Edição 1891 . 9 de fevereiro de 2005

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Psicologia
Amigos, mas não para sempre

Se seu filho pequeno tem um amigo
imaginário, não se preocupe. Pode
ser bom para o desenvolvimento dele


Giuliana Bergamo

 
Raphael Falavigna
Gabriella, de 3 anos, tem longas conversas com Gabaganga e Guluguingui: "Eles são de mentirinha"


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Os adultos e o universo fantástico das crianças

Aos 3 anos, Gabriella Riboldi é uma menina falante e alegre. Adora brincar com outras crianças no playground do prédio onde mora, em São Paulo. Em outros momentos, porém, Gabriella passa horas e horas imersa em conversas com seus dois amigos invisíveis, Gabaganga e Guluguingui. Tão divertidos quanto seus estranhíssimos nomes, eles sempre estão dispostos a brincar. E fazem tudo o que Gabriella quer. Gabaganga e Guluguingui, por exemplo, só conversam com gente grande se a menina deixar. Por quê? "Porque eles são de mentirinha", responde Gabriella. Ela fala baixinho, em tom de segredo, para em seguida dar um sorriso maroto.

Um dos poucos especialistas a se debruçar sobre o universo mágico das crianças foi o suíço Jean Piaget (1896-1980), pioneiro nas pesquisas sobre a construção do conhecimento infantil. Mas ele não se aprofundou na questão dos amigos imaginários porque o que mais lhe interessava era desvendar os mecanismos do desenvolvimento cognitivo. Relegados a segundo plano pelos estudiosos, os companheiros invisíveis acabaram por ser vistos como perniciosos – sintoma de crianças inseguras, solitárias e até vítimas de neuroses. Nos últimos anos, no entanto, os amigos de faz-de-conta foram reabilitados. "A convivência com amigos imaginários é natural e até saudável", disse a VEJA a psicóloga Marjorie Taylor, professora da Universidade do Oregon e autora do livro Imaginary Companions and the Children who Create Them.

Cerca de 30% das crianças em idade pré-escolar, entre os 2 e os 7 anos, têm ou já tiveram pelo menos um amigo de mentirinha. Em suas pesquisas, Marjorie Taylor colheu mais de 5.000 descrições de figuras imaginárias. Elas fazem parte do universo de meninos e meninas de todas as culturas, etnias, religiões e classes sociais. Em algumas partes do mundo, ainda são enxergadas com as lentes da superstição. Em Angola, na África, não é incomum que crianças flagradas brincando com amigos invisíveis sejam submetidas a cruéis rituais de exorcismo, para livrá-las de "espíritos do mal".

Os amigos imaginários tendem a surgir na fase em que as crianças começam a perceber a existência do outro, a compartilhar objetos, situações e emoções. As brincadeiras com essas figuras são, desse modo, uma espécie de ensaio para a vida social, no qual os pequenos testam suas habilidades, reforçam aspectos de sua personalidade e, de quebra, exercitam o pensamento abstrato. Em determinados momentos, os companheiros invisíveis podem ajudar as crianças a enfrentar situações de stress. Em seu livro, Marjorie Taylor narra a história de um garoto que se recusava a sair de casa, porque o "amigo" estava doente. Na realidade, quem estava acamada era a avó do menino. "Falar sobre o problema pelo qual o amigo imaginário passa é uma forma de a criança revelar aos adultos seus medos e aflições", diz o neurologista infantil Mauro Muszkat, da Universidade Federal de São Paulo.

É aceitável que uma criança tenha amigos imaginários até os 7 anos, embora o mais corriqueiro seja que essa fantasia deixe de existir entre os 4 e os 5. No processo de amadurecimento, muitos esquecem que criaram um. O desenhista americano Craig McCracken, de 33 anos, aproveitou o assunto para bolar o desenho animado A Mansão Foster para Amigos Imaginários, recém-lançado pelo canal pago Cartoon Network. No desenho de McCracken, o casarão é uma espécie de asilo para onde vão os amigos imaginários das crianças que cresceram.

Há casos, no entanto, em que tais figuras são inventadas como um mecanismo de fuga, para manter a criança afastada de situações reais (veja quadro). É preocupante quando ela sempre prefere a companhia dos personagens invisíveis à dos meninos ou meninas de verdade. Como não é uma experiência prazerosa, essa fantasia costuma ser acompanhada por distúrbios do sono, oscilações de humor, enurese, entre outros desconfortos físicos e psicológicos. Não adianta o pai ou a mãe tentar provar que o amiguinho não existe. Quem o inventou sabe que ele é imaginário. O melhor a fazer é procurar a ajuda de um psicólogo. Esse profissional saberá aproveitar o amigo fictício para chegar ao cerne da angústia da criança.

 
 
 
 
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