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Ambiente A
revolução verde Em muitos países,
o meio ambiente está obtendo vitórias e a área de florestas,
em vez de diminuir, cresce sem parar  Ronaldo
França
O desmatamento continua sendo o grande vilão
do meio ambiente no mundo. Ele arranca 15 milhões de hectares de florestas
por ano uma área igual a cinco vezes o tamanho da Bélgica.
Menos árvores significam graves danos ambientais, como diminuição
dos mananciais de água, inundações, deslizamentos de encostas
e aumento da temperatura global. Um sexto do estrago ocorre no Brasil, onde o
ritmo da derrubada de árvores na Amazônia se acelerou nos últimos
três anos. Em 2004 foram ceifados 2,3 milhões de hectares de floresta.
Por ser um problema crônico, que se repete apesar da grita da sociedade,
a impressão que se tem é a de que a devastação é
inevitável, um caso quase sem solução. Mas, felizmente, não
é bem assim. As florestas voltaram a crescer em vários países.
Como é um movimento lento, que ocorreu, na maioria dos casos, ao longo
do último século, não foi alardeado. Mas os dados não
mentem. Países como França, Portugal, Alemanha, Reino Unido e Polônia
estão recuperando sua cobertura florestal em um processo consistente. E
o mais animador é que a recuperação da área verde
não é resultado de privação do uso da floresta e de
seus produtos. Ao contrário. O que está ocorrendo é a descoberta
de que quando se conjuga uma ação governamental sólida com
a economia se tem uma eficiente arma contra o desmatamento.
Há casos de completa restauração. No início do século
XIX, a Suécia estava devastada. Restava apenas o solo pedregoso. Hoje tem
74% do território coberto por matas. Nos últimos quarenta anos,
vários países conseguiram expandir suas florestas. No Reino Unido,
esse crescimento foi de 62%. Em Portugal, de 80%. Na França, de 32%. Os
números são da Organização das Nações
Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que mantém
o mais abrangente banco de dados sobre o assunto. "O desenvolvimento da atividade
econômica é um dos fatores que mais influenciam o reflorestamento
nos países europeus", confirma o diretor de florestas do Ministério
do Meio Ambiente, Tasso de Azevedo. Pode-se argumentar que são países
cuja área florestal era reduzida e que, portanto, o crescimento não
é significativo. É o que parece à primeira vista, quando
se constata que o reflorestamento da França, em quarenta anos, equivale,
em números absolutos, ao que o Brasil derruba em um ano e meio. Mas está
errado. Primeiro, porque a recuperação das matas, seja em que medida
for, é sempre uma boa notícia. A outra razão é que
os países do Hemisfério Norte têm muito mais dificuldade de
fazer crescer suas florestas do que os países tropicais, onde as condições
climáticas favorecem o desenvolvimento das árvores.
Ivan
Carneiro
 | | Plantação
industrial no Brasil: a força da economia na natureza |
A
Europa destruiu, ao longo dos séculos, quase toda a sua cobertura vegetal.
A madeira sempre foi companheira da humanidade e da civilização.
Sem ela não haveria a domesticação do fogo. Também
não teriam existido as grandes navegações nem os andaimes
para a construção dos grandes monumentos, e não haveria muitos
sobreviventes ao inverno no Hemisfério Norte. A madeira que queimou nas
caldeiras foi o combustível da Revolução Industrial. Ela
ainda é vital como fonte de energia no mundo inteiro. Representa 14% da
matriz energética mundial. Nos países mais pobres da África,
chega a 80%. Seu uso econômico não é, portanto, uma novidade.
O paradoxo é que, justamente por isso, ao longo do tempo as florestas passaram
a ser vistas como entrave ao desenvolvimento. Mato virou sinônimo de algo
que precisa ser eliminado em nome do progresso, seja para a instalação
de uma propriedade rural, seja para a fundação de uma cidade.
Essa é a idéia que começa a mudar. E por um motivo bem concreto.
A madeira é uma matéria-prima que pode alcançar rentabilidade
altíssima, e outros produtos florestais vêm ganhando espaço
no mercado como matéria-prima para a indústria alimentar, farmacêutica
ou de cosméticos e um dos exemplos é o sucesso mundial da
cadeia inglesa The Body Shop, marca-símbolo do uso politicamente correto
de insumos de base florestal. Em quase todos os lugares onde ocorreu, a volta
das florestas coincide com o aumento de produtividade da agricultura. A introdução
de fertilizantes nas lavouras, a mecanização e o desenvolvimento
da tecnologia fizeram com que a mesma quantidade de produtos fosse obtida em terrenos
cada vez menores. Nas áreas agrícolas abandonadas, a mata voltou
a crescer. "Basta deixar a terra em paz que a floresta retoma seu lugar", afirma
Roberto Smeraldi, diretor da ONG Amigos da Terra. Esse argumento é parte
da explicação do fenômeno. A crescente rentabilidade do negócio
de cultivar árvores, esta, sim, uma ajuda direta da economia à natureza,
é o novo e bem-vindo fator de reflorestamento e da exploração
racional das florestas. The
New York Times
 | | Loja
da rede The Body Shop: uso de insumos das florestas é sucesso mundial |
O mercado mundial de produtos florestais fatura 132 bilhões de dólares
ao ano, o que o situa entre os dez principais negócios do planeta. Graças
a técnicas de manejo florestal e ao incremento da tecnologia, as florestas
se tornaram em vários casos extremamente lucrativas. A Alemanha, que criou
a primeira escola de engenharia florestal em 1715 e inventou o conceito de manejo
florestal no fim do século XIX, deu a melhor contribuição
ao desenvolvimento econômico do setor. O país foi o primeiro a entender
a importância de fazer a extração de madeira respeitando os
limites da natureza. Ao longo do século XX, esse conceito se disseminou,
na esteira da conscientização ambiental. A Finlândia é
o caso mais notável de desenvolvimento comercial do setor empenhou-se
em recuperar suas florestas no século XIX, investiu em tecnologia como
nenhum outro país e colheu ganhos de produtividade notáveis. Um
exemplo: ao entrar na serra, a tora já foi radiografada para evitar que
metais encravados na árvore, como balas atiradas por caçadores,
quebrem o equipamento. Desempenhos desse tipo não
existiriam sem a mão dos governos, seja na elaboração de
leis de proteção, seja na criação de mecanismos de
incentivo. "Quase todos os países europeus contaram com ações
governamentais", afirma Olman Serrano, do departamento de florestas da FAO. Nesse
aspecto, um dos melhores exemplos é a Costa Rica. O governo adotou uma
política de pagamento por serviços ambientais a quem preserva matas
em suas propriedades. Uma espécie de bolsa-floresta. O país, que
vinha sofrendo os efeitos da devastação acelerada, com grave risco
de contaminação dos mananciais de água potável, conseguiu
virar o jogo nos últimos dez anos. Ampliou em 25% o tamanho de sua floresta
e se tornou um dos maiores destinos de ecoturismo na América Central. Os
Estados Unidos são outro exemplo de política ambiental bem-sucedida.
