|
|
Carnaval O
rei está só Internado num hospital,
Joãosinho Trinta vai passar o Carnaval esquecido pelas escolas
de samba que ajudou a transformar em campeãs 
Marcelo Carneiro
Marcia Foletto/Ag. O Globo  |
| Joãosinho em 2003, já depois da primeira isquemia: desfiles
de impacto | Pela primeira vez em
quatro décadas, o mais importante criador do Carnaval carioca não
pisará na avenida. Vítima de uma isquemia, Joãosinho Trinta,
de 71 anos, está numa UTI e passou os últimos dois meses preso a
um respirador artificial, alternando momentos de inconsciência e de lucidez.
O dado mais triste é que sua luta pela vida tem sido solitária.
No hospital em que está internado, na Zona Sul do Rio de Janeiro, são
muito raras as visitas. A Unidos de Vila Isabel, escola que ele comandou até
novembro do ano passado, pretende homenageá-lo em seu desfile. Mas nas
outras escolas, entre elas Salgueiro, Beija-Flor e Viradouro, que graças
ao talento do carnavalesco se sagraram campeãs, reina o silêncio.
A carreira de João Clemente Trinta é
espetacular. Maranhense de família pobre, ele realizou, no Rio, o sonho
de tornar-se bailarino do Teatro Municipal. Depois, ingressou no mundo das escolas
de samba e revolucionou os desfiles, criando carros alegóricos de mais
de 10 metros de altura e fantasias luxuosas. Em 1973, ganhou seu primeiro título.
Nos dez anos seguintes, viveu seu apogeu com mais seis títulos, cinco consecutivos.
Em 1989, concebeu um dos mais impactantes desfiles do Carnaval carioca, com o
enredo "Ratos e Urubus", no qual botou sambistas travestidos de mendigo. Nos últimos
anos, porém, o carnavalesco não conseguia repetir o sucesso. No
ano passado, no comando da Acadêmicos do Grande Rio, amargou um humilhante
décimo lugar e foi demitido ainda na Quarta-Feira de Cinzas. Assumiu, então,
o Carnaval da Vila Isabel, uma escola de tradição, mas hoje considerada
de porte médio. Nos últimos quatro anos, a Vila Isabel desfilou
pelo Grupo de Acesso, uma espécie de segunda divisão do Carnaval
carioca. Na volta ao Grupo Especial, a contratação de Joãosinho
era a aposta em um craque veterano. Em 26 de novembro
do ano passado, em pleno barracão da Vila, o carnavalesco que havia
sofrido uma isquemia anterior e ficado com o lado direito do corpo parcialmente
paralisado sofreu outro acidente vascular. O tratamento de Joãosinho,
que não tinha plano de saúde ao adoecer, já ultrapassou a
casa dos 200.000 reais, o que o obrigou a trocar de hospital. A Vale do Rio Doce
lhe fez uma doação de 50.000 reais, mas a dívida continua
a aumentar. As despesas urgentes têm sido bancadas pela Vila Isabel, por
iniciativa de Wilson Vieira Alves, superintendente da escola e um dos poucos amigos
que acompanham o calvário do carnavalesco. Os demais comandantes da milionária
festa do samba parecem ter esquecido um dos mais brilhantes personagens que o
Carnaval já viu. |