilina, nem avião, nem computador, nem a
possibilidade de discutir abertamente assuntos graves, nem terapia para endireitar
a cabeça quando ela entorta demais. A verdade era escondida debaixo do
tapete, as relações humanas debaixo dos panos, e a sem-gracice devia
ser bastante grande... Não havia um milhão de coisas que facilitam,
ampliam, iluminam nossa vida. Também não
havia tanta violência, concordo: ou, antes, havia outro tipo e outra dose
de violência. Guerra? Sim, ela ocorria mais ou menos constantemente, e bastante
cruel. Nas Cruzadas a carnificina era, como a Inquisição, em nome
de Deus. Queimavam-se supostas bruxas na fogueira, junto com hereges, judeus,
e não sei quem mais... Mas quem fritava naquele fogo eram inocentes pais
e mães de família, eventualmente crianças. Relatos históricos
são arrepiantes. O povo aristocratas e povão assistia
animadíssimo. E na guerra não se apertava um botão lançando
bomba: o inimigo era decapitado ou estripado, cara a cara. A média de idade
das pessoas (falo das que viviam acima da miséria absoluta, mais absoluta
que a nossa) era de 20 e poucos anos: morriam cedo, desdentadas, podres, malcheirosas.
Tinha-se quinze filhos para que sobrevivessem cinco no meio da imundície
e da ignorância. Seja como for, não
sou saudosista. Também acho esquisito falar "no meu tempo", porque nosso
tempo deve ser sempre hoje. Somos tão despossuídos, tão fixados
no mito da eterna juventude que depois dos 30 nem o tempo é mais nosso,
somos exilados da própria vida? Mas algumas
coisas atuais eu confesso contemplar com grande susto, e não é só
corrupção, confusão, violência e drogas, ou falta de
vergonha. Se, conforme alguns filósofos, a capacidade de espanto é
essencial, estou bem, aliás. Porque, por mais que viva, cada dia descubro
novidades: deliciosas ou assustadoras. Entre essas
está a queda de nível da nossa educação e cultura.
Há muitos anos reduziram o tempo de estudo: havia cinco anos de primário,
quatro de ginásio, mais três de segundo grau. Depois tiraram o latim,
como se fosse inútil e o francês, não quero nem saber
por qual razão. Não sei se ainda aprendem inglês na escola,
para alegria dos cursos de idiomas, que substituem o que se aprendia antes no
currículo habitual (conversação, claro, é outra coisa;
aperfeiçoamento, idem), assim como o pré-vestibular engorda tanto
mais quanto pior a qualidade das escolas.
Atomic
Studio
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Agora
leio que o inglês já não é um critério de eliminação
para quem quiser prestar concurso para a carreira diplomática. Não
sei se essa é de rir ou de chorar. Provavelmente a decisão, como
tantas outras, vai ser anulada quando alguém tiver um acesso de iluminação
mental. Eu acho o inglês cada dia mais necessário, para o computador,
a ciência, até a arte. Não adianta dizer que só se
deve ler em português, só beber coisa produzida nacionalmente, abaixo
a Coca-Cola e o resto. Na sua santa burrice, os propagadores do estreitamento,
da separação e do isolamento, do nivelamento por baixo, ao que parece
desejam que não sejamos continente, mas uma ilha no meio da civilização
ocidental. Que talvez nem seja lá grande coisa, mas é o que temos.
Em lugar de nos isolarmos, bem que podíamos
tentar nos integrar mais (atenção, não falo em subserviência,
macaquice, imitação: falo em integração). Em vez de
bancarmos os subdesenvolvidos fanáticos pela chamada cultura nativa, devíamos
aprender mais com quem tem 2 000 anos de tradição cultural, bibliotecas,
arquitetura, arte, filosofia. E reconhecer o que eles têm de ruim, não
secretamente aspirando a isso... É preciso
cuidar: ou em algum tempo, com mais algum esforço, estaremos morando em
árvores, fazendo exercício no cipó, e tomando banho de rio
junto com os jacarés. Ah, ia esquecendo:
aí, sim, o inglês será tão dispensável quanto
o português: teremos voltado a grunhir.
Lya Luft é escritora |