O país tinha 420 milhões de hectares de florestas em 1630, época
em que os primeiros colonizadores ali chegaram. Era o equivalente a 46% de toda
a extensão territorial. No início do século XX, essa área
já estava reduzida a 302 milhões de hectares uma perda de
28%. Desde então, a nação conseguiu manter-se no mesmo patamar,
o que não é uma conquista fácil num país cujo processo
de urbanização e industrialização foi avassalador.
A Lei da Cultura de Árvores foi criada em 1873 e estabelecia que os colonos
ganhariam 65 hectares de terras públicas se plantassem árvores em
um quarto da terra. A medida foi adotada porque o país, após toda
a exploração no período colonial, sofreu ainda as conseqüências
da pecuária extensiva, que criou enorme pressão pelo desmatamento.
A estratégia do governo americano foi entregar as terras públicas
a proprietários privados e estimulá-los a preservar. Dos 302 milhões
de hectares de matas que existem hoje, 174 milhões de hectares são
propriedade privada, incluindo aí as florestas industriais.
No Brasil, a situação é grave. A Floresta Amazônica
já perdeu 15% de sua cobertura original. Da Mata Atlântica, restam
apenas 7%. Isso ocorre por uma conjunção desfavorável de
fatores. A crise social brasileira faz com que milhares de famílias que
não têm alternativa de trabalho usem a terra para sua subsistência.
Sem terra própria, buscam chão na floresta. Sem tecnologia, precisam
de grandes áreas. Outro problema tem sido a expansão das fronteiras
agrícolas, impulsionada pelo aumento recente de preço das commodities
no mercado internacional. No Centro-Oeste, a cultura de grãos invadiu a
mata como nunca na última década. Mas poucos países têm
um ambiente tão favorável para o desenvolvimento econômico
do setor florestal. Enquanto um eucalipto leva sete anos para atingir a idade
de abate no Espírito Santo, por exemplo, seu equivalente finlandês
pode demorar trinta no mínimo para estar no ponto de corte. A rapidez de
crescimento do clima tropical é incomparável, bem como a biodiversidade.
Enquanto é possível encontrar milhares de espécies de árvores
na Amazônia ou mesmo nas regiões de Mata Atlântica, os países
europeus contam, quando muito, com vinte tipos.
Na década de 90, as exportações brasileiras de produtos florestais
cresceram a uma taxa média de 10% ao ano. Em 2003, 15% do saldo da balança
comercial se deveu a esse setor. Não é, portanto, algo que se possa
desprezar. Somados todos os investimentos já anunciados no país,
nos próximos dez anos serão injetados no setor 19 bilhões
de dólares. Sem falar nos aspectos ambientais e sociais envolvidos. Nada
menos do que 7,5% da população brasileira economicamente ativa trabalha
em alguma atividade ligada ao setor florestal. Somente a cultura da erva-mate,
essencialmente florestal, emprega 800.000 pessoas.
João
Ramid
 | | Clareira
na Amazônia: a região lidera o ranking mundial do desmatamento |
No Acre, o governador Jorge Viana, engenheiro florestal de formação,
desenvolveu um projeto inovador de manejo da floresta. Em vez de retirar as pessoas
da mata para preservá-la, como é comum nas reservas de conservação,
os acreanos são estimulados a permanecer ali tirando seu sustento das árvores.
"O desenvolvimento econômico da floresta é a força mais eficaz
para virar o jogo do desmatamento", afirma Viana. No Amazonas, o governo estadual
está inovando ao criar um modelo de financiamento específico para
atividades florestais, por intermédio do Banco da Amazônia. São
movimentos aparentemente pequenos diante das necessidades. Reverter um processo
de desmatamento da magnitude do brasileiro e mudar a mentalidade de empresários,
agricultores, bancos e governantes são tarefas para muitos anos. Mas vale
a pena persistir. O Brasil tem a segunda maior cobertura vegetal do planeta, atrás
apenas da Rússia. Usada corretamente, é um tesouro renovável.
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