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Internacional
Eleições livres. E agora vem a parte difícil População
desafia o terror e comparece em massa às urnas, mas há ainda
muito que fazer AFP
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Moradores de Najaf oferecem comida aos eleitores na rua: festa pela democracia
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Má notícia para
quem detesta o presidente George W. Bush: as eleições no Iraque
foram um sucesso. A maioria dos iraquianos demonstrou a fascinante determinação
de não desperdiçar a oportunidade, rara no mundo árabe, de
escolher seus líderes numa eleição livre. Estima-se que 60%
do eleitorado tenha comparecido às urnas no domingo 30. O alto porcentual,
equivalente ao dos americanos que votaram nas últimas eleições
para presidente, impressiona ainda mais porque votar significava literalmente
correr risco de vida. Os terroristas haviam ameaçado matar todos que se
aproximassem dos locais de votação e realmente chacinaram
meia centena de eleitores. Ainda que as eleições tenham se realizado
apenas pela vontade e pelo poder dos Estados Unidos, a magnitude da votação
desvaneceu o temor de que faltasse aos iraquianos o desejo de romper com o passado
de tirania. Na quarta-feira passada, em seu discurso
anual no Congresso americano, Bush citou a votação como prova de
que estava certo em invadir o Iraque. "Nosso compromisso de promover a liberdade,
especialmente no Oriente Médio, está sendo testado e honrado no
Iraque", disse o presidente dos EUA. A vitória da estratégia da
Casa Branca é real. Infelizmente, devido à complexidade das questões
envolvidas, a encrenca iraquiana está só um pouquinho menor. Nem
era realista esperar algo diferente. A realização das eleições
não transforma o Iraque numa democracia da noite para o dia. Existe o risco
de que o resultado das urnas acabe por ser o estopim da guerra civil. O país
é uma costura malfeita de três grupos principais para os quais a
identidade étnica e religