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Venezuela
O encanto do coronel
Ao eleger como ícone o presidente
venezuelano Hugo Chávez, a esquerda
brasileira mostra que perdeu o rumo

José Eduardo Barella
Jorge Araújo/Folha Imagem
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| Hugo Chávez, de chapéu, com o líder sem-terra
Stédile: antiamericanismo como bandeira |
Hugo Chávez vive dias de festa. O Fórum
Social Mundial de Porto Alegre converteu-se na entronização
do presidente da Venezuela em farol da esquerda brasileira. Num
ginásio esportivo da capital gaúcha, ele foi ovacionado
por 15.000 pessoas, basicamente o mesmo público que vaiou
o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no mesmo lugar, dias
antes. Intelectuais brasileiros disputaram quase a tapa a oportunidade
de posar ao lado do coronel. A elevação de Chávez
a modelo tem mais a ver com a desorientação da esquerda
brasileira do que com as idéias do venezuelano. Em tese,
há fartura de escolhas melhores. Predominam na América
do Sul os presidentes de centro-esquerda. O socialista Ricardo Lagos,
que comanda a ascensão do Chile a um padrão de vida
de Primeiro Mundo, por exemplo. Ou Luiz Inácio Lula da Silva,
o operário que chegou lá. O argentino Néstor
Kirchner é opção para quem gosta de personalidades
erráticas. São governantes de esquerda que, de modo
geral, adotam políticas realistas e sensatas.
Como se explica a escolha do extravagante
venezuelano? "Ao apoiar Chávez, a esquerda latino-americana
mostra que perdeu totalmente o rumo", diz o historiador Boris Fausto.
"Os ícones do passado eram, no mínimo, consistentes
em seu ideal revolucionário, enquanto Chávez, hoje,
oferece apenas um antiamericanismo tosco e primitivo." Depois de
se decepcionar com Lula, que se recusou a adotar a política
econômica proposta pela claque alternativa, parte da esquerda
brasileira encontrou o venezuelano. A escolha é perigosa,
pois o coronel representa o repúdio à democracia representativa,
que tanto custou aos brasileiros. Em seu país, ele se aproveitou
da popularidade para usurpar os poderes do Estado e se converter
em ditador. Do ponto de vista social, seu governo é um desastre.
Como diz a piada argentina, Chávez gosta tanto de pobres
que seu governo cuidou de multiplicá-los na Venezuela.
O que a esquerda brasileira vê em Chávez
é um líder revolucionário surgido das massas.
Em outros tempos, quando os ensinamentos de Karl Marx eram levados
a sério, teria olhado com desconfiança sua promessa
de resolver o problema da pobreza com medidas populistas. "A revolução
bolivariana na Venezuela é o fato político mais importante
da América Latina desde a Revolução Cubana
de 1959", diz o escritor Fernando Morais, que também é
admirador de Fidel Castro e do ex-governador paulista Orestes Quércia.
No ano passado, Morais levou a Caracas uma carta de solidariedade
assinada por 69 personalidades brasileiras, entre elas o arquiteto
Oscar Niemeyer, o compositor Chico Buarque e o governador Roberto
Requião, do Paraná. Fidel tem no currículo
uma revolução fracassada, mas que inspirou uma geração.
Já o presidente venezuelano é da categoria caudilho
iluminado, tipo comum na América hispânica, que se
empenha em reconstruir o continente de acordo com suas fantasias
revolucionárias. Na prática, Caracas tenta substituir
Havana como quartel-general da esquerda violenta.
A arma para isso não é tanto
o discurso vazio do presidente, mas o dinheiro do petróleo.
Graças ao aumento dos preços, Chávez tem recursos
para comprar apoio nas vizinhanças. Como Fidel, ele recebe
com salamaleques os simpatizantes que visitam Caracas. Não
há intelectual esquerdista que não se encante com
palácio e tapete vermelho. A parte perigosa é o refúgio
que Chávez oferece à narcoguerrilha colombiana. Ele
também financiou Evo Morales, o líder dos distúrbios
que derrubaram um presidente na Bolívia. Chávez inspirou
e, de acordo com a imprensa peruana, deu dinheiro aos militares
que tentaram uma sangrenta quartelada no Peru, no mês passado.
O coronel vermelho dá petróleo praticamente de graça
a Cuba e agora promete abastecer a Argentina com preços camaradas.
É curioso que a Venezuela seja o terceiro maior fornecedor
de petróleo dos Estados Unidos. A razão disso é
que, apesar de toda a retórica, Chávez prefere evitar
o confronto real com as palavras são dele "a
mão peluda do imperialismo".
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