Edição 1891 . 9 de fevereiro de 2005

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Uma locomotiva
da globalização

Percival Farquhar, o magnata
das ferrovias, foi muito mais
que o capitalista inescrupuloso
retratado na série Mad Maria


Carlos Graieb


Reprodução/Dana Merril
Trem da ferrovia Madeira–Mamoré: pouco lucro, muitas mortes

O americano Percival Farquhar (1864-1953) foi um dos grandes jogadores do mercado financeiro mundial nos primeiros anos do século XX. "Naquele tempo, eu podia levantar dinheiro para o que quisesse", disse ele ao seu biógrafo Charles Gauld, no final da vida. Não era uma bravata. Entre 1904 e a eclosão da I Guerra Mundial, Farquhar teve acesso livre aos maiores investidores da Europa e dos Estados Unidos e canalizou um enorme capital para ferrovias, portos, frigoríficos, companhias elétricas e de comunicações, loteamentos, fazendas. Não foi em sua terra natal que ele montou esses negócios. Foi no Brasil. Em 1913, ele controlava algo em torno de 50 milhões de libras, o que o tornava o principal administrador de recursos estrangeiros no país. A mais célebre – e polêmica – de suas realizações foi a Estrada de Ferro Madeira–Mamoré. Aberta na selva amazônica para dar cumprimento a um tratado entre Brasil e Bolívia e facilitar o acesso desta última ao Atlântico, a "ferrovia do diabo" foi uma insanidade: prodígio de engenharia que ligou o nada a lugar nenhum, como se disse na época, ela custou a vida de 1.500 trabalhadores e jamais deu o lucro esperado.


Divulgação
Reprodução
Tony Ramos como Farquhar (à esq.) e o próprio (à dir.): negociatas com austeridade quacre

Baseada no romance homônimo do amazonense Márcio Souza, a minissérie Mad Maria, que a Rede Globo exibe desde a semana passada, revive a epopéia dessa construção e dá destaque a Farquhar. O livro e a série tomam liberdades com o personagem e lhe reservam um papel de vilão. Márcio Souza o descreve como "um vigarista feliz na maré mansa nacional" e o ator Tony Ramos lhe conferiu o tique de esfregar sempre os dedos, como quem conta dinheiro. Mas Farquhar foi mais que isso. Mad Maria mostra o americano como alguém que passou da miséria à riqueza. Farquhar, na verdade, nasceu em família abastada e de boas ligações políticas. Formou-se em engenharia em Yale, uma universidade de elite. Na biografia The Last Titan, Charles Gauld associa à religião quacre traços de caráter como a austeridade e uma determinação férrea, que Farquhar exibia não só nos negócios: aos 89 anos, ele decidiu operar o cérebro para tentar suavizar a doença de Parkinson, de que vinha sofrendo.

O nascimento de Farquhar, em 1864, o torna uma geração mais jovem que figuras como Vanderbilt, Morgan e Rockefeller, os empreendedores (ou barões do roubo, para os detratores) que deram forma ao capitalismo americano na segunda metade do século XIX. Farquhar não ombreia com esses nomes lendários, mas o fato de ter voltado sua energia para a América Latina o torna uma figura especial. Nos últimos anos, tem-se formado um consenso em torno da idéia de que a primeira onda de globalização econômica ocorreu entre 1870 e 1914. Pesquisas recentes demonstram que, em alguns sentidos, o nível de integração econômica era maior que o de hoje. Logo antes da I Guerra Mundial, 50% da poupança britânica, por exemplo, estava investida no exterior, financiando obras de infra-estrutura. Os mesmos níveis eram observados em países como França, Alemanha e Bélgica. Taxas como essas nunca mais se repetiram. "A região mais exposta ao investimento estrangeiro foi a América Latina. Ela foi a mais beneficiada pelas forças externas do mercado de capitais, e também a mais vulnerável a elas", diz o economista americano Alan Taylor, autor de um estudo sobre a economia latino-americana na virada do século XX. Uma porção considerável do dinheiro aplicado na América Latina passou pelas mãos de Farquhar. Ele foi, por assim dizer, um agente da globalização.

Antes de chegar ao Brasil, em 1904, Farquhar fez ferrovias em Cuba e na Guatemala. Suas primeiras obras nacionais foram no Rio de Janeiro – ele criou sistemas de bonde, eletricidade e comunicação (incidentalmente, criou também os guias telefônicos por sobrenome; antes, as listas eram caóticas). Depois investiu na Bahia, no Pará e no Acre, em São Paulo e no sul do país. Tornou-se um inveterado colecionador de ferrovias, como disse um observador de seus negócios, embora não se restringisse a isso. A expansão do Sindicato Farquhar, como se dizia então, despertou três tipos de oposição: a dos concorrentes, como a família Guinle, que disputava muitos dos mesmos contratos; a dos nacionalistas rábidos, que denunciavam a "invasão do ouro ianque"; e a daqueles que se inquietavam com possíveis negociatas. "A política e os negócios estão inextricavelmente ligados no Brasil", disse Farquhar certa vez. E ele aprendeu a jogar o jogo, conquistando (e, ao que tudo indica, comprando eventualmente) aliados no Congresso e no jornalismo – como o futuro magnata da imprensa Assis Chateaubriand. Farquhar manteve uma discrição quacre sobre os bastidores de seus negócios. Só parece ter se irritado com os políticos baianos, a quem chamou de "corruptos, inconfiáveis e instáveis".

Os empreendimentos de Farquhar murcharam quando o grande fluxo internacional de capitais cessou, no começo da I Guerra. "Foi um período de queda generalizada nas ações de ferrovias, em face do aumento dos custos operacionais", lembrou ele mais tarde. Para piorar a situação, todas as suas apostas fora do campo ferroviário – em gado, madeira, terras ou portos – fracassaram. Seus negócios estavam mal estruturados. O administrador de sua concordata, em 1914, descreveu a situação como uma "bagunça trágica" e sentenciou: no afã de se expandir, Farquhar se esquecera de garantir os recursos necessários para a operação e a manutenção dos negócios.

Depois de sua queda e até morrer, em 1953, Farquhar continuou insistindo em investir no Brasil. Sua atenção voltou-se para a extração e exportação de minério de ferro em Minas Gerais, mas seus planos de fundar companhias mineradoras foram barrados por sucessivos governos. Apenas às vésperas da morte ele conseguiu pôr de pé uma empresa – a Acesita, que existe até hoje. Assim como ocorrera em sua primeira fase no Brasil, os esforços de Farquhar para explorar o ferro atraíram muita polêmica. Na década de 30, um de seus críticos mais ferrenhos foi o escritor Monteiro Lobato – o criador do Sítio do Picapau Amarelo. Anos mais tarde, contudo, Lobato mudaria de idéia. Num ensaio intitulado Farquhar e o Brasil, ele deixou de considerar o americano como um capitalista sinistro para descrevê-lo como um "clássico construtor de império", imbuído de um inabalável otimismo econômico. Uma visão bastante razoável sobre o personagem.

 
 
 
 
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