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Livros Dinheiro
bem gasto A biografia de Peggy Guggenheim,
a rica herdeira que colecionava obras de arte e casos com os artistas
Reprodução  |
| Peggy com seus cães e uma obra de Calder na cabeceira
da cama, em seu quarto em Veneza: intimidade modernista |
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Marguerite Guggenheim nunca precisou
trabalhar na vida. Neta de imigrantes judeus que fizeram grande fortuna nos Estados
Unidos do século XIX, Peggy, como era mais conhecida, levou uma vida de
excessos nas capitais boêmias do século XX: Paris, nos anos 20 e
30, e Nova York, na década de 40. Teria sido apenas mais uma herdeira rica
e ociosa, se não cultivasse uma paixão obsessiva: a arte moderna.
Peggy Guggenheim foi uma das mais importantes colecionadoras do século
passado. Pouco antes de morrer, em 1979, aos 81 anos, tomou as devidas providências
para preservar seu legado, garantindo que seus adorados quadros e esculturas
chamava-os de "meus filhos" não se dispersassem. Seu desejo foi
atendido: a coleção hoje está exposta ao público em
sua última morada, o Palazzo Venier dei Leoni, em Veneza, sob os cuidados
da Fundação Guggenheim (criada pelo tio de Peggy, Solomon). Avaliada
em cerca de 350 milhões de dólares, é uma amostra extensiva
dos maiores nomes do modernismo: Picasso, Braque, Kandinsky, Mondrian, Miró.
Peggy não colecionou somente as obras desses artistas. Dividiu seu dinheiro,
sua mesa e muitas vezes sua cama com eles. Talvez o aspecto mais fascinante de
Peggy Guggenheim A Vida de uma Viciada em Arte (tradução
de Maria Silvia Mourão Netto; Globo; 504 páginas; 62 reais), biografia
assinada pelo escritor inglês Anton Gill, seja a possibilidade de passear,
ao lado da inquieta Peggy, pela intimidade dos modernistas.
O pai de Peggy, Benjamin, morreu no naufrágio do Titanic, em 1912,
deixando 450.000 dólares para cada uma das três filhas. Era uma insignificância,
perto dos milhões que os primos herdavam, mas a fortuna da futura colecionadora
cresceria com a herança recebida dos avós maternos. Fruto do ramo
"pobre" dos Guggenheim, Peggy sentia-se oprimida pela família e se afastou
da Nova York natal assim que pôde. Viveu anos pulando da França para
a Inglaterra, e provavelmente nunca teria deixado a Europa se os alemães
não houvessem dado início a uma guerra continental em 1939. Os primeiros
tempos de Peggy na Europa não prometiam: foram só uma sucessão
de casos amorosos complicados, pontuados por brigas escandalosas em restaurantes.
A paixão pela arte só seria descoberta com quase 40 anos. Foi uma
boa época para começar: Peggy aproveitou a fuga de artistas da França,
no início da guerra, para comprar obras a preços irrisórios.
Dona de um nariz avantajado, Peggy não
era especialmente bonita. Mas era sedutora. Certa vez, quando lhe perguntaram
quantos maridos ela tivera, respondeu com outra pergunta: "Meus ou das outras?".
Casou duas vezes: com Laurence Vail, escritor medíocre e alcoólatra
que lhe deu um casal de filhos, e com o pintor surrealista alemão Max Ernst.
Teve incontáveis amantes, fez no mínimo três abortos. Gostava
do ato sexual em si e se entediava com carícias preliminares. Entre seus
amantes, figuram nomes fundamentais das artes no século XX como
o pintor surrealista francês Yves Tanguy e o dramaturgo irlandês Samuel
Beckett. Em Nova York, nos anos 40, as festas de Peggy eram conhecidas pelo uísque
ordinário (medida econômica da anfitriã) e pela atmosfera
devassa. Às vezes os encontros derivavam em franca orgia como na
ocasião em que Peggy e o maridão Max Ernst fizeram uma troca de
casais com o músico de vanguarda John Cage e sua mulher.
Um dos amantes de Peggy conta que, depois de fazer sexo com ela, brincou com o
peixinho da guarda da cama uma obra do americano Alexander Calder. Sexo
e arte se misturam na lenda que a própria Peggy cultivou a seu respeito.
Dizia-se que ela teria tido um caso com Jackson Pollock, pintor americano que
ela financiou em início de carreira. Seu biógrafo duvida que isso
tenha ocorrido. O grosseirão Pollock chegou a comentar com um amigo que
só seria possível fazer sexo com Peggy se a cabeça dela estivesse
coberta por um saco. A sensibilidade artística de Peggy que sempre
contou com consultores de gabarito para fazer suas aquisições
é um assunto que enseja mais debates do que sua extensa lista de amantes.
Personalidade contraditória, ela conjugava a arrogância da menina
rica com um certo sentimento de inferioridade intelectual diante dos artistas
e escritores com quem convivia. Desejava ser aceita em seu círculo restrito
e comprou seu ingresso financiando exposições e distribuindo
mesadas. Sua atuação como colecionadora e galerista bissexta foi
importante para impulsionar movimentos como o expressionismo abstrato, nos Estados
Unidos. Mas ela realmente entendia de arte? Picasso achava que ela era apenas
uma ricaça exibicionista. Foi o único artista a esnobá-la
ostensivamente. Quando Peggy o visitou em seu ateliê, Picasso a dispensou
com uma tirada sarcástica: "Madame, a seção de peças
íntimas é no 2º andar".
| Mecenas de corpo e alma As
relações da colecionadora Peggy Guggenheim com expoentes das
artes
Rui Mendes  |
JOHN CAGE
(1912-1992) O compositor americano e sua mulher participaram de uma orgia
com Peggy e seu marido, Max Ernst, numa festa de arromba na Nova York dos anos
40
JACKSON POLLOCK (1912-1956)
O pintor americano foi protegido de Peggy que assim deu impulso ao expressionismo
abstrato, uma das escolas mais importantes da arte americana
PABLO PICASSO (1881-1973) O pintor espanhol esnobou Peggy quando
ela quis comprar seus quadros. "Madame, a seção de peças
íntimas é no 2º andar", disse Picasso ao vê-la em seu
ateliê SAMUEL BECKETT
(1906-1989) O escritor irlandês teve um caso com Peggy, no fim
dos anos 30. O casal passava o dia na cama, em Paris, bebendo champanhe e falando
de arte e literatura | | |