Edição 1891 . 9 de fevereiro de 2005

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Especial
Acima do bem e do mal

Senhora do Destino fascina com uma
fórmula que reúne o que de melhor
já foi feito em novelas


Ricardo Valladares

 
Montagem com fotos de Oscar Cabral
HEROÍNA E VILÃ
As personagens Maria do Carmo (à esq.) e Nazaré (à dir.): um embate que arrebata milhões de brasileiros

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Um dos passatempos favoritos dos brasileiros atualmente é apostar em qual será a próxima vítima eliminada pela vilã Nazaré com um empurrãozinho escada abaixo. Também se debate se o coração da heroína Maria do Carmo será fisgado pelo jornalista Dirceu de Castro ou pelo bicheiro Giovanni Improtta. Pelo país afora, fala-se sobre a gravidez da adolescente Lady Daiane, o seqüestro da bem-nascida Duda e as carícias trocadas pelas lésbicas Jenifer e Eleonora. Embora ainda falte um mês para o desfecho de Senhora do Destino, já é possível afirmar: trata-se da novela das 8 mais vista de todos os tempos. Em seus momentos de maior audiência, o folhetim atrai até 45 milhões de espectadores e mantém oitenta de cada 100 televisores sintonizados na Rede Globo. A trama de Aguinaldo Silva condensa tudo o que foi testado e aprovado em novelas de sucesso nos últimos anos, e traz ainda a mais clássica das matérias-primas do folhetim: um embate arquetípico entre o bem e o mal.


SENHORA DO IBOPE

Na última terça-feira, 80 de cada 100 televisores estavam ligados na novela  

45 milhões de pessoas assistem aos capítulos de maior audiência

A oposição entre bem e mal é o alicerce sobre o qual se assentam as grandes religiões. Tem sido uma questão central da filosofia moral ao longo dos séculos e, é claro, um fio condutor das artes. Se na literatura e na dramaturgia "sérias" as fronteiras entre bem e mal tendem a ser borradas, uma das principais marcas da ficção popular tem sido a falta de pudor em dividir o mundo de maneira muito definida entre luz e trevas. Isso vale para o folhetim escrito, tanto quanto para o eletrônico. Personagens ambíguos demais numa novela de televisão são um risco – basta lembrar do personagem representado por Antonio Fagundes na novela O Dono do Mundo (1991), que era uma espécie de herói-vilão e acabou causando rejeição no público. Em Senhora do Destino não há ambigüidade. O que existe, no caso da heroína Maria do Carmo, é a saudável tentativa de retratar uma pessoa de carne e osso, e não uma santa. Vivida por Suzana Vieira, ela é uma retirante nordestina que deu duro para vencer na vida e não hesita em mostrar as garras em defesa de sua família. Já a vilã Nazaré tem traços mais caricaturais. Ela mata, rouba, trai e transpira uma maldade de proporções oceânicas.

 
Fotos Oscar Cabral
NOS BASTIDORES
Preparação de cena da escola de samba fictícia (acima), o ator e diretor Wolf Maya em ação (abaixo, à esq.) e a expectativa no estúdio antes de uma seqüência de alcova: a novela é um empreendimento que envolve 130 atores e consome 180 000 reais por capítulo

As razões do sucesso de Maria do Carmo ficaram claras numa pesquisa recente conduzida pela Globo. Ela é uma mulher de fibra e elemento agregador de uma família grande, que tem gente de todas as índoles: trabalhadora, vadia, gentil ou calhorda. Como dizem os sociólogos, a sociedade brasileira é historicamente patriarcal, mas a casa e a vida íntima do brasileiro sempre foram regidas por mulheres com perfil parecido ao de Maria do Carmo, em qualquer classe social. Ao lado dessas características mais tradicionais, Maria do Carmo encarna também a determinação de uma nova brasileira. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de famílias chefiadas por mulheres cresceu 30% na última década. Na imensa maioria dos 14,6 milhões de lares nessas condições, a mulher é divorciada ou o pai abandonou a família, como no caso da personagem de Senhora do Destino. Para as espectadoras, Maria do Carmo é alguém que triunfa sobre a pobreza sem se corromper. "A personagem traz à tona a força feminina na construção do Brasil", diz o antropólogo Roberto DaMatta.

