|
|
Cinema Ascensão
e queda do magnata americano Bem
filmado mas algo vazio, O Aviador é a súplica de Martin
Scorsese por um Oscar  Isabela
Boscov
Divulgação
 |  | O
MITO E O HOMEM DiCaprio como Hughes, e o magnata
em um de seus aviões: o pioneiro também tinha um lado sinistro |

Em
1972, um jornalista publicou o que seria uma autobiografia de Howard Hughes, ditada
a ele pelo magnata durante uma série de encontros furtivos. Hughes negou
conhecer o jornalista. A suposta farsa foi denunciada a um grupo de pessoas que
haviam conhecido o bilionário antes de sua longa e patológica reclusão,
reunidas numa sala com um alto-falante, fazendo perguntas ao nada e ouvindo respostas
dadas por uma voz incorpórea. A voz e os maneirismos de fala pareciam ser
de Hughes, mas ninguém poderia garantir. Assim, a ação movida
pela corporação do texano contra o jornalista serviu apenas para
acrescentar algumas páginas à então já vasta coleção
de lendas sobre o empreendedor da aviação, do cinema e do namoro
serial com estrelas como Katharine Hepburn (que quase se casou com ele) e Ava
Gardner (que o recusou, mas para quem foi uma amiga fiel). O episódio ilustra
que, em se tratando de Hughes, é impossível separar fato de ficção.
E aí está o calcanhar-de-aquiles do luxuoso, grandioso e extremamente
bem filmado O Aviador (The Aviator, Estados Unidos/Japão/Alemanha,
2004), que estréia nesta sexta-feira no país, liderando o páreo
do Oscar com onze indicações: o diretor Martin Scorsese abraça
a lenda com tal sofreguidão que na largada já esqueceu que ela não
passa de uma meia verdade.
| As
indicações |
Melhor filme
Ator Leonardo DiCaprio
Ator coadjuvante Alan Alda
Atriz coadjuvante Cate Blanchett
Diretor Martin Scorsese
Roteiro
Montagem
Fotografia
Direção de arte
Figurino
Som | | Trabalhando
a partir de um roteiro que lhe foi apresentado por Leonardo DiCaprio, o astro
do filme, Scorsese apanha Hughes já no ardor das suas aventuras de juventude.
Herdeiro de uma fábrica de brocas para a extração de petróleo,
Hughes perdeu os pais cedo, mas manifestou de imediato sua independência
e ambição. Aos 18 anos, processou os controladores da empresa da
família pela presidência desta, ganhou a ação e procedeu
a torrar sua fortuna (que não parava mesmo de crescer) em projetos megalomaníacos,
como a superprodução sobre combates aéreos Hell's Angels,
estrelada pela loira platinada Jean Harlow, um de seus casos. Hughes, porém,
não brincava em serviço. Ao mesmo tempo em que se celebrizava pelas
excentricidades e por andar sempre com alguma estrela pendurada no braço,
desenvolveu modelos para a aviação comercial e militar que viriam
a revolucionar o setor. Transformou a hoje extinta TWA numa potência ao
praticamente inventar o sistema de rotas domésticas nos Estados Unidos
e sua concorrência com a também finada Pan Am, presidida por
seu arqui-rival Juan Trippe (Alec Baldwin, numa participação suculenta),
foi o impulso decisivo para a hegemonia americana nos céus internacionais.
Não tardou, porém, para
que o transtorno obsessivo-compulsivo de Hughes levasse a melhor sobre seu espírito
pioneiro. Scorsese encerra o filme em 1947, antes que a história se transforme
num circo de horrores. Hughes esteve pela última vez na presença
de um jornalista em 1958. Até sua morte, em 1976, viveu encerrado como
um eremita entre as Bahamas e um cassino de Las Vegas, guardado por um grupo de
mórmons. A se crer na lenda que parece ser fato, virou uma aberração,
com unhas longuíssimas, barba e cabelos desgrenhados, reduzido a pele e
osso e picado de agulhas por todos os lados, resultado da dependência em
medicamentos contraída quando, ao testar um de seus aviões, caiu
em plena Beverly Hills e teve 80% do corpo queimado uma das cenas mais
audaciosas de O Aviador. Hughes
foi também um personagem sinistro, de inclinações fascistas,
que esteve envolvido em espionagem, jogos sujos de poder e talvez até em
maquinações de assassinatos políticos. Mas Scorsese faz o
que tem de fazer pelo bem de seu filme. Se O Aviador pede que se ponha
de lado esse Hughes e se fique apenas com o visionário que pagou com a
sanidade por ter desafiado convenções e mirado mais longe no futuro
do que qualquer outro, que seja. Mas o autor da decisão não pode
esquecer que a tomou, sob pena de patinar na credulidade. É sabido, porém,
que Scorsese se sente injustiçado e que gostaria de finalmente ganhar o
reconhecimento de seus pares. Sabe-se também que foi um baque para ele
concorrer a dez Oscar por Gangues de Nova York e perder todos. O cineasta
quer porque quer, enfim, seu Oscar, e O Aviador é uma súplica
mal disfarçada à Academia, com todas as genuflexões
um ícone vitimado por sua independência, atores de gabarito (Cate
Blanchett, exagerando na imitação de Katharine Hepburn) misturados
a mulheres lindíssimas (Gwen Stefani e Kate Beckinsale, respectivamente
no papel de Jean Harlow e de Ava Gardner), reconstituição de época
superlativa e a típica efusão visual do diretor. Mas pesam contra
o filme a identificação pouco crítica de Scorsese com o protagonista
e sua crença nos poderes de Leonardo DiCaprio, que se confirma aqui como
o mais superestimado dos jovens atores. Fotos
divulgação
 |  | A
GRANDE PAIXÃO Cate Blanchett como Katharine Hepburn: imitação
precisa, mas estridente | A
MAIS BELA DE TODAS Kate Beckinsale interpreta a fogosa Ava Gardner:
casamento não, amizade sim |
 | A
LOIRA PLATINADA A cantora Gwen Stefani como Jean
Harlow: namoro e um papel na superprodução Hell's Angels
|
O que realmente derruba
O Aviador, contudo, é uma característica da qual Scorsese
não pode se desfazer, porque é o que o define: sua obsessão
pelo cinema. Numa entrevista recente, DiCaprio contou que em suas folgas o diretor
nunca vai passear no parque, por exemplo, mas tranca-se em sua sala de projeção
para rever pela quadragésima vez um filme qualquer em busca de algum detalhe
que lhe tenha escapado das outras 39. Basta assistir a Gangues de Nova York
ou a O Aviador para entender que DiCaprio está dizendo a verdade.
Essa obsessão serve bem a Scorsese quando ele trata do mundo exacerbado
dos gângsteres, mas constitui uma deficiência sempre que ele tenta
ampliar seu escopo. Se o trabalho de Clint Eastwood, seu grande rival neste Oscar,
cada vez mais adere à experiência pessoal, Scorsese trai em igual
medida quanto sua trajetória é confinada e descolada de um senso
de realidade. O que falta a O Aviador é uma vida fora dos limites
da tela. Sem ela, o filme não passa de mais uma imitação
empolgante, mas estéril, de Cidadão Kane. |