|
|
Psicologia Amigos,
mas não para sempre Se seu filho
pequeno tem um amigo imaginário, não se preocupe. Pode ser
bom para o desenvolvimento dele  Giuliana
Bergamo
Raphael
Falavigna  | | Gabriella,
de 3 anos, tem longas conversas com Gabaganga e Guluguingui: "Eles são
de mentirinha" |
Aos
3 anos, Gabriella Riboldi é uma menina falante e alegre. Adora brincar
com outras crianças no playground do prédio onde mora, em São
Paulo. Em outros momentos, porém, Gabriella passa horas e horas imersa
em conversas com seus dois amigos invisíveis, Gabaganga e Guluguingui.
Tão divertidos quanto seus estranhíssimos nomes, eles sempre estão
dispostos a brincar. E fazem tudo o que Gabriella quer. Gabaganga e Guluguingui,
por exemplo, só conversam com gente grande se a menina deixar. Por quê?
"Porque eles são de mentirinha", responde Gabriella. Ela fala baixinho,
em tom de segredo, para em seguida dar um sorriso maroto.
Um dos poucos especialistas a se debruçar sobre o universo mágico
das crianças foi o suíço Jean Piaget (1896-1980), pioneiro
nas pesquisas sobre a construção do conhecimento infantil. Mas ele
não se aprofundou na questão dos amigos imaginários porque
o que mais lhe interessava era desvendar os mecanismos do desenvolvimento cognitivo.
Relegados a segundo plano pelos estudiosos, os companheiros invisíveis
acabaram por ser vistos como perniciosos sintoma de crianças inseguras,
solitárias e até vítimas de neuroses. Nos últimos
anos, no entanto, os amigos de faz-de-conta foram reabilitados. "A convivência
com amigos imaginários é natural e até saudável",
disse a VEJA a psicóloga Marjorie Taylor, professora da Universidade do
Oregon e autora do livro Imaginary Companions and the Children who Create Them.
Cerca de 30% das crianças
em idade pré-escolar, entre os 2 e os 7 anos, têm ou já tiveram
pelo menos um amigo de mentirinha. Em suas pesquisas, Marjorie Taylor colheu mais
de 5.000 descrições de figuras imaginárias. Elas fazem parte
do universo de meninos e meninas de todas as culturas, etnias, religiões
e classes sociais. Em algumas partes do mundo, ainda são enxergadas com
as lentes da superstição. Em Angola, na África, não
é incomum que crianças flagradas brincando com amigos invisíveis
sejam submetidas a cruéis rituais de exorcismo, para livrá-las de
"espíritos do mal". Os amigos
imaginários tendem a surgir na fase em que as crianças começam
a perceber a existência do outro, a compartilhar objetos, situações
e emoções. As brincadeiras com essas figuras são, desse modo,
uma espécie de ensaio para a vida social, no qual os pequenos testam suas
habilidades, reforçam aspectos de sua personalidade e, de quebra, exercitam
o pensamento abstrato. Em determinados momentos, os companheiros invisíveis
podem ajudar as crianças a enfrentar situações de stress.
Em seu livro, Marjorie Taylor narra a história de um garoto que se recusava
a sair de casa, porque o "amigo" estava doente. Na realidade, quem estava acamada
era a avó do menino. "Falar sobre o problema pelo qual o amigo imaginário
passa é uma forma de a criança revelar aos adultos seus medos e
aflições", diz o neurologista infantil Mauro Muszkat, da Universidade
Federal de São Paulo. É
aceitável que uma criança tenha amigos imaginários até
os 7 anos, embora o mais corriqueiro seja que essa fantasia deixe de existir entre
os 4 e os 5. No processo de amadurecimento, muitos esquecem que criaram um. O
desenhista americano Craig McCracken, de 33 anos, aproveitou o assunto para bolar
o desenho animado A Mansão Foster para Amigos Imaginários, recém-lançado
pelo canal pago Cartoon Network. No desenho de McCracken, o casarão é
uma espécie de asilo para onde vão os amigos imaginários
das crianças que cresceram.
Há casos, no entanto, em que tais figuras são inventadas como um
mecanismo de fuga, para manter a criança afastada de situações
reais (veja
quadro). É preocupante quando ela sempre prefere a companhia dos
personagens invisíveis à dos meninos ou meninas de verdade. Como
não é uma experiência prazerosa, essa fantasia costuma ser
acompanhada por distúrbios do sono, oscilações de humor,
enurese, entre outros desconfortos físicos e psicológicos. Não
adianta o pai ou a mãe tentar provar que o amiguinho não existe.
Quem o inventou sabe que ele é imaginário. O melhor a fazer é
procurar a ajuda de um psicólogo. Esse profissional saberá aproveitar
o amigo fictício para chegar ao cerne da angústia da criança.
|