Nazaré é o oposto disso tudo. Para começo de conversa, ela é estéril. Mas sua condição não causa pena, porque se converte no motor de sua primeira crueldade: o rapto da filha de Maria do Carmo, ainda nos anos 60. Sua esterilidade é como um castigo merecido: "Você é seca", dizem seus inimigos quando querem atingi-la. Ex-prostituta, Nazaré entrega-se a sessões de sexo pesadas, até com mais de um parceiro de uma vez. Ela é incapaz de viver uma relação baseada no amor e na amizade, e mata sem pestanejar. Um dos bons achados de Aguinaldo Silva, contudo, foi conferir um lado cômico a essa figura tétrica. "Podem acusá-la de amoral e mentirosa, mas não de mal-humorada", diz Renata Sorrah. A vilã criou apelidos infames para desqualificar aqueles que atravessam seu caminho: Maria do Carmo é um "urutu blindado", e seus filhos são chamados de "flageladinhos". Além disso, ela quase sempre recebe algum tipo de troco por suas maldades. Já apanhou e viu sua máscara cair em diversas situações. Como sempre se reergue, ainda que estropiada, Aguinaldo Silva afirma que ela é uma espécie de vilã de desenho animado. "No começo, quando as crianças me pediam autógrafos, achei até que havia algo de errado com essa vilã", diz Renata. Basta Nazaré abrir seu saco de maldades para que a audiência grude os olhos na tela. A psicologia e a dramaturgia oferecem boas explicações para a sedução. Os vilões provocam catarse nos espectadores, ao acenar com a satisfação da agressividade comum a todos, mas reprimida em nome do convívio social.

Embora a química proporcionada pelos embates de Maria do Carmo e Nazaré contribua em muito para a boa audiência de Senhora do Destino, não se trata da única razão. Ao longo dos anos, os autores da Rede Globo refinaram uma série de técnicas para conquistar a atenção do público. São referências críticas na trama ao cenário político nacional, a abordagem de assuntos polêmicos como a homossexualidade ou a violência doméstica (que assim entram na pauta de conversa das famílias) e a prestação de informações sobre doenças e outras aflições do brasileiro – o chamado "merchandising do bem". Alguns noveleiros têm seu nome especialmente ligado a um ou outro desses recursos. Manoel Carlos, por exemplo, compõe suas novelas como verdadeiros mosaicos de questões polêmicas do dia-a-dia, enquanto Glória Perez é uma adepta convicta do merchandising do bem. Pode-se dizer, contudo, que essas técnicas formam um patrimônio comum, e um dos méritos de Aguinaldo Silva em Senhora do Destino é ter combinado todas elas de maneira feliz – sem esquecer ainda elementos de pura comédia e aqueles de exagero, que se afastam do realismo. Essa última é uma marca inequívoca do próprio Silva, que explorou o fantástico em novelas anteriores. Em Senhora do Destino ele transformou a escada da casa de Nazaré numa espécie de passagem mágica para o mundo doentio da personagem. "Eu contraceno com a escada", diz Renata Sorrah. Outro ponto de honra para o noveleiro é dar uma profissão a todos os seus personagens, em vez de mantê-los naquele santo ócio que é comum nos folhetins. "Em minha novela anterior, eu vivia de sunga. Agora, quase não tiro o smoking", diz o ator Marcello Antony, intérprete do maître Viriato.

Silva tirou o mote de Senhora do Destino das manchetes de jornais: o seqüestro do garoto Pedrinho por Vilma Martins Costa. Ela levou o bebê de uma maternidade de Brasília, em 1986, e o criou como se fosse seu filho até ser desmascarada, em 2003. Mais tarde, descobriu-se que fizera o mesmo com outra criança. Entre as questões sociais minadas por preconceitos que a novela resolveu enfrentar está o lesbianismo – e ela conseguiu fazê-lo sem provocar a rejeição do público. Da mesma forma que Manoel Carlos em Mulheres Apaixonadas, Silva soube dar dignidade às personagens Jenifer e Eleonora e assim pôde levar o romance entre elas até onde nunca se viu numa novela. Na semana passada, ambas viveram uma seqüência picante na hora de "testar" o colchão de casal que compraram para sua nova casa. Além disso, estão na fila para adotar uma criança. Outro tema forte é o da violência doméstica. Mulher batalhadora de classe baixa, a negra Rita (Adriana Lessa) era uma esposa submissa que levava surras de um marido de pesadelo. Antes de sua via-crúcis ir ao ar, o autor temia que a história causasse rejeição. Mas, na primeira cena em que a mulher apanhou, a audiência disparou.

Em matéria de merchandising do bem, a novela também não decepciona. Um de seus temas é a gravidez na adolescência, debatida a partir da personagem Lady Daiane (vivida por Jéssica Sodré, de 19 anos, escolhida entre 400 meninas da periferia fluminense). As conversas da garota com uma amiguinha são utilizadas para falar de educação sexual. Com suas crises de memória, a baronesa de Bonsucesso (Glória Menezes) serviu de mote para transmitir informações sobre a doença de Alzheimer. A abordagem do tema não foi afetada pela saída inesperada da novela do ator Raul Cortez, intérprete do marido da baronesa. Há duas semanas, depois de retirar um tumor maligno do duodeno, ele anunciou seu afastamento para um tratamento de quimioterapia – mas, antes disso, fez questão de gravar as cenas finais do barão.

