Edição 1891 . 9 de fevereiro de 2005

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Economia e Negócios
Nova derrota do "fogo amigo"

Membros do próprio governo e do PT
esquecem o sucesso da política monetária
em 2004, miram nos diretores do Banco
Central e erram, mais uma vez


Eduardo Salgado e Leandra Peres

 
Alan Marques/Folha Imagem
Lula, cercado pelo ministro Antonio Palocci e por Henrique Meirelles, do BC: pressa na autonomia do Banco Central

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Perguntas e respostas sobre a taxa de juros

A política econômica do governo Lula é sucesso sob qualquer ângulo pelo qual se observe. Depois de crescer 5% em 2004, o PIB brasileiro continua em expansão e, apesar da trajetória de alta dos juros, necessária para conter a inflação, a confiança de consumidores e de empresários mantém-se em alta. Curiosamente, quanto mais evidentes ficam os acertos da equipe econômica, mais estridente soa o alarido dos descontentes com a opção do presidente pela racionalidade fiscal e monetária. Assessores palacianos andam espalhando boatos de que Lula, cansado da ortodoxia de alguns diretores do Banco Central (BC), decidira demitir dois deles e, de quebra, oferecer uma saída honrosa a Henrique Meirelles, presidente da instituição. Meirelles teria sido forçado pelo Palácio do Planalto a candidatar-se ao governo de Goiás em 2006, o que exigiria dele filiar-se a algum partido até agosto. Devido ao choque dessa opção com a imagem apolítica que se exige de uma autoridade monetária, Meirelles seria obrigado a deixar o governo assim que essa alternativa se revelasse.

As mudanças no BC, segundo os boatos, abririam as portas para um afrouxamento da política monetária e para uma tolerância maior à inflação. Como sempre, os boatos foram magnificados com frações pequenas de fatos reais. De fato, o BC e o Ministério da Fazenda preparam há meses a substituição de Afonso Bevilaqua, diretor de política econômica do BC, e de Alexandre Schwartsman, responsável pela área externa. Eduardo Henrique de Mello Motta Loyo, diretor de estudos especiais e muito ligado a Bevilaqua, chegou a informar ao governo que deixaria o cargo junto com os dois, mas voltou atrás. A saída desses diretores, iminente até a propagação dos boatos, foi adiada depois deles. Possíveis baixas na equipe do BC não devem ser interpretadas como enfraquecimento da atual política monetária. "A política econômica é firmemente sustentada pelo presidente Lula, que acaba de dizer isso publicamente em Davos. A estabilidade é uma conquista e uma propriedade da sociedade brasileira. Ela não está em jogo", disse a VEJA, na quinta-feira passada, o ministro Antonio Palocci. Ele se recusa a comentar, mesmo como hipótese, a saída de diretores do Banco Central.

Um dos diretores que manifestaram a vontade de sair do BC se cansou do setor público. Outro teve suas funções esvaziadas por uma redistribuição de atribuições entre o Tesouro e o Banco Central, planejada desde 2003. Em comum, todos acumularam atritos com a Secretaria do Tesouro, reclamam de vazamento de discussões dentro do Comitê de Política Monetária (Copom), que fixa a taxa de juros em reuniões fechadas, e sentem-se injustiçados pelas críticas que recebem de membros do governo e da opinião pública. Bevilaqua é hoje a voz mais influente nas reuniões do Copom. Ele conquistou espaço na equipe econômica por ter identificado uma aceleração da inflação logo no início de 2004 e forçado a manutenção da taxa Selic em 16,50%, interrompendo uma trajetória de queda que vinha desde fevereiro de 2003. Um dos embates de Bevilaqua àquela época foi com o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Marcos Lisboa, que não concordava com a tese de aumento da inflação e defendia uma liberação da política econômica. Hoje, Lisboa reconhece o acerto de Bevilaqua: "Os dados mostraram que as análises do BC sobre o PIB estavam mais corretas que as minhas".

