Edição 1891 . 9 de fevereiro de 2005

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Cinema
Ascensão e queda
do magnata americano

Bem filmado mas algo vazio, O Aviador é
a súplica de Martin Scorsese por um Oscar


Isabela Boscov

 
Divulgação

O MITO E O HOMEM
DiCaprio como Hughes, e o magnata em um de seus aviões: o pioneiro também tinha um lado sinistro


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Em 1972, um jornalista publicou o que seria uma autobiografia de Howard Hughes, ditada a ele pelo magnata durante uma série de encontros furtivos. Hughes negou conhecer o jornalista. A suposta farsa foi denunciada a um grupo de pessoas que haviam conhecido o bilionário antes de sua longa e patológica reclusão, reunidas numa sala com um alto-falante, fazendo perguntas ao nada e ouvindo respostas dadas por uma voz incorpórea. A voz e os maneirismos de fala pareciam ser de Hughes, mas ninguém poderia garantir. Assim, a ação movida pela corporação do texano contra o jornalista serviu apenas para acrescentar algumas páginas à então já vasta coleção de lendas sobre o empreendedor da aviação, do cinema e do namoro serial com estrelas como Katharine Hepburn (que quase se casou com ele) e Ava Gardner (que o recusou, mas para quem foi uma amiga fiel). O episódio ilustra que, em se tratando de Hughes, é impossível separar fato de ficção. E aí está o calcanhar-de-aquiles do luxuoso, grandioso e extremamente bem filmado O Aviador (The Aviator, Estados Unidos/Japão/Alemanha, 2004), que estréia nesta sexta-feira no país, liderando o páreo do Oscar com onze indicações: o diretor Martin Scorsese abraça a lenda com tal sofreguidão que na largada já esqueceu que ela não passa de uma meia verdade.


As indicações

Melhor filme
Ator
Leonardo DiCaprio

Ator coadjuvante
Alan Alda

Atriz coadjuvante
Cate Blanchett

Diretor
Martin Scorsese
Roteiro
Montagem
Fotografia
Direção de arte
Figurino
Som

Trabalhando a partir de um roteiro que lhe foi apresentado por Leonardo DiCaprio, o astro do filme, Scorsese apanha Hughes já no ardor das suas aventuras de juventude. Herdeiro de uma fábrica de brocas para a extração de petróleo, Hughes perdeu os pais cedo, mas manifestou de imediato sua independência e ambição. Aos 18 anos, processou os controladores da empresa da família pela presidência desta, ganhou a ação e procedeu a torrar sua fortuna (que não parava mesmo de crescer) em projetos megalomaníacos, como a superprodução sobre combates aéreos Hell's Angels, estrelada pela loira platinada Jean Harlow, um de seus casos. Hughes, porém, não brincava em serviço. Ao mesmo tempo em que se celebrizava pelas excentricidades e por andar sempre com alguma estrela pendurada no braço, desenvolveu modelos para a aviação comercial e militar que viriam a revolucionar o setor. Transformou a hoje extinta TWA numa potência ao praticamente inventar o sistema de rotas domésticas nos Estados Unidos – e sua concorrência com a também finada Pan Am, presidida por seu arqui-rival Juan Trippe (Alec Baldwin, numa participação suculenta), foi o impulso decisivo para a hegemonia americana nos céus internacionais.

Não tardou, porém, para que o transtorno obsessivo-compulsivo de Hughes levasse a melhor sobre seu espírito pioneiro. Scorsese encerra o filme em 1947, antes que a história se transforme num circo de horrores. Hughes esteve pela última vez na presença de um jornalista em 1958. Até sua morte, em 1976, viveu encerrado como um eremita entre as Bahamas e um cassino de Las Vegas, guardado por um grupo de mórmons. A se crer na lenda que parece ser fato, virou uma aberração, com unhas longuíssimas, barba e cabelos desgrenhados, reduzido a pele e osso e picado de agulhas por todos os lados, resultado da dependência em medicamentos contraída quando, ao testar um de seus aviões, caiu em plena Beverly Hills e teve 80% do corpo queimado – uma das cenas mais audaciosas de O Aviador.

Hughes foi também um personagem sinistro, de inclinações fascistas, que esteve envolvido em espionagem, jogos sujos de poder e talvez até em maquinações de assassinatos políticos. Mas Scorsese faz o que tem de fazer pelo bem de seu filme. Se O Aviador pede que se ponha de lado esse Hughes e se fique apenas com o visionário que pagou com a sanidade por ter desafiado convenções e mirado mais longe no futuro do que qualquer outro, que seja. Mas o autor da decisão não pode esquecer que a tomou, sob pena de patinar na credulidade. É sabido, porém, que Scorsese se sente injustiçado e que gostaria de finalmente ganhar o reconhecimento de seus pares. Sabe-se também que foi um baque para ele concorrer a dez Oscar por Gangues de Nova York e perder todos. O cineasta quer porque quer, enfim, seu Oscar, e O Aviador é uma súplica mal disfarçada à Academia, com todas as genuflexões – um ícone vitimado por sua independência, atores de gabarito (Cate Blanchett, exagerando na imitação de Katharine Hepburn) misturados a mulheres lindíssimas (Gwen Stefani e Kate Beckinsale, respectivamente no papel de Jean Harlow e de Ava Gardner), reconstituição de época superlativa e a típica efusão visual do diretor. Mas pesam contra o filme a identificação pouco crítica de Scorsese com o protagonista e sua crença nos poderes de Leonardo DiCaprio, que se confirma aqui como o mais superestimado dos jovens atores.

 
Fotos divulgação

A GRANDE PAIXÃO
Cate Blanchett como Katharine Hepburn: imitação precisa, mas estridente

A MAIS BELA DE TODAS
Kate Beckinsale interpreta a fogosa Ava Gardner: casamento não, amizade sim


A LOIRA PLATINADA
A cantora Gwen Stefani como Jean Harlow: namoro e um papel na superprodução Hell's Angels

O que realmente derruba O Aviador, contudo, é uma característica da qual Scorsese não pode se desfazer, porque é o que o define: sua obsessão pelo cinema. Numa entrevista recente, DiCaprio contou que em suas folgas o diretor nunca vai passear no parque, por exemplo, mas tranca-se em sua sala de projeção para rever pela quadragésima vez um filme qualquer em busca de algum detalhe que lhe tenha escapado das outras 39. Basta assistir a Gangues de Nova York ou a O Aviador para entender que DiCaprio está dizendo a verdade. Essa obsessão serve bem a Scorsese quando ele trata do mundo exacerbado dos gângsteres, mas constitui uma deficiência sempre que ele tenta ampliar seu escopo. Se o trabalho de Clint Eastwood, seu grande rival neste Oscar, cada vez mais adere à experiência pessoal, Scorsese trai em igual medida quanto sua trajetória é confinada e descolada de um senso de realidade. O que falta a O Aviador é uma vida fora dos limites da tela. Sem ela, o filme não passa de mais uma imitação empolgante, mas estéril, de Cidadão Kane.

 
 
 
 
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