Edição 1891 . 9 de fevereiro de 2005

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Esquentando
os tamborins

Ou será que se devia dizer que antes
se esfriam, ao impacto desapiedado
do presente texto?

Estranhezas do Carnaval... "Vou dar tudo de mim", diz o passista, antes de entrar na avenida. O mestre da bateria acrescenta: "Vamos mostrar o valor das nossas cores". Todos prometem atuar com "raça". A linguagem é toda emprestada do futebol. Minutos antes de a escola entrar em ação, seu presidente faz uma preleção aos pupilos. "Vamos lá, Mangueira (ou Portela, ou Salgueiro). Mostra tua força!" O tom é de arenga de orador de subúrbio, o mesmo que o cartola do futebol despejaria sobre os jogadores. A intenção é a mesma do técnico do time, minutos antes da entrada em campo. Corações ao alto! Entremos para vencer.

A linguagem se explica pelo fato de o desfile das escolas de samba ser também uma competição. É um espetáculo e uma competição. Claro, já estamos acostumados, é isso mesmo – mas não deixa de ser estranho. Um desfile de escola de samba tem sido comparado à montagem de uma ópera. Como na ópera, tem música, enredo, cenários e fantasias. Transportemos então o sistema de competição para o universo da ópera. La Traviata compete com La Bohème, Norma com O Barbeiro de Sevilha. O presidente da Traviata, um signore Verdi, faz a preleção aos defensores das suas cores: "Vamos lá, pessoal. É vencer ou vencer!" A escalada para o papel principal declara aos repórteres que dará tudo de si: caprichará nos acessos de tosse, morrerá com estrebuchos de gato pisoteado. No dia da apuração, estádio lotado, anuncia-se o resultado no quesito enredo: "La Traviata, deeezzzz!" A torcida pula das cadeiras, o signore Verdi à frente, jogando ao alto, na euforia, o lápis com que anotava na prancheta as diversas notas. Mais adiante, vem o quesito evolução: "La Traviata, nove e meio..." O signore Verdi agora cobre a cabeça em desconsolo, enquanto seus acompanhantes ensaiam gestos de revolta. Estranho, muito estranho.

Os espíritos entorpecidos pela rotina e pelo costume dirão que estranho é que se ache isso tudo estranho. É porque não param para pensar na singularidade de um espetáculo que se finge de jogo, ou jogo que se finge de espetáculo. E, pior: um jogo em que não há gol para enfiar a bola dentro, de modo a tornar a pontuação clara e compreensível. Trata-se de um boxe sem nocaute, condenado a ser decidido por pontos. Aliás, é pior: os critérios são mais frouxos, a margem para a subjetividade, maior. Paradoxalmente, contra esse pano de fundo de imprecisão, os jurados trabalham com científica minúcia. Dão notas 9,2 (nove vírgula dois), 8,7 (oito vírgula sete).

Há mais estranhezas no Carnaval. Convencionou-se que é a época de suspensão das convenções. O pobre vira rico, o mendigo vira rei, dissolvem-se as classes e revogam-se as hierarquias. No entanto, as escolas se organizam disciplinadas como na fábrica, e a hierarquia se impõe como no escritório. Também se diz que é uma festa espontânea – no entanto, de um espontâneo flexibilizado a ponto de caber nos imperativos da cronometragem. Além de tudo, os integrantes das escolas têm de ganhar. Desfile de samba é essa coisa híbrida e contraditória em que se tem de posar de despreocupado e feliz da vida ao mesmo tempo que o espírito competitivo é mobilizado, com sua carga de exigências e tensões.

É a hora do pobre, afirma-se. A temporada em que os morros e as periferias ganham o asfalto e têm seu momento de triunfo. Bem.... O mestre-sala e a porta-bandeira ainda são pessoas de pele escura e nas quais se adivinham mãos calosas. Mas já há tempos foram desalojados, nas atenções do público, nas notícias da imprensa e, principalmente, no carinho voluptuoso das câmeras de TV, por essa instituição mais recente que são as "madrinhas de bateria" – gostosonas de pele branca, carreira de atriz, modelo ou "apresentadora", e domicílio distante da "comunidade". (É de rigor chamar os bairros ou morros onde se sediam as escolas de "comunidades", tendo sempre em conta que a palavra só se aplica a lugares pobres – ninguém diz a "comunidade" do Leblon, a "comunidade" da Barra da Tijuca.)

Estranho, o desfile Carnaval. Cada vez mais, é a festa em que o pobre continua pobre mesmo, o rico continua rico, o chefe manda e o subordinado obedece. Se não é o carnavalesco ou o presidente da escola, é a televisão que está lá para ditar as regras e impor sua observância. É a época do extravasamento sob medida e da folia com hora marcada. A estranheza já estava plantada lá atrás, na origem, quando se deu o nome de "escola", lugar onde se educa, se enquadra e se civiliza, a uma instituição em princípio votada à bagunça primitiva e libertária. Havia nisso talvez a intenção irônica de chamar uma coisa por seu contrário, assim como se chama uma boate de "templo do prazer", com recurso a uma palavra – templo – de piedosas ressonâncias religiosas. Seria "escola" entre aspas. Mas virou escola sem aspas mesmo. Estranho, o Carnaval. De tanto se dizer que tinha o poder de inverter todas as lógicas e ordens deste mundo, acabou invertendo a si mesmo. É a hora da precisão, dos regulamentos e da disciplina.

 
 
 
 
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