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Justiça
Acusação: pedófilo E
pela segunda vez. Mas agora Michael Jackson tem de enfrentar o processo
sem acordo
AP  |
| Jackson chega ao tribunal: dedo na boca, trajes expressivos
e declaração de inocência | | Que
tipo de homem leva um menino com câncer para casa e o submete a abuso sexual?
Que tipo de homem mistura vinho no refrigerante do garoto doente para torná-lo
mais suscetível a seus avanços? Segundo a promotoria pública
da Califórnia, não há dúvida quanto à resposta:
Michael Jackson. E que tipo de mãe deixa seu filho, mais um casal de irmãos
menores de idade, sob o domínio de uma personalidade bizarra, com histórico
de pedofilia? Também não há dúvida: é Janet,
a mãe de Gavin Arvizo, o jovem hoje com 15 anos, que está no foco
da denúncia que, se comprovada, poderá lançar na lama definitiva
a mais estranha figura do show business em todos os tempos, uma mistura de talento
tão brilhante quanto intrincados são os desvãos de sua psique
atormentada.
Desse embate de comportamentos
suspeitos sai um espetáculo cujo primeiro ato foi aberto na segunda-feira
passada na pequena Santa Maria, com o prédio do tribunal cercado de manifestantes
pró e contra, 1.000 repórteres, fotógrafos e cinegrafistas
e tomado por cerca de 730 convocados a participar da seleção do
júri. Jackson, 46 anos, obrigado pela lei a estar presente aos procedimentos,
compareceu trajado como apresentador de circo, com um sorriso fixo no rosto deformado
por cirurgias. Há doze anos, ele passou por situação quase
idêntica resolvida, por fora, com uma indenização da
ordem de 20 milhões de dólares para Jordan Chandler, que tinha 13
anos na época dos abusos denunciados. Mudanças na legislação
impedem hoje acordo semelhante. Se condenado, o cantor pode pegar 21 anos de cadeia.
Em 2000, Gavin, então com 10 anos, sofrendo
de câncer, manifestou desejo de conhecer o cantor. Atendendo ao apelo, Jackson
aproximou-se do menino. O casal de irmãos, Star e Davellin, também
foi no pacote. A família freqüentou a intimidade da Terra do Nunca,
como é chamada a enorme propriedade californiana de Jackson, durante três
anos. A harmonia se esfacelou quando foi ao ar um documentário da televisão
BBC, Living with Michael Jackson, no qual o cantor dizia achar normal dividir
a cama com meninos como Gavin, que aparecia fazendo-lhe elogios. Passados alguns
meses, Janet chamou a polícia, à qual os três irmãos
contaram uma história muito diferente.
A primeira visita da família à Terra do Nunca ocorreu em agosto
de 2000. Gavin ganhou um computador. Na segunda, em que foram só os dois
meninos, a família ganhou um carro. Em 2001, não se viram, porque
o menino se submetia a quimioterapia (com a doença, perdeu um rim e o baço),
mas conversavam por telefone, às vezes durante horas. No ano seguinte,
as visitas recomeçaram. A mãe e a irmã, quando iam, ficavam
na casa de hóspedes. Os dois meninos, no quarto de Jackson Star,
o caçula, por insistência de Gavin. Sobre esses períodos,
os meninos relatam episódios esporádicos de conduta imprópria:
uma vez em que o cantor apareceu nu (só de meias), outra em que apalpou
o irmão menor, outra em que acessou sites pornográficos na frente
deles. As acusações levadas a julgamento se concentram num período
de um mês e meio no começo de 2003, quando a polêmica do documentário
já corria solta. Em Miami, para onde Jackson levou os irmãos e onde
proibiu que assistissem ao programa, ele esvaziou uma lata de refrigerante, encheu-a
de vinho e deu para Gavin. Foi o primeiro contato do menino com o que seria apelidado
de "suco de Jesus" muitos outros se seguiram, com variadas bebidas: vodca,
tequila, rum, uísque. Em meados de fevereiro, relata Gavin em seu depoimento,
o cantor lhe fez a primeira investida sexual explícita: quando estava "meio
bêbado", Jackson pôs a mão dentro de seu pijama e o masturbou.
Várias sessões parecidas se seguiram, nas quais Jackson às
vezes se masturbava também. Uma vez, conta Gavin, Jackson o mandou tocar
suas "partes íntimas" por cima da roupa. Durante todo esse período,
até meados de março, a família afirma que ficou praticamente
prisioneira na Terra do Nunca. Segundo seu relato, Jackson e assessores mencionavam
ameaças de morte, ou os ameaçavam eles mesmos. A certa altura, falaram
em embarcar Janet e os filhos para uma cidade remota no Brasil, "sem nenhum americano,
onde ninguém os reconheceria". Em março
de 2003, a família "fugiu", de forma pouco explicada. Em meados desse ano,
prestou seu depoimento. Em novembro, a polícia deu busca na Terra do Nunca
e apreendeu uma lista de objetos que preenche nove páginas. Entre livros,
fotos, revistas e DVDs pornográficos, a prova nº 327: uma cueca branca
de menino, igual ao modelo que Gavin disse ter ido para o cesto de roupa suja
depois de uma das investidas do cantor. Em abril do ano passado, foi aberto o
processo contra Jackson, contendo quatro acusações de atos obscenos
contra um menor, outras quatro de usar bebida alcoólica para facilitar
as investidas, uma de tentativa de abuso sexual e uma de conspiração
para seqüestro. A defesa diz que os depoimentos de Gavin e da família
parecem ensaiados e que Michael Jackson é perseguido pelo promotor
o mesmo do caso Jordan Chandler. O julgamento
só deve acabar em julho, tempo suficiente para que muita sordidez ainda
venha à tona. |