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Cinema Na
boca do estômago No magnífico
Menina de Ouro, Eastwood olha o passado e o futuro nos olhos. E sem
tremer  Isabela
Boscov Divulgação
 | | Eastwood,
com Hilary: o Oscar dela não foi mera sorte de iniciante |

A
pior coisa que se pode fazer pelo soberbo Menina de Ouro (Million
Dollar Baby, Estados Unidos, 2004), que estréia nesta sexta-feira no
país, é contar qualquer coisa que se passe depois dos vinte ou trinta
minutos iniciais de filme nos quais a garçonete Maggie Fitzgerald,
32 anos de idade e dezenove servindo mesas, pobre e sozinha como um vira-lata,
a ponto de matar a fome com os restos deixados no prato pelos fregueses, segue
o instinto natural de sua estirpe para escolher um dono e se agarrar a ele. Todos
os dias o ex-boxeador Frankie Dunn a enxota de seu ginásio decadente, e
todos os dias Maggie volta para socar sacos de areia, à espera de que Frankie
finalmente aceite prepará-la e transformá-la na grande lutadora
que ela quer ser. Maggie acredita nisso com uma fé grande o bastante para
cobrir as suas deficiências e o ceticismo de Frankie, um católico
que vai à missa todos os dias para questionar o padre ou, em outras
palavras, para questionar Deus. Maggie e Frankie, magnificamente interpretados
por Hilary Swank e Clint Eastwood (que assina também a direção,
a produção e a trilha sonora), vivem assim os papéis cardeais
de mestre e discípula numa história que, em seus contornos mais
básicos, poderia parecer requentada não falta a ela nem o
amigo negro e sábio do treinador (Morgan Freeman, aliás excelente).
Mas, nas duas horas seguintes, Eastwood vai conduzir o enredo e seus personagens
por caminhos em que nenhum clichê cinematográfico jamais teve a bravura
de se aventurar, e cujo destino é o encontro tardio, árduo e terrivelmente
doloroso com a salvação e salvação com "s"
maiúsculo, ainda que decidida e deliberadamente contrária a qualquer
cânone religioso. Assistir a Menina de Ouro com a guarda baixa, portanto,
é o que de melhor se pode fazer por ele.
| As
indicações |
Melhor filme
Ator Clint Eastwood
Ator coadjuvante Morgan
Freeman
Atriz
Hilary Swank
Diretor Clint
Eastwood
Roteiro adaptado
Montagem | | Não
é por mero capricho que Eastwood ambienta Menina de Ouro no mundo
algo exótico do boxe feminino. Num contínuo com toda a sua obra
desde Os Imperdoáveis, e em especial com o recente Sobre Meninos
e Lobos, o filme trata em boa parte da insensatez e da futilidade da violência.
Ver homens punindo um ao outro num ringue é chocante; ver mulheres golpeando-se
e vertendo sangue tem o dobro do efeito. Eastwood certamente não partilha
da visão católica de que o sofrimento da carne pode trazer elevação
espiritual. Em seus filmes, tudo o que a agressão ao corpo faz é
desfigurar a ele e à alma. O treinador Frankie Dunn já viu mais
exemplos do que gostaria dessa ruína, e por isso se tornou cauteloso em
excesso com seus pugilistas, sempre retardando suas chances de enfrentar adversários
à altura. É sua forma de evitar que a morte comece a se intrometer
cedo demais na vida e cada cena em que as juntas de Frankie rangem sob
o peso da idade ou em que Maggie sai ferida do ringue é o lembrete de Eastwood
de que o fim é insidioso e não chega de uma hora para outra. Vai
simplesmente ocupando um espaço cada vez maior, até expulsar de
vez a vida ou a vontade. O momento dessa constatação é aquele
em que se costuma iniciar o inventário do que foi deixado para trás,
e Frankie e Eastwood fazem juntos a sua contabilidade, na qual figura, em destaque,
a admissão de que provavelmente foram pais bem menos do que perfeitos para
seus filhos.
Divulgação
 | | Freeman,
como o amigo do treinador: clichês virados do avesso |
Eastwood
é lúcido demais para acreditar que confessar seja o equivalente
a expiar. Em seu filme, os erros do passado não têm remédio,
e não há como compensar as vítimas deles pelo sofrimento
provocado. O máximo que se pode fazer é endereçar a reparação
a alguma outra pessoa que necessite dela no caso de Frankie, Maggie, desprezada
por uma mãe frígida e que não tem metade da sua fibra. Menina
de Ouro leva essa idéia de reparação até as últimas
e devastadoras conseqüências, e com uma franqueza e uma coragem de
que poucos homens, que dirá então cineastas, seriam capazes. Eastwood,
porém, tem feito desse terceiro ato de sua carreira o melhor, o mais ousado
e o mais capaz de inspirar reverência. Seu Menina de Ouro é,
em si, uma espécie de salvação por atacado para Hilary
Swank, que tem uma segunda e rara oportunidade de provar que o Oscar de atriz
por Meninos Não Choram não foi mera sorte de iniciante, para
o cinema clássico americano, revigorado pelo estilo direto e avesso à
indulgência de seu diretor, e para o próprio Eastwood. Sua indicação
ao prêmio de ator vem sendo atribuída ao fato de, às vésperas
de completar 75 anos, ele ter finalmente deixado de interpretar a si mesmo para
envergar um personagem. Talvez o correto seja o inverso: em Menina de Ouro,
Eastwood pela primeira vez abandona por completo a inflexibilidade de sua persona
artística. As rachaduras, manchas e pecados expostos aqui parecem pertencer
não ao ator, mas ao homem.
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