Edição 1891 . 9 de fevereiro de 2005

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Carnaval
O rei está só

Internado num hospital, Joãosinho
Trinta vai passar o Carnaval esquecido
pelas escolas de samba que ajudou a
transformar em campeãs


Marcelo Carneiro


Marcia Foletto/Ag. O Globo
Joãosinho em 2003, já depois da primeira isquemia: desfiles de impacto


Pela primeira vez em quatro décadas, o mais importante criador do Carnaval carioca não pisará na avenida. Vítima de uma isquemia, Joãosinho Trinta, de 71 anos, está numa UTI e passou os últimos dois meses preso a um respirador artificial, alternando momentos de inconsciência e de lucidez. O dado mais triste é que sua luta pela vida tem sido solitária. No hospital em que está internado, na Zona Sul do Rio de Janeiro, são muito raras as visitas. A Unidos de Vila Isabel, escola que ele comandou até novembro do ano passado, pretende homenageá-lo em seu desfile. Mas nas outras escolas, entre elas Salgueiro, Beija-Flor e Viradouro, que graças ao talento do carnavalesco se sagraram campeãs, reina o silêncio.

A carreira de João Clemente Trinta é espetacular. Maranhense de família pobre, ele realizou, no Rio, o sonho de tornar-se bailarino do Teatro Municipal. Depois, ingressou no mundo das escolas de samba e revolucionou os desfiles, criando carros alegóricos de mais de 10 metros de altura e fantasias luxuosas. Em 1973, ganhou seu primeiro título. Nos dez anos seguintes, viveu seu apogeu com mais seis títulos, cinco consecutivos. Em 1989, concebeu um dos mais impactantes desfiles do Carnaval carioca, com o enredo "Ratos e Urubus", no qual botou sambistas travestidos de mendigo. Nos últimos anos, porém, o carnavalesco não conseguia repetir o sucesso. No ano passado, no comando da Acadêmicos do Grande Rio, amargou um humilhante décimo lugar e foi demitido ainda na Quarta-Feira de Cinzas. Assumiu, então, o Carnaval da Vila Isabel, uma escola de tradição, mas hoje considerada de porte médio. Nos últimos quatro anos, a Vila Isabel desfilou pelo Grupo de Acesso, uma espécie de segunda divisão do Carnaval carioca. Na volta ao Grupo Especial, a contratação de Joãosinho era a aposta em um craque veterano.

Em 26 de novembro do ano passado, em pleno barracão da Vila, o carnavalesco – que havia sofrido uma isquemia anterior e ficado com o lado direito do corpo parcialmente paralisado – sofreu outro acidente vascular. O tratamento de Joãosinho, que não tinha plano de saúde ao adoecer, já ultrapassou a casa dos 200.000 reais, o que o obrigou a trocar de hospital. A Vale do Rio Doce lhe fez uma doação de 50.000 reais, mas a dívida continua a aumentar. As despesas urgentes têm sido bancadas pela Vila Isabel, por iniciativa de Wilson Vieira Alves, superintendente da escola e um dos poucos amigos que acompanham o calvário do carnavalesco. Os demais comandantes da milionária festa do samba parecem ter esquecido um dos mais brilhantes personagens que o Carnaval já viu.

 
 
 
 
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