A novela abordou ainda a corrupção na política, ao expor as falcatruas dos personagens de Eduardo Moscovis e Leticia Spiller – respectivamente, o prefeito inescrupuloso da fictícia Vila São Miguel e sua mulher-víbora. "Eu me inspirei em Lady Macbeth, de Shakespeare, para fazer o papel", diz Leticia, indo longe na referência. Já Moscovis afirma ter se baseado na trajetória da governadora do Rio de Janeiro, Rosinha Garotinho, e de seu marido, Anthony Garotinho, para compor seu personagem. "É uma homenagem a eles", diz. A dupla maquiavélica aparecerá mais ainda na reta final da trama. O casal, que já encomendou o seqüestro do próprio filho, provocará a prisão de Maria do Carmo, mãe do político. Tanto quanto pela vilania, os personagens destacam-se pelo apetite sexual. Nas cenas de alcova, Leticia e Moscovis são atores aplicados. "Os dois não brincam em serviço", conta um técnico da Globo. Leticia não deixa seu filho, de 8 anos, assistir às cenas calientes. "Não faria bem a ele, por ser meu filho", analisa. Em tempo: a sensualidade de Leticia assusta as espectadoras. "Leticia tem cara de quem sabe roubar maridos, e isso gera um certo rancor", diz Silva.

Dois núcleos de Senhora do Destino cativam o público em especial: o da família da matriarca Maria do Carmo e o da escola de samba, que gira em torno do bicheiro Giovanni Improtta. Nas gravações da novela, as cenas desses núcleos também são as mais divertidas, por envolver muita gente. Na casa de Maria do Carmo, onde muitas vezes mais de dez atores contracenam, o clima é de descontração. Suzana Vieira consome com voracidade as porções de cuscuz e tapioca usadas nas cenas de café-da-manhã. "Eles fazem sem açúcar e com pouca gordura para eu não engordar", diz Suzana, enxuta aos 62 anos. O núcleo de Improtta cativa graças às tiradas do personagem de José Wilker. O bicheiro não é estereotipado como tipo durão. Ao contrário: é romântico, generoso com sua comunidade e compreensivo com a filha lésbica. Ele é o elo entre os vários núcleos da novela e a comunidade da Baixada Fluminense, onde se desenrola a trama.

As diferenças entre Maria do Carmo e Nazaré não se resumem às personagens. Nos bastidores, Suzana Vieira e Renata Sorrah têm jeitos de ser bem diferentes. Do alto de sua experiência – ela diz que Senhora do Destino é sua quadragésima novela –, Suzana não se limita a atuar: ela não tem pudor de dar palpites na direção das cenas. E que ninguém ouse criticar aquele seu sotaque nordestino carregado – ela acha que é preconceito. "As pessoas só aceitam o sotaque nordestino para a farsa e para a comédia", diz. O carisma da atriz e de sua personagem junto ao público faz dela uma campeã de credibilidade, e a transforma na figura mais solicitada para as inserções de merchandising na novela. Entre seu salário e o que ganha com isso, Suzana sai pelo menos 1 milhão de reais mais rica da novela. O estilo de Renata é menos ruidoso. No estúdio, a atriz raras vezes interfere no trabalho do diretor. Quanto ao merchandising – bem, uma vilã como Nazaré não é exatamente uma garota-propaganda das mais positivas. A atriz não fatura nem um centavo nessa área. É o preço da maldade.

O sucesso de Senhora do Destino mostra que a novela das 8 ainda é uma instituição que paira acima das mudanças de hábitos do público brasileiro. Nos últimos dez anos, tudo contribuiu para que a audiência desse tipo de programa erodisse. A Globo passou a enfrentar concorrência mais acirrada, e a televisão paga se consolidou como alternativa à programação das grandes redes. Além disso, o controle remoto, se já era difundido, tornou-se um artefato universal, fazendo com que o brasileiro incorporasse de vez o hábito de "zapear" pelos canais. Isso torna o triunfo do folhetim mais retumbante. Assistir a uma boa novela das 8 continua sendo uma experiência que os brasileiros gostam de compartilhar.

