Edição 1891 . 9 de fevereiro de 2005

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Internacional
Eleições livres.
E agora vem a parte difícil

População desafia o terror e comparece em
massa às urnas, mas há ainda muito que fazer

 
AFP
Moradores de Najaf oferecem comida aos eleitores na rua: festa pela democracia


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Como se faz a democracia

EXCLUSIVO ON-LINE
Em Profundidade: Pós-guerra no Iraque

Má notícia para quem detesta o presidente George W. Bush: as eleições no Iraque foram um sucesso. A maioria dos iraquianos demonstrou a fascinante determinação de não desperdiçar a oportunidade, rara no mundo árabe, de escolher seus líderes numa eleição livre. Estima-se que 60% do eleitorado tenha comparecido às urnas no domingo 30. O alto porcentual, equivalente ao dos americanos que votaram nas últimas eleições para presidente, impressiona ainda mais porque votar significava literalmente correr risco de vida. Os terroristas haviam ameaçado matar todos que se aproximassem dos locais de votação – e realmente chacinaram meia centena de eleitores. Ainda que as eleições tenham se realizado apenas pela vontade e pelo poder dos Estados Unidos, a magnitude da votação desvaneceu o temor de que faltasse aos iraquianos o desejo de romper com o passado de tirania.

Na quarta-feira passada, em seu discurso anual no Congresso americano, Bush citou a votação como prova de que estava certo em invadir o Iraque. "Nosso compromisso de promover a liberdade, especialmente no Oriente Médio, está sendo testado e honrado no Iraque", disse o presidente dos EUA. A vitória da estratégia da Casa Branca é real. Infelizmente, devido à complexidade das questões envolvidas, a encrenca iraquiana está só um pouquinho menor. Nem era realista esperar algo diferente. A realização das eleições não transforma o Iraque numa democracia da noite para o dia. Existe o risco de que o resultado das urnas acabe por ser o estopim da guerra civil. O país é uma costura malfeita de três grupos principais para os quais a identidade étnica e religiosa é mais importante que a nacionalidade iraquiana. A população majoritária é de muçulmanos xiitas (60% do total). Os curdos, que não são árabes, constituem uma fatia de 15% que usufruem autonomia na região em que são majoritários. Os árabes sunitas, minoria que representa 20% da população, tinham o poder na ditadura de Saddam Hussein e não se conformam com o fato de que o voto dá à maioria xiita a chance de governá-los.

 
Fotos Reuters
Iraquiana de um posto em Amã, na Jordânia, com as cédulas eleitorais: voto do exílio

Muitos sunitas boicotaram as eleições por discordar das regras eleitorais ou deixaram de votar com medo da retaliação dos terroristas – em geral sunitas. Quem vai mandar no novo Estado? Quem vai ficar com o petróleo? Os campos petrolíferos estão em áreas de maioria xiita, no sul, ou curda, no norte. Os sunitas concentram-se em regiões desprovidas da única riqueza nacional. Uma das questões é a distribuição da renda petrolífera por bases populacionais. Significaria, na prática, enorme transferência de recursos daqueles que formavam uma elite até pouco tempo atrás, os sunitas, para os despossuídos do passado, xiitas e curdos. As reservas de petróleo – que ocupam a segunda posição entre as maiores do planeta – são a bênção e a maldição do Iraque. Entre os países cuja principal riqueza é o petróleo, apenas a Noruega é uma democracia. Há várias explicações localizadas para o fenômeno, mas uma sobressai. O dinheiro fácil do óleo torna irrelevante o que pensam os cidadãos, já que o Estado não depende da arrecadação de impostos para sustentar seus gastos. "O resultado é a criação de um governo que se comporta como uma realeza, distante e separado da sociedade", escreveu Fareed Zakaria, colunista da Newsweek, na semana passada.

 
Fila xiita para votar e a emoção da eleitora após dar seu voto: desafio ao terrorismo

A abundância do petróleo impede que a economia do país se diversifique e, por extensão, atrapalha a formação de uma classe média. Isso acaba por criar outro entrave à democratização. Em todos os países democráticos, foi a classe média que mais lutou pelas transformações políticas, pelos direitos civis e pelo cumprimento da lei. No Iraque, essa faixa média da população minguou junto com a renda per capita do país, que caiu pela metade na última década, como conseqüência das sanções internacionais impostas ao regime de Saddam. A situação de insegurança generalizada no Iraque é uma barreira à recuperação da economia. Há em média setenta atentados e ataques terroristas por dia, e a infra-estrutura, como os campos de petróleo e o fornecimento de água e energia, é constantemente sabotada.

Outro entrave à criação de uma democracia ao estilo ocidental é a sociedade baseada na lealdade tribal e na obediência aos clérigos. Como pode imperar a lei se o cidadão respeita sobretudo a autoridade do chefe tribal ou a do aiatolá? Nada disso impede que o Iraque termine por ser governado por um governo eleito pela melhoria e com possibilidade de alternância no poder. Da mesma forma, até agora, a maioria da população demonstra obstinada resistência às provocações que tentam deflagrar a guerra civil. A votação expressiva é também uma derrota da insurreição armada. É natural que Abu Musab Al-Zarqawi, o líder da Al Qaeda que tenta jogar sunitas contra xiitas, não tenha caído nas graças dos iraquianos. Ele nem sequer é iraquiano e considera hereges abomináveis a maioria dos habitantes do país. No discurso no Congresso, na semana passada, Bush explicitou que não pretende retirar as tropas americanas do Iraque às pressas. Fazer isso antes que o governo iraquiano seja capaz de garantir por conta própria a segurança nas ruas iraquianas significaria assinar o fracasso do projeto de democracia no país.

Com a partida dos americanos, o que os xiitas farão com o poder no Iraque? Há várias possibilidades ruins, que não podem ser descartadas. Uma delas é que abandonem as promessas de moderação e adotem um regime teológico ao estilo do existente no vizinho Irã. Nesse caso, os Estados Unidos terão alimentado o maior pesadelo existente entre seus aliados no Oriente Médio, que é a expansão da revolução islâmica de cunho xiita. Outro risco é que os curdos decidam proclamar a independência em seu pedaço de terra. A Turquia, que luta contra o movimento separatista curdo em seu próprio território, provavelmente tentaria esmagar o novo Estado. O conflito resultante seria regional. Como boicotaram as eleições, é fatal que os sunitas estejam sub-representados na Assembléia Constituinte. Como isso se refletirá na Carta? Numa democracia, a maioria governa e a minoria tem seus direitos respeitados. É um conceito que não combina muito bem com o Oriente Médio.

 
 
 
 
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