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Televisão
Uma locomotiva da globalização Percival
Farquhar, o magnata das ferrovias, foi muito mais que o capitalista inescrupuloso
retratado na série Mad Maria 
Carlos Graieb
Reprodução/Dana Merril
 | | Trem
da ferrovia Madeira–Mamoré: pouco lucro, muitas mortes | O
americano Percival Farquhar (1864-1953) foi um dos grandes jogadores do mercado
financeiro mundial nos primeiros anos do século XX. "Naquele tempo, eu
podia levantar dinheiro para o que quisesse", disse ele ao seu biógrafo
Charles Gauld, no final da vida. Não era uma bravata. Entre 1904 e a eclosão
da I Guerra Mundial, Farquhar teve acesso livre aos maiores investidores da Europa
e dos Estados Unidos e canalizou um enorme capital para ferrovias, portos, frigoríficos,
companhias elétricas e de comunicações, loteamentos, fazendas.
Não foi em sua terra natal que ele montou esses negócios. Foi no
Brasil. Em 1913, ele controlava algo em torno de 50 milhões de libras,
o que o tornava o principal administrador de recursos estrangeiros no país.
A mais célebre e polêmica de suas realizações
foi a Estrada de Ferro MadeiraMamoré. Aberta na selva amazônica
para dar cumprimento a um tratado entre Brasil e Bolívia e facilitar o
acesso desta última ao Atlântico, a "ferrovia do diabo" foi uma insanidade:
prodígio de engenharia que ligou o nada a lugar nenhum, como se disse na
época, ela custou a vida de 1.500 trabalhadores e jamais deu o lucro esperado.
Divulgação  | Reprodução
 | | Tony
Ramos como Farquhar (à esq.) e o próprio (à dir.):
negociatas com austeridade quacre | Baseada
no romance homônimo do amazonense Márcio Souza, a minissérie
Mad Maria, que a Rede Globo exibe desde a semana passada, revive a epopéia
dessa construção e dá destaque a Farquhar. O livro e a série
tomam liberdades com o personagem e lhe reservam um papel de vilão. Márcio
Souza o descreve como "um vigarista feliz na maré mansa nacional" e o ator
Tony Ramos lhe conferiu o tique de esfregar sempre os dedos, como quem conta dinheiro.
Mas Farquhar foi mais que isso. Mad Maria mostra o americano como alguém
que passou da miséria à riqueza. Farquhar, na verdade, nasceu em
família abastada e de boas ligações políticas. Formou-se
em engenharia em Yale, uma universidade de elite. Na biografia The Last Titan,
Charles Gauld associa à religião quacre traços de caráter
como a austeridade e uma determinação férrea, que Farquhar
exibia não só nos negócios: aos 89 anos, ele decidiu operar
o cérebro para tentar suavizar a doença de Parkinson, de que vinha
sofrendo. O nascimento de Farquhar, em 1864, o
torna uma geração mais jovem que figuras como Vanderbilt, Morgan
e Rockefeller, os empreendedores (ou barões do roubo, para os detratores)
que deram forma ao capitalismo americano na segunda metade do século XIX.
Farquhar não ombreia com esses nomes lendários, mas o fato de ter
voltado sua energia para a América Latina o torna uma figura especial.
Nos últimos anos, tem-se formado um consenso em torno da idéia de
que a primeira onda de globalização econômica ocorreu entre
1870 e 1914. Pesquisas recentes demonstram que, em alguns sentidos, o nível
de integração econômica era maior que o de hoje. Logo antes
da I Guerra Mundial, 50% da poupança britânica, por exemplo, estava
investida no exterior, financiando obras de infra-estrutura. Os mesmos níveis
eram observados em países como França, Alemanha e Bélgica.
Taxas como essas nunca mais se repetiram. "A região mais exposta ao investimento
estrangeiro foi a América Latina. Ela foi a mais beneficiada pelas forças
externas do mercado de capitais, e também a mais vulnerável a elas",
diz o economista americano Alan Taylor, autor de um estudo sobre a economia latino-americana
na virada do século XX. Uma porção considerável do
dinheiro aplicado na América Latina passou pelas mãos de Farquhar.
Ele foi, por assim dizer, um agente da globalização.
Antes de chegar ao Brasil, em 1904, Farquhar fez ferrovias em Cuba e na Guatemala.
Suas primeiras obras nacionais foram no Rio de Janeiro ele criou sistemas
de bonde, eletricidade e comunicação (incidentalmente, criou também
os guias telefônicos por sobrenome; antes, as listas eram caóticas).
Depois investiu na Bahia, no Pará e no Acre, em São Paulo e no sul
do país. Tornou-se um inveterado colecionador de ferrovias, como disse
um observador de seus negócios, embora não se restringisse a isso.
A expansão do Sindicato Farquhar, como se dizia então, despertou
três tipos de oposição: a dos concorrentes, como a família
Guinle, que disputava muitos dos mesmos contratos; a dos nacionalistas rábidos,
que denunciavam a "invasão do ouro ianque"; e a daqueles que se inquietavam
com possíveis negociatas. "A política e os negócios estão
inextricavelmente ligados no Brasil", disse Farquhar certa vez. E ele aprendeu
a jogar o jogo, conquistando (e, ao que tudo indica, comprando eventualmente)
aliados no Congresso e no jornalismo como o futuro magnata da imprensa
Assis Chateaubriand. Farquhar manteve uma discrição quacre sobre
os bastidores de seus negócios. Só parece ter se irritado com os
políticos baianos, a quem chamou de "corruptos, inconfiáveis e instáveis".
Os empreendimentos de Farquhar murcharam quando
o grande fluxo internacional de capitais cessou, no começo da I Guerra.
"Foi um período de queda generalizada nas ações de ferrovias,
em face do aumento dos custos operacionais", lembrou ele mais tarde. Para piorar
a situação, todas as suas apostas fora do campo ferroviário
em gado, madeira, terras ou portos fracassaram. Seus negócios
estavam mal estruturados. O administrador de sua concordata, em 1914, descreveu
a situação como uma "bagunça trágica" e sentenciou:
no afã de se expandir, Farquhar se esquecera de garantir os recursos necessários
para a operação e a manutenção dos negócios.
Depois de sua queda e até morrer, em 1953,
Farquhar continuou insistindo em investir no Brasil. Sua atenção
voltou-se para a extração e exportação de minério
de ferro em Minas Gerais, mas seus planos de fundar companhias mineradoras foram
barrados por sucessivos governos. Apenas às vésperas da morte ele
conseguiu pôr de pé uma empresa a Acesita, que existe até
hoje. Assim como ocorrera em sua primeira fase no Brasil, os esforços de
Farquhar para explorar o ferro atraíram muita polêmica. Na década
de 30, um de seus críticos mais ferrenhos foi o escritor Monteiro Lobato
o criador do Sítio do Picapau Amarelo. Anos mais tarde, contudo,
Lobato mudaria de idéia. Num ensaio intitulado Farquhar e o Brasil,
ele deixou de considerar o americano como um capitalista sinistro para descrevê-lo
como um "clássico construtor de império", imbuído de um inabalável
otimismo econômico. Uma visão bastante razoável sobre o personagem.
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