Edição 1891 . 9 de fevereiro de 2005

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Estilo
A preço de ouro

Dependendo dos detalhes e da etiqueta,
um jeans pode custar tanto quanto uma jóia


Laura Ming

 
Fotos Chris Parente  

VERSACE
1 380 reais

SEVEN
890 reais

ELLUS
460 reais

Usada de dia e de noite, na feira e em festas, a calça jeans virou a peça mais essencial do guarda-roupa de boa parte das mulheres do planeta, sejam elas crianças, adolescentes, jovens e não tão jovens. Sobram motivos: jeans são bonitos, práticos, fáceis de combinar, têm alta aceitação entre diferentes estratos sociais e um miraculoso efeito modelador. Costumavam também ser baratos, o que fazia da experiência "vou sair para comprar um jeans" uma incursão relativamente indolor. Durante várias eras geológicas da moda, o topo da escala evolutiva foi ocupado pelos jeans Levi's. Olhando-se retrospectivamente, parece incrível que grandes grifes tenham demorado tanto para agregar valor ao jeans. Ou seja, pegar o mesmo 1,5 metro de denim, o nome do tecido, e transformar a calça que custa 30 ou 40 reais nas lojas populares em produto exclusivo, desejado, invejado. E, naturalmente, muito mais caro. "Trato o jeans como se fosse uma jóia", diz o paulista Valdemar Iódice, e a comparação não é mera figura de linguagem: a calça com quase 4.000 tachinhas pregadas a mão (seis exemplares à venda, "seis dias de trabalho cada uma") que pesa 2 quilos e reina em sua coleção de inverno custa 3.200 reais – o equivalente, para ficar no mesmo universo comparativo, a dois anéis de ônix com pequenos diamantes, da joalheria Vivara. Por preço parecido – 3.510 reais –, a compradora muito obcecada ou muito abonada (ou ambos) leva uma calça italiana Roberto Cavalli com friso lateral de plástico colorido imitando pedrarias. Na mesma categoria de prestígio de marca, mas mais, digamos, em conta por ser só mesmo uma peça simples de tecido amassado, um jeans Dolce & Gabbana custa módicos 2.090 reais.

 

IÓDICE
3 200 reais

LITA MORTARI
980 reais

"É natural que essas calças sejam caras. São itens de colecionador. A produção é limitada, os detalhes são colocados manualmente, o trabalho de lavanderia é artesanal, os recortes e a coloração envolvem tecnologia sofisticada", justifica Luiz Pegorin, gerente de marketing da Santista, que fabrica tecidos de jeans de 8 a 30 reais o metro. E compara, algo exageradamente: "É como querer avaliar a Mona Lisa pelo custo da tela e da tinta". Resultado da genialidade criativa aplicada ao jeans: quem comprar a calça (importada da Itália) mais cara da Diesel, que não tem nenhum frufru mas é a marca que todos os jovens ou têm ou gostariam de ter, vai desembolsar 1 400 reais – igual a sete aneizinhos de ouro de Antonio Bernardo. Nada que espante um comprador decidido: em apenas três lojas no Brasil, a grife vende 2.000 calças jeans (a preços variados, é verdade; há modelos a partir de meros 860 reais) por mês. Igualmente cobiçadas por jovens, as americanas True Religion (1 418 reais) e Seven (890 reais) nem sequer ostentam brilhos ou enfeites – o máximo de exclusivismo, no caso, são alguns desbotados e um ou outro rasgado. No caso da Ellus, outra marca no gosto da faixa jovem, cristal não é documento: seu jeans mais caro (460 reais) é o mais surrado, rasgado e manchado de todos. Por que pagar tanto pela calça velha e desbotada inventada há mais de 100 anos para vestir mineiros na Califórnia? Do alto de sua sabedoria estilística, a modelo-socialite Carolina Magalhães, dona de um armário exclusivo para seus oitenta exemplares, quase todos importados ("mas só uso mesmo três ou quatro"), decreta: "Compro porque adoro. É só colocar um sapato e uma bolsa bacana e estou sempre bem vestida".

 

DIESEL
1 400 reais

 

OCIMAR VERSOLATO
680 reais

 

LES FILÓS
830 reais

 

 

De tirar o boné

Heudes Regis


Como se transforma uma peça banal em objeto de luxo? Ninguém tem a resposta definitiva – mas nenhum produto na memória recente do reposicionamento no mercado conseguiu prodígio igual ao dos bonés da grife americana Von Dutch. As cabeças coroadas que costumam cobrir são um verdadeiro compêndio de celebridades, de Madonna a Britney Spears, de Paris Hilton a Daniella Cicarelli. "É um sucesso inexplicável uma coisa tão simples, tão banal, ser objeto de desejo da moçada", diz Mario Protti, dono da Doc Dog, sobre a peça de em média 65 dólares que, em lojas badaladas como a sua, chega a 400 reais. Na Daslu, onde jovens endinheirados compram até três de uma vez, a marca ganhou um espaço próprio. "O que esses bonés têm de mais especial é que são praticamente exclusivos. Existem no máximo uns 2 000 iguais no mundo todo", justifica Roberto Scafuro, representante da grife no Brasil. Nascida na Califórnia em 1999, a Von Dutch foi batizada com o apelido de um artista americano, Kenneth Howard, que customizava carros e motos na década de 40 e ao morrer, em 1992, deixou uma infinidade de desenhos que hoje estampam bonés, roupas, bolsas e bijuterias. Seu legado rendeu à marca 55 milhões de dólares no ano passado. Nada mau para quem baseia o faturamento em uma peça que, feita em massa como brindes de empresas, custa menos de 3 reais.

 
 
 
 
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