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Economia e Negócios Nova
derrota do "fogo amigo" Membros do próprio
governo e do PT esquecem o sucesso da política monetária
em 2004, miram nos diretores do Banco Central e erram, mais uma vez  Eduardo
Salgado e Leandra Peres
Alan
Marques/Folha Imagem
 | | Lula,
cercado pelo ministro Antonio Palocci e por Henrique Meirelles, do BC: pressa
na autonomia do Banco Central |
A política econômica
do governo Lula é sucesso sob qualquer ângulo pelo qual se observe.
Depois de crescer 5% em 2004, o PIB brasileiro continua em expansão e,
apesar da trajetória de alta dos juros, necessária para conter a
inflação, a confiança de consumidores e de empresários
mantém-se em alta. Curiosamente, quanto mais evidentes ficam os acertos
da equipe econômica, mais estridente soa o alarido dos descontentes com
a opção do presidente pela racionalidade fiscal e monetária.
Assessores palacianos andam espalhando boatos de que Lula, cansado da ortodoxia
de alguns diretores do Banco Central (BC), decidira demitir dois deles e, de quebra,
oferecer uma saída honrosa a Henrique Meirelles, presidente da instituição.
Meirelles teria sido forçado pelo Palácio do Planalto a candidatar-se
ao governo de Goiás em 2006, o que exigiria dele filiar-se a algum partido
até agosto. Devido ao choque dessa opção com a imagem apolítica
que se exige de uma autoridade monetária, Meirelles seria obrigado a deixar
o governo assim que essa alternativa se revelasse.
As mudanças no BC, segundo os boatos, abririam as portas para um afrouxamento
da política monetária e para uma tolerância maior à
inflação. Como sempre, os boatos foram magnificados com frações
pequenas de fatos reais. De fato, o BC e o Ministério da Fazenda preparam
há meses a substituição de Afonso Bevilaqua, diretor de política
econômica do BC, e de Alexandre Schwartsman, responsável pela área
externa. Eduardo Henrique de Mello Motta Loyo, diretor de estudos especiais e
muito ligado a Bevilaqua, chegou a informar ao governo que deixaria o cargo junto
com os dois, mas voltou atrás. A saída desses diretores, iminente
até a propagação dos boatos, foi adiada depois deles. Possíveis
baixas na equipe do BC não devem ser interpretadas como enfraquecimento
da atual política monetária. "A política econômica
é firmemente sustentada pelo presidente Lula, que acaba de dizer isso publicamente
em Davos. A estabilidade é uma conquista e uma propriedade da sociedade
brasileira. Ela não está em jogo", disse a VEJA, na quinta-feira
passada, o ministro Antonio Palocci. Ele se recusa a comentar, mesmo como hipótese,
a saída de diretores do Banco Central. Um
dos diretores que manifestaram a vontade de sair do BC se cansou do setor público.
Outro teve suas funções esvaziadas por uma redistribuição
de atribuições entre o Tesouro e o Banco Central, planejada desde
2003. Em comum, todos acumularam atritos com a Secretaria do Tesouro, reclamam
de vazamento de discussões dentro do Comitê de Política Monetária
(Copom), que fixa a taxa de juros em reuniões fechadas, e sentem-se injustiçados
pelas críticas que recebem de membros do governo e da opinião pública.
Bevilaqua é hoje a voz mais influente nas reuniões do Copom. Ele
conquistou espaço na equipe econômica por ter identificado uma aceleração
da inflação logo no início de 2004 e forçado a manutenção
da taxa Selic em 16,50%, interrompendo uma trajetória de queda que vinha
desde fevereiro de 2003. Um dos embates de Bevilaqua àquela época
foi com o secretário de Política Econômica do Ministério
da Fazenda, Marcos Lisboa, que não concordava com a tese de aumento da
inflação e defendia uma liberação da política
econômica. Hoje, Lisboa reconhece o acerto de Bevilaqua: "Os dados mostraram
que as análises do BC sobre o PIB estavam mais corretas que as minhas".
Ana
Araujo
 | | Reunião
do Copom em 2003 (acima), o alvo predileto da "artilharia da casa" liderada
por Jaques Wagner, o senador Aloizio Mercadante (abaixo, à esq.)
e Luiz Dulci, secretário-geral do Planalto |  | Alan
Marques/Folha Imagem
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Quanto aos boatos sobre Meirelles, não é impossível que ele
venha a candidatar-se ao governo de Goiás. Ele nega. Esses são os
aspectos reais dos boatos. O problema para a estabilidade econômica não
são esses boatos. Problema mesmo é o curso que os vigilantes adversários
da política econômica, os chamados "mosqueteiros do fogo amigo",
estão tentando dar às possíveis mudanças no Banco
Central. Eles estariam vendendo a Lula a idéia tentadora de que o presidente
já pode se apresentar ao mundo como o fiador da estabilidade econômica
e, por essa razão, não precisaria mais tanto de Palocci nem de Meirelles.
Prova de que nada disso tem fundamento e de que não haveria mudança
na direção da economia, diz um membro da equipe econômica,
está no perfil dos técnicos de mercado sondados pelo BC para substituir
os diretores que devem sair. Há meses foi feito um convite a Reinaldo Le
Grazie, diretor da Proventus Invest, uma empresa de gestão de recursos,
e ex-tesoureiro do banco Lloyds. Grazie não só é fã
da política monetária atual como foi um dos primeiros a defender
uma elevação dos juros no ano passado. Se outros diretores forem
convidados, diz ele, terão esse mesmo perfil.
Não fosse por uma particularidade, esses boatos assemelhariam-se a outros
orquestrados antes pelo fogo amigo do petismo. Desta vez, porém, existem
ligeiras diferenças. Uma delas é que agora a artilharia deixou rastros
identificáveis. O primeiro propagador de boatos seria Luiz Dulci, secretário-geral
da Presidência da República. Dulci nunca escondeu sua tese de que
outra política econômica é possível. Novidade é
que agora esteja trabalhando nos bastidores para ver conseqüências
práticas de suas crenças. Outro seria Jaques Wagner, ministro do
Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência. Wagner
está lotado no 4º andar do Palácio do Planalto, assim como
Dulci habitam o chamado "quarto dos infernos" do Palácio do Planalto.
Seu esporte preferido é descer um lance de escadas e aproveitar-se de brechas
na agenda presidencial para tentar convencer Lula de que os acertos da política
econômica são insuficientes para reelegê-lo em 2006. O restante
do tempo livre, que é grande, Wagner usa para tentar convencer jornalistas
de que o fim da política monetária atual está próximo.
Credita-se a ele a versão de que o presidente Lula criticou a última
elevação da taxa de juros, de 17,75% para 18,25% ao ano, definida
pelo Copom em janeiro, e encomendou estudos para adotar modelos alternativos.
Outro que seria integrante da bateria de fogo amigo,
o senador Aloizio Mercadante, nega com veemência ter feito qualquer comentário
com o objetivo de atrapalhar a condução da política econômica.
Na quarta-feira, quando o Ministério da Fazenda tentava negar a demissão
sumária dos diretores do BC, uma agência de notícias publicou
uma declaração atribuída a Mercadante em que o senador dizia
que, como membro da comissão parlamentar que faz a sabatina de candidatos
a diretores do BC, ele sabia da saída de Meirelles, Bevilaqua e Schwartsman.
"Nunca disse isso, é uma mentira. Pedi uma retratação do
repórter que escreveu isso", reagiu Mercadante. Na noite de quarta-feira,
Mercadante foi à casa de Meirelles para desfazer o que chamou de mal-entendido.
"Minhas críticas são públicas e referem-se à afinação
das metas de inflação." O saldo da última onda de fogo amigo
acabou produzindo reação contrária. O presidente Lula fez
saber aos interessados que colocará a força política de seu
cargo para apressar a tramitação da emenda que confere autonomia
ao Banco Central. |