Edição 1891 . 9 de fevereiro de 2005

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Dinheiro bem gasto

A biografia de Peggy Guggenheim,
a rica herdeira que colecionava obras
de arte – e casos com os artistas


Reprodução
Peggy com seus cães e uma obra de Calder na cabeceira da cama, em seu quarto em Veneza: intimidade modernista

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Trecho do livro

Marguerite Guggenheim nunca precisou trabalhar na vida. Neta de imigrantes judeus que fizeram grande fortuna nos Estados Unidos do século XIX, Peggy, como era mais conhecida, levou uma vida de excessos nas capitais boêmias do século XX: Paris, nos anos 20 e 30, e Nova York, na década de 40. Teria sido apenas mais uma herdeira rica e ociosa, se não cultivasse uma paixão obsessiva: a arte moderna. Peggy Guggenheim foi uma das mais importantes colecionadoras do século passado. Pouco antes de morrer, em 1979, aos 81 anos, tomou as devidas providências para preservar seu legado, garantindo que seus adorados quadros e esculturas – chamava-os de "meus filhos" – não se dispersassem. Seu desejo foi atendido: a coleção hoje está exposta ao público em sua última morada, o Palazzo Venier dei Leoni, em Veneza, sob os cuidados da Fundação Guggenheim (criada pelo tio de Peggy, Solomon). Avaliada em cerca de 350 milhões de dólares, é uma amostra extensiva dos maiores nomes do modernismo: Picasso, Braque, Kandinsky, Mondrian, Miró. Peggy não colecionou somente as obras desses artistas. Dividiu seu dinheiro, sua mesa e muitas vezes sua cama com eles. Talvez o aspecto mais fascinante de Peggy Guggenheim – A Vida de uma Viciada em Arte (tradução de Maria Silvia Mourão Netto; Globo; 504 páginas; 62 reais), biografia assinada pelo escritor inglês Anton Gill, seja a possibilidade de passear, ao lado da inquieta Peggy, pela intimidade dos modernistas.

O pai de Peggy, Benjamin, morreu no naufrágio do Titanic, em 1912, deixando 450.000 dólares para cada uma das três filhas. Era uma insignificância, perto dos milhões que os primos herdavam, mas a fortuna da futura colecionadora cresceria com a herança recebida dos avós maternos. Fruto do ramo "pobre" dos Guggenheim, Peggy sentia-se oprimida pela família e se afastou da Nova York natal assim que pôde. Viveu anos pulando da França para a Inglaterra, e provavelmente nunca teria deixado a Europa se os alemães não houvessem dado início a uma guerra continental em 1939. Os primeiros tempos de Peggy na Europa não prometiam: foram só uma sucessão de casos amorosos complicados, pontuados por brigas escandalosas em restaurantes. A paixão pela arte só seria descoberta com quase 40 anos. Foi uma boa época para começar: Peggy aproveitou a fuga de artistas da França, no início da guerra, para comprar obras a preços irrisórios.

Dona de um nariz avantajado, Peggy não era especialmente bonita. Mas era sedutora. Certa vez, quando lhe perguntaram quantos maridos ela tivera, respondeu com outra pergunta: "Meus ou das outras?". Casou duas vezes: com Laurence Vail, escritor medíocre e alcoólatra que lhe deu um casal de filhos, e com o pintor surrealista alemão Max Ernst. Teve incontáveis amantes, fez no mínimo três abortos. Gostava do ato sexual em si e se entediava com carícias preliminares. Entre seus amantes, figuram nomes fundamentais das artes no século XX – como o pintor surrealista francês Yves Tanguy e o dramaturgo irlandês Samuel Beckett. Em Nova York, nos anos 40, as festas de Peggy eram conhecidas pelo uísque ordinário (medida econômica da anfitriã) e pela atmosfera devassa. Às vezes os encontros derivavam em franca orgia – como na ocasião em que Peggy e o maridão Max Ernst fizeram uma troca de casais com o músico de vanguarda John Cage e sua mulher.

Um dos amantes de Peggy conta que, depois de fazer sexo com ela, brincou com o peixinho da guarda da cama – uma obra do americano Alexander Calder. Sexo e arte se misturam na lenda que a própria Peggy cultivou a seu respeito. Dizia-se que ela teria tido um caso com Jackson Pollock, pintor americano que ela financiou em início de carreira. Seu biógrafo duvida que isso tenha ocorrido. O grosseirão Pollock chegou a comentar com um amigo que só seria possível fazer sexo com Peggy se a cabeça dela estivesse coberta por um saco. A sensibilidade artística de Peggy – que sempre contou com consultores de gabarito para fazer suas aquisições – é um assunto que enseja mais debates do que sua extensa lista de amantes. Personalidade contraditória, ela conjugava a arrogância da menina rica com um certo sentimento de inferioridade intelectual diante dos artistas e escritores com quem convivia. Desejava ser aceita em seu círculo restrito – e comprou seu ingresso financiando exposições e distribuindo mesadas. Sua atuação como colecionadora e galerista bissexta foi importante para impulsionar movimentos como o expressionismo abstrato, nos Estados Unidos. Mas ela realmente entendia de arte? Picasso achava que ela era apenas uma ricaça exibicionista. Foi o único artista a esnobá-la ostensivamente. Quando Peggy o visitou em seu ateliê, Picasso a dispensou com uma tirada sarcástica: "Madame, a seção de peças íntimas é no 2º andar".

 

Mecenas de corpo e alma

As relações da colecionadora Peggy
Guggenheim com expoentes das artes


Rui Mendes


JOHN CAGE
(1912-1992)
O compositor americano e sua mulher participaram de uma orgia com Peggy e seu marido, Max Ernst, numa festa de arromba na Nova York dos anos 40

JACKSON POLLOCK
(1912-1956)
O pintor americano foi protegido de Peggy – que assim deu impulso ao expressionismo abstrato, uma das escolas mais importantes da arte americana

PABLO PICASSO
(1881-1973)
O pintor espanhol esnobou Peggy quando ela quis comprar seus quadros. "Madame, a seção de peças íntimas é no 2º andar", disse Picasso ao vê-la em seu ateliê

SAMUEL BECKETT
(1906-1989)
O escritor irlandês teve um caso com Peggy, no fim dos anos 30. O casal passava o dia na cama, em Paris, bebendo champanhe e falando de arte e literatura

 

 
 
 
 
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