Edição 1891 . 9 de fevereiro de 2005

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Justiça
Acusação: pedófilo

E pela segunda vez. Mas agora
Michael Jackson tem de enfrentar
o processo sem acordo


AP
Jackson chega ao tribunal: dedo na boca, trajes expressivos e declaração de inocência
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Em Dia: A trajetória de Michael Jackson


Que tipo de homem leva um menino com câncer para casa e o submete a abuso sexual? Que tipo de homem mistura vinho no refrigerante do garoto doente para torná-lo mais suscetível a seus avanços? Segundo a promotoria pública da Califórnia, não há dúvida quanto à resposta: Michael Jackson. E que tipo de mãe deixa seu filho, mais um casal de irmãos menores de idade, sob o domínio de uma personalidade bizarra, com histórico de pedofilia? Também não há dúvida: é Janet, a mãe de Gavin Arvizo, o jovem hoje com 15 anos, que está no foco da denúncia que, se comprovada, poderá lançar na lama definitiva a mais estranha figura do show business em todos os tempos, uma mistura de talento tão brilhante quanto intrincados são os desvãos de sua psique atormentada.

Desse embate de comportamentos suspeitos sai um espetáculo cujo primeiro ato foi aberto na segunda-feira passada na pequena Santa Maria, com o prédio do tribunal cercado de manifestantes pró e contra, 1.000 repórteres, fotógrafos e cinegrafistas e tomado por cerca de 730 convocados a participar da seleção do júri. Jackson, 46 anos, obrigado pela lei a estar presente aos procedimentos, compareceu trajado como apresentador de circo, com um sorriso fixo no rosto deformado por cirurgias. Há doze anos, ele passou por situação quase idêntica – resolvida, por fora, com uma indenização da ordem de 20 milhões de dólares para Jordan Chandler, que tinha 13 anos na época dos abusos denunciados. Mudanças na legislação impedem hoje acordo semelhante. Se condenado, o cantor pode pegar 21 anos de cadeia.

Em 2000, Gavin, então com 10 anos, sofrendo de câncer, manifestou desejo de conhecer o cantor. Atendendo ao apelo, Jackson aproximou-se do menino. O casal de irmãos, Star e Davellin, também foi no pacote. A família freqüentou a intimidade da Terra do Nunca, como é chamada a enorme propriedade californiana de Jackson, durante três anos. A harmonia se esfacelou quando foi ao ar um documentário da televisão BBC, Living with Michael Jackson, no qual o cantor dizia achar normal dividir a cama com meninos como Gavin, que aparecia fazendo-lhe elogios. Passados alguns meses, Janet chamou a polícia, à qual os três irmãos contaram uma história muito diferente.

A primeira visita da família à Terra do Nunca ocorreu em agosto de 2000. Gavin ganhou um computador. Na segunda, em que foram só os dois meninos, a família ganhou um carro. Em 2001, não se viram, porque o menino se submetia a quimioterapia (com a doença, perdeu um rim e o baço), mas conversavam por telefone, às vezes durante horas. No ano seguinte, as visitas recomeçaram. A mãe e a irmã, quando iam, ficavam na casa de hóspedes. Os dois meninos, no quarto de Jackson – Star, o caçula, por insistência de Gavin. Sobre esses períodos, os meninos relatam episódios esporádicos de conduta imprópria: uma vez em que o cantor apareceu nu (só de meias), outra em que apalpou o irmão menor, outra em que acessou sites pornográficos na frente deles. As acusações levadas a julgamento se concentram num período de um mês e meio no começo de 2003, quando a polêmica do documentário já corria solta. Em Miami, para onde Jackson levou os irmãos e onde proibiu que assistissem ao programa, ele esvaziou uma lata de refrigerante, encheu-a de vinho e deu para Gavin. Foi o primeiro contato do menino com o que seria apelidado de "suco de Jesus" – muitos outros se seguiram, com variadas bebidas: vodca, tequila, rum, uísque. Em meados de fevereiro, relata Gavin em seu depoimento, o cantor lhe fez a primeira investida sexual explícita: quando estava "meio bêbado", Jackson pôs a mão dentro de seu pijama e o masturbou. Várias sessões parecidas se seguiram, nas quais Jackson às vezes se masturbava também. Uma vez, conta Gavin, Jackson o mandou tocar suas "partes íntimas" por cima da roupa. Durante todo esse período, até meados de março, a família afirma que ficou praticamente prisioneira na Terra do Nunca. Segundo seu relato, Jackson e assessores mencionavam ameaças de morte, ou os ameaçavam eles mesmos. A certa altura, falaram em embarcar Janet e os filhos para uma cidade remota no Brasil, "sem nenhum americano, onde ninguém os reconheceria".

Em março de 2003, a família "fugiu", de forma pouco explicada. Em meados desse ano, prestou seu depoimento. Em novembro, a polícia deu busca na Terra do Nunca e apreendeu uma lista de objetos que preenche nove páginas. Entre livros, fotos, revistas e DVDs pornográficos, a prova nº 327: uma cueca branca de menino, igual ao modelo que Gavin disse ter ido para o cesto de roupa suja depois de uma das investidas do cantor. Em abril do ano passado, foi aberto o processo contra Jackson, contendo quatro acusações de atos obscenos contra um menor, outras quatro de usar bebida alcoólica para facilitar as investidas, uma de tentativa de abuso sexual e uma de conspiração para seqüestro. A defesa diz que os depoimentos de Gavin e da família parecem ensaiados e que Michael Jackson é perseguido pelo promotor – o mesmo do caso Jordan Chandler.

O julgamento só deve acabar em julho, tempo suficiente para que muita sordidez ainda venha à tona.

 
 
 
 
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