Edição 1891 . 9 de fevereiro de 2005

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Telefonia
Era uma vez a
maior empresa...

...do mundo. Ela foi comprada por uma "filhote"
de 21 anos de idade, que por sua vez sofre
ameaças de empresas criadas há quatro anos


Carlos Rydlewski

NESTA REPORTAGEM
Quadro: Por que a AT&T encolheu
Quadro: Uma usina de invenções

Com apenas 5% da população mundial, os Estados Unidos produzem um terço das riquezas globais, sediam 59 das 100 maiores empresas do mundo, ganharam o maior número de prêmios Nobel e possuem mais de quarenta das 75 marcas mais conhecidas. No coração desse dínamo econômico e científico trava-se a luta impiedosa entre empresas pela busca incessante por tecnologias que abram vantagens competitivas no mercado. O capitalismo darwinista regularmente mata empresas obsoletas e abre espaço para novas companhias. Das 500 maiores firmas americanas dos anos 50 menos de uma centena se mantivera no ranking até 2004. Mesmo em um ambiente assim, o desfecho da agonia da gigante de telecomunicações AT&T foi uma surpresa. Na semana passada, ela foi comprada por 16 bilhões de dólares por uma de suas antigas filhotes, a SBC Communications, do Texas.

Fundada em 1877 por Alexander Graham Bell (1847-1922), o inventor do telefone, a AT&T, sigla em inglês para American Telephone and Telegraph, teve seu negócio protegido por um monopólio que durou até 1984, quando a empresa foi dividida em oito e vendida aos pedaços. A AT&T ficou com os serviços interurbanos, a manufatura de equipamentos e as atividades de pesquisa. Suas sete filhotes se encarregaram dos serviços de telefonia regionais. A empresa-mãe era chamada de "Ma Bell" – ou mamãe Bell – pelos americanos. Suas filhotes foram apelidadas de "Baby Bells". A empresa era vista como um ícone da solidez empresarial. Em 1982, dois anos antes, portanto, de acabar o monopólio, a Ma Bell era a maior empresa do mundo. Suas ações, de comportamento previsível em Wall Street, foram durante décadas o esteio dos fundos de pensão. Os especuladores desdenhavam a perenidade da marca dizendo que os papéis da AT&T eram "ações para viúvas e órfãos".

AP
AS NOVAS CARAS DA TELEFONIA
JEFFREY CITRON, PRESIDENTE DA VONAGE (ACIMA.), E NIKLAS ZENNSTRÖM, PRESIDENTE DA SKYPE, OS DOIS DESTAQUES NA TELEFONIA DE VOZ PELA INTERNET. A VONAGE CONQUISTA 1 000 NOVOS CLIENTES POR DIA. O PROGRAMA DE TELEFONIA POR INTERNET DA SKYPE ESTA EM 60 MILHÕES DE PCS
Declan Mccullagh

O resumo da história é que, 21 anos depois de dar à luz suas filhotes, a Ma Bell foi comprada por uma Baby Bell. Não poderia haver símbolo mais perfeito do capitalismo turbinado americano que o mundo conheceu em sua plenitude na década de 90, mas cujas raízes foram plantadas nos anos 80 com o fim de uma era inflacionária. Sem inflação e sem proteção monopolista, as empresas gigantes começaram a ser ameaçadas por companhias menores, agressivas e insolentes, movidas por legislação favorável, alta tecnologia, crédito farto e pelo aumento geométrico da produtividade. A demora em aprender a competir no novo ambiente de negócios acabou sendo fatal para a AT&T. Metaforicamente, ela se viu na situação de desamparo dos antepassados dos seres humanos quando um cataclismo ambiental acabou com as florestas africanas, que lhes serviam de proteção e alimento, expondo-os aos perigos das savanas. De quase uma dezena de espécies de hominídeos surpreendidos pela mudança de ambiente, só uma triunfaria e daria origem ao Homo sapiens.