 
Ana Araujo
Reunião do Copom em 2003 (acima), o alvo predileto da "artilharia da casa" liderada por Jaques Wagner, o senador Aloizio Mercadante (abaixo, à esq.) e Luiz Dulci, secretário-geral do Planalto
Alan Marques/Folha Imagem

Quanto aos boatos sobre Meirelles, não é impossível que ele venha a candidatar-se ao governo de Goiás. Ele nega. Esses são os aspectos reais dos boatos. O problema para a estabilidade econômica não são esses boatos. Problema mesmo é o curso que os vigilantes adversários da política econômica, os chamados "mosqueteiros do fogo amigo", estão tentando dar às possíveis mudanças no Banco Central. Eles estariam vendendo a Lula a idéia tentadora de que o presidente já pode se apresentar ao mundo como o fiador da estabilidade econômica e, por essa razão, não precisaria mais tanto de Palocci nem de Meirelles. Prova de que nada disso tem fundamento e de que não haveria mudança na direção da economia, diz um membro da equipe econômica, está no perfil dos técnicos de mercado sondados pelo BC para substituir os diretores que devem sair. Há meses foi feito um convite a Reinaldo Le Grazie, diretor da Proventus Invest, uma empresa de gestão de recursos, e ex-tesoureiro do banco Lloyds. Grazie não só é fã da política monetária atual como foi um dos primeiros a defender uma elevação dos juros no ano passado. Se outros diretores forem convidados, diz ele, terão esse mesmo perfil.

Não fosse por uma particularidade, esses boatos assemelhariam-se a outros orquestrados antes pelo fogo amigo do petismo. Desta vez, porém, existem ligeiras diferenças. Uma delas é que agora a artilharia deixou rastros identificáveis. O primeiro propagador de boatos seria Luiz Dulci, secretário-geral da Presidência da República. Dulci nunca escondeu sua tese de que outra política econômica é possível. Novidade é que agora esteja trabalhando nos bastidores para ver conseqüências práticas de suas crenças. Outro seria Jaques Wagner, ministro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência. Wagner está lotado no 4º andar do Palácio do Planalto, assim como Dulci – habitam o chamado "quarto dos infernos" do Palácio do Planalto. Seu esporte preferido é descer um lance de escadas e aproveitar-se de brechas na agenda presidencial para tentar convencer Lula de que os acertos da política econômica são insuficientes para reelegê-lo em 2006. O restante do tempo livre, que é grande, Wagner usa para tentar convencer jornalistas de que o fim da política monetária atual está próximo. Credita-se a ele a versão de que o presidente Lula criticou a última elevação da taxa de juros, de 17,75% para 18,25% ao ano, definida pelo Copom em janeiro, e encomendou estudos para adotar modelos alternativos.

Outro que seria integrante da bateria de fogo amigo, o senador Aloizio Mercadante, nega com veemência ter feito qualquer comentário com o objetivo de atrapalhar a condução da política econômica. Na quarta-feira, quando o Ministério da Fazenda tentava negar a demissão sumária dos diretores do BC, uma agência de notícias publicou uma declaração atribuída a Mercadante em que o senador dizia que, como membro da comissão parlamentar que faz a sabatina de candidatos a diretores do BC, ele sabia da saída de Meirelles, Bevilaqua e Schwartsman. "Nunca disse isso, é uma mentira. Pedi uma retratação do repórter que escreveu isso", reagiu Mercadante. Na noite de quarta-feira, Mercadante foi à casa de Meirelles para desfazer o que chamou de mal-entendido. "Minhas críticas são públicas e referem-se à afinação das metas de inflação." O saldo da última onda de fogo amigo acabou produzindo reação contrária. O presidente Lula fez saber aos interessados que colocará a força política de seu cargo para apressar a tramitação da emenda que confere autonomia ao Banco Central.

 
 
 
 
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