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Telefonia
Era uma vez a
maior empresa...
...do mundo. Ela foi comprada por uma "filhote"
de 21 anos de idade, que por sua vez sofre
ameaças de empresas criadas há quatro anos

Carlos Rydlewski
Com apenas 5% da população mundial,
os Estados Unidos produzem um terço das riquezas globais,
sediam 59 das 100 maiores empresas do mundo, ganharam o maior número
de prêmios Nobel e possuem mais de quarenta das 75 marcas
mais conhecidas. No coração desse dínamo econômico
e científico trava-se a luta impiedosa entre empresas pela
busca incessante por tecnologias que abram vantagens competitivas
no mercado. O capitalismo darwinista regularmente mata empresas
obsoletas e abre espaço para novas companhias. Das 500 maiores
firmas americanas dos anos 50 menos de uma centena se mantivera
no ranking até 2004. Mesmo em um ambiente assim, o desfecho
da agonia da gigante de telecomunicações AT&T
foi uma surpresa. Na semana passada, ela foi comprada por 16 bilhões
de dólares por uma de suas antigas filhotes, a SBC Communications,
do Texas.
Fundada em 1877 por Alexander Graham Bell
(1847-1922), o inventor do telefone, a AT&T, sigla em inglês
para American Telephone and Telegraph, teve seu negócio protegido
por um monopólio que durou até 1984, quando a empresa
foi dividida em oito e vendida aos pedaços. A AT&T ficou
com os serviços interurbanos, a manufatura de equipamentos
e as atividades de pesquisa. Suas sete filhotes se encarregaram
dos serviços de telefonia regionais. A empresa-mãe
era chamada de "Ma Bell" ou mamãe Bell pelos
americanos. Suas filhotes foram apelidadas de "Baby Bells". A empresa
era vista como um ícone da solidez empresarial. Em 1982,
dois anos antes, portanto, de acabar o monopólio, a Ma Bell
era a maior empresa do mundo. Suas ações, de comportamento
previsível em Wall Street, foram durante décadas o
esteio dos fundos de pensão. Os especuladores desdenhavam
a perenidade da marca dizendo que os papéis da AT&T eram
"ações para viúvas e órfãos".
AP
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AS NOVAS CARAS DA TELEFONIA
JEFFREY CITRON, PRESIDENTE DA VONAGE (ACIMA.), E
NIKLAS ZENNSTRÖM, PRESIDENTE DA SKYPE, OS DOIS DESTAQUES
NA TELEFONIA DE VOZ PELA INTERNET. A VONAGE CONQUISTA 1 000
NOVOS CLIENTES POR DIA. O PROGRAMA DE TELEFONIA POR INTERNET
DA SKYPE ESTA EM 60 MILHÕES DE PCS |
Declan Mccullagh
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O resumo da história é que, 21
anos depois de dar à luz suas filhotes, a Ma Bell foi comprada
por uma Baby Bell. Não poderia haver símbolo mais
perfeito do capitalismo turbinado americano que o mundo conheceu
em sua plenitude na década de 90, mas cujas raízes
foram plantadas nos anos 80 com o fim de uma era inflacionária.
Sem inflação e sem proteção monopolista,
as empresas gigantes começaram a ser ameaçadas por
companhias menores, agressivas e insolentes, movidas por legislação
favorável, alta tecnologia, crédito farto e pelo aumento
geométrico da produtividade. A demora em aprender a competir
no novo ambiente de negócios acabou sendo fatal para a AT&T.
Metaforicamente, ela se viu na situação de desamparo
dos antepassados dos seres humanos quando um cataclismo ambiental
acabou com as florestas africanas, que lhes serviam de proteção
e alimento, expondo-os aos perigos das savanas. De quase uma dezena
de espécies de hominídeos surpreendidos pela mudança
de ambiente, só uma triunfaria e daria origem ao Homo
sapiens.
Como
as savanas para os australopitecos, o novo mundo, foi hostil à
AT&T. A empresa lutou bravamente pela própria sobrevivência.
Na semana passada, alguns analistas chegaram a dizer que a AT&T
acabou derrotada pelas próprias tecnologias que ajudou a
criar. É uma visão interessante. Como dona do Laboratório
Bell, berço das tecnologias mais decisivas do século
XX, a AT&T parecia aparelhada para rechaçar a concorrência.
Seu laboratório, absorvido pela Lucent em 1994, chegou a
empregar ao mesmo tempo quatro ganhadores do Prêmio Nobel
e atingiu o grau de excelência de registrar uma patente nova
por dia. Claro que o transistor, as fibras ópticas, a digitalização
da voz e as "células de transmissão", berço
da telefonia celular, inventadas pela AT&T, ajudaram a empresa
a chegar aonde chegou. Por que essas inovações não
a ajudaram a avançar ainda mais é uma ironia. Mas
não é apenas isso. Seu gigantismo e seu DNA moldado
nos tempos bons do monopólio impediram uma mudança
drástica de cultura. Mesmo com todas as suas patentes e os
prêmios Nobel, a AT&T não conseguiu fazer produtos
e oferecer serviços adequados para vencer a concorrência.
Simplesmente, as idéias geniais não saíram
dos laboratórios para a vida real na velocidade necessária.
"O último prego no ataúde foi
a popularização da telefonia via internet", diz David
Isenberg, pesquisador que por doze anos trabalhou no Laboratório
Bell. Essa nova tecnologia, conhecida como VoIP, sigla em inglês
para "voz sobre protocolo da internet", permite que os usuários
de computadores ligados à web em banda larga possam fazer
ligações telefônicas a um preço que é
frações do que cobram a AT&T e outras companhias
convencionais. Em alguns casos, conversar via internet pode custar
20% de uma ligação convencional. A ironia: os pesquisadores
da AT&T foram um dos pioneiros dos processos de compressão
e digitalização de voz que abriram caminho para o
VoIP.
Empresas como a americana Vonage e a européia
Skype são as expoentes do fenômeno do VoIP. Elas parecem
agora tão ameaçadoras para a SBC quanto a SBC foi
para a AT&T? Sim. Com uma agravante. Vonage e Skype podem não
esperar duas décadas para atacar a SBC. Os ritmos agora são
de meses. A SBC, por seu lado, pode ser mais difícil de ser
engolida. Ela é uma empresa híbrida de telefonia e
de internet. A compradora da AT&T oferece serviços de
telefonia celular, televisão por satélite e, claro,
de VoIP. Em uma tentativa desesperada, a própria AT&T
lançou-se com fúria na nova moda de telefonia via
internet. Mas uma vez mais seu DNA jurássico diminuiu as
chances de sucesso da empreitada. O serviço de VoIP da AT&T
se fixou no mercado corporativo, ao contrário das novas empresas,
que, por sinal, não param de crescer. A Vonage tem uma base
de apenas 400.000 clientes nos Estados Unidos. É uma fatia
pequena diante dos 112 milhões de usuários das linhas
tradicionais. Mas, criada há quatro anos, ela cresce ao ritmo
de 1.000 novos clientes por dia.
No Brasil, o uso do VoIP concentra-se ainda
no mundo corporativo. De acordo com o Yankee Group, consultoria
especializada no mundo digital, uma em cada quatro grandes companhias
brasileiras já usa o sistema. "Aqui, o avanço doméstico
do serviço é lento até por causa da baixa penetração
de banda larga", diz Patrícia Volpi, analista do Yankee Group.
Com apenas 2,7% das residências servidas por banda larga,
o mercado brasileiro de telefonia via internet ainda é incipiente.
Mas a previsão dos analistas é que em 2005 o VoIP
se tornará no Brasil uma segunda opção de telefone
fixo e móvel, através de laptops ligados a
redes sem fio de internet disponíveis nos principais aeroportos
brasileiros, centenas de restaurantes e hotéis. Resume Edward
Whitacre Jr, o presidente da SBC: "Foi-se o tempo dos serviços
baseados em ligações locais e interurbanas. Eles se
tornaram irrelevantes. A internet e os aparelhos sem fio já
alteraram para sempre a forma como as pessoas se comunicam".
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