Como as savanas para os australopitecos, o novo mundo, foi hostil à AT&T. A empresa lutou bravamente pela própria sobrevivência. Na semana passada, alguns analistas chegaram a dizer que a AT&T acabou derrotada pelas próprias tecnologias que ajudou a criar. É uma visão interessante. Como dona do Laboratório Bell, berço das tecnologias mais decisivas do século XX, a AT&T parecia aparelhada para rechaçar a concorrência. Seu laboratório, absorvido pela Lucent em 1994, chegou a empregar ao mesmo tempo quatro ganhadores do Prêmio Nobel e atingiu o grau de excelência de registrar uma patente nova por dia. Claro que o transistor, as fibras ópticas, a digitalização da voz e as "células de transmissão", berço da telefonia celular, inventadas pela AT&T, ajudaram a empresa a chegar aonde chegou. Por que essas inovações não a ajudaram a avançar ainda mais é uma ironia. Mas não é apenas isso. Seu gigantismo e seu DNA moldado nos tempos bons do monopólio impediram uma mudança drástica de cultura. Mesmo com todas as suas patentes e os prêmios Nobel, a AT&T não conseguiu fazer produtos e oferecer serviços adequados para vencer a concorrência. Simplesmente, as idéias geniais não saíram dos laboratórios para a vida real na velocidade necessária.

"O último prego no ataúde foi a popularização da telefonia via internet", diz David Isenberg, pesquisador que por doze anos trabalhou no Laboratório Bell. Essa nova tecnologia, conhecida como VoIP, sigla em inglês para "voz sobre protocolo da internet", permite que os usuários de computadores ligados à web em banda larga possam fazer ligações telefônicas a um preço que é frações do que cobram a AT&T e outras companhias convencionais. Em alguns casos, conversar via internet pode custar 20% de uma ligação convencional. A ironia: os pesquisadores da AT&T foram um dos pioneiros dos processos de compressão e digitalização de voz que abriram caminho para o VoIP.

Empresas como a americana Vonage e a européia Skype são as expoentes do fenômeno do VoIP. Elas parecem agora tão ameaçadoras para a SBC quanto a SBC foi para a AT&T? Sim. Com uma agravante. Vonage e Skype podem não esperar duas décadas para atacar a SBC. Os ritmos agora são de meses. A SBC, por seu lado, pode ser mais difícil de ser engolida. Ela é uma empresa híbrida de telefonia e de internet. A compradora da AT&T oferece serviços de telefonia celular, televisão por satélite e, claro, de VoIP. Em uma tentativa desesperada, a própria AT&T lançou-se com fúria na nova moda de telefonia via internet. Mas uma vez mais seu DNA jurássico diminuiu as chances de sucesso da empreitada. O serviço de VoIP da AT&T se fixou no mercado corporativo, ao contrário das novas empresas, que, por sinal, não param de crescer. A Vonage tem uma base de apenas 400.000 clientes nos Estados Unidos. É uma fatia pequena diante dos 112 milhões de usuários das linhas tradicionais. Mas, criada há quatro anos, ela cresce ao ritmo de 1.000 novos clientes por dia.

No Brasil, o uso do VoIP concentra-se ainda no mundo corporativo. De acordo com o Yankee Group, consultoria especializada no mundo digital, uma em cada quatro grandes companhias brasileiras já usa o sistema. "Aqui, o avanço doméstico do serviço é lento até por causa da baixa penetração de banda larga", diz Patrícia Volpi, analista do Yankee Group. Com apenas 2,7% das residências servidas por banda larga, o mercado brasileiro de telefonia via internet ainda é incipiente. Mas a previsão dos analistas é que em 2005 o VoIP se tornará no Brasil uma segunda opção de telefone fixo – e móvel, através de laptops ligados a redes sem fio de internet disponíveis nos principais aeroportos brasileiros, centenas de restaurantes e hotéis. Resume Edward Whitacre Jr, o presidente da SBC: "Foi-se o tempo dos serviços baseados em ligações locais e interurbanas. Eles se tornaram irrelevantes. A internet e os aparelhos sem fio já alteraram para sempre a forma como as pessoas se comunicam".

 
 
 
 
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