 

Boas causas e temas polêmicos

Fotos divulgação/TV Globo
DOENÇA DE ALZHEIMER
Por meio do drama da baronesa de Bonsucesso, papel de Glória Menezes, a novela abordou o problema que aflige principalmente as pessoas na terceira idade. O ator Raul Cortez, intérprete do marido dela, teve de se afastar das gravações para tratar de um câncer, mas antes gravou as cenas em que a personagem desmemoriada encerra sua participação no folhetim

 

CORRUPÇÃO NA POLÍTICA
Reginaldo (Eduardo Moscovis), prefeito da fictícia Vila São Miguel, é o rei das falcatruas – por causa de uma delas, a heroína Maria do Carmo, sua mãe, irá para a cadeia. Com o apoio da mulher, Viviane (Leticia Spiller), ele não hesitou nem mesmo em seqüestrar o próprio filho

 

LESBIANISMO LIBERADO
O caso de Eleonora (Mylla Christie) e Jenifer (Bárbara Borges) não foi rejeitado pela audiência graças à forma como se construiu a relação de ambas. Elas tiveram a aprovação dos pais, vão morar juntas e pretendem adotar um filho

 

GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA
A personagem Lady Daiane mal completou 15 anos e já espera seu segundo filho. Seus diálogos com uma amiguinha são usados para transmitir lições sobre a gravidez indesejada e o uso de preservativos. Jéssica Sodré, que vive a personagem, foi escolhida entre 400 garotas de família humilde da Baixada Fluminense

 

Um embate ancestral

A oposição entre o bem e o mal é uma
constante
na história da humanidade


Reprodução


RELIGIÃO

A noção de mal é vaga na religião grega e latina, cujos deuses estão longe de ser modelos de virtude. As grandes religiões monoteístas mudaram isso. Nelas, formulam-se uma clara oposição entre o bem e o mal e preceitos para afastar o crente do pecado. Ao lado de imagens de Jesus, a arte sacra cristã fixou imagens assustadoras do terror do inferno, como nos quadros célebres do pintor flamengo Hieronymus Bosch.

 

FILOSOFIA
A prática do bem e a vida ética têm sido temas da filosofia desde os clássicos gregos. No século XIX, o alemão Friedrich Nietzsche criticou duramente a moral cristã – que seria uma crença dos fracos e dos escravos – em obras como Além do Bem e do Mal. Mas Nietzsche não defendia o mal. Seu projeto era mais ambicioso: queria superar todas as nossas noções de moral.

 

POLÍTICA
Bem e mal na política em geral são uma questão de perspectiva. Durante suas conquistas militares, Napoleão era visto como um ditador por alguns e como um libertador por outros. Mas há uma galeria de tiranos que, por seus crimes contra a humanidade, são identificados inequivocamente com o mal – do imperador romano Nero a Hitler e Stalin. Osama bin Laden é um dos mais novos integrantes dessa galeria da infâmia.

 

LucasFilm


CULTURA

Os personagens maldosos sempre fascinaram. A tragédia grega é uma sucessão de monstros, como Medéia, que mata os próprios filhos. Shakespeare consagrou vilões como Macbeth e Ricardo III. Em Paraíso Perdido, de John Milton, o personagem mais forte não é Deus, mas o demônio. E a cultura pop consagrou alguns ícones do mal, como o tenebroso Darth Vader, da série Guerra nas Estrelas.

 

Megeras indomadas

Nazaré tem algumas antecedentes célebres
– e outras nem tanto – no exercício da maldade

FICÇÃO

Paramount Pictures


LADY MACBETH

Em Macbeth, peça de William Shakespeare, Lady Macbeth (aqui interpretada por Francesca Annis no filme de Roman Polanski) insufla os assassinatos políticos cometidos pelo marido e depois enlouquece. Serviu de inspiração para Viviane, o personagem de Leticia Spiller.

 

ODETE ROITMAN
A rica Odete Roitman (Beatriz Segall) de Vale Tudo sagrou-se como a vilã mais perversa das novelas – posto agora ameaçado pela Nazaré de Renata Sorrah. Detalhe curioso: Renata Sorrah fez Heleninha, filha e vítima habitual das maldades de Odete.

 

REALIDADE

AP


AILEEN CAROL WUORNOS

A americana é a mais famosa serial killer do sexo feminino de seu país. Prostituta como Nazaré, matou seis homens em pouco mais de um ano – e ainda é suspeita de um sétimo assassinato. Executada em 2002, foi retratada no filme Monster.

 

Weimer Carvalho/AE


VILMA MARTINS COSTA

A inspiradora da personagem Nazaré construiu sua família desmanchando outras. Roubou dois bebês de maternidades – Pedrinho e Aparecida, que ela rebatizou como Osvaldo e Roberta – para criá-los como seus. Hoje cumpre pena por seqüestro.

 
 
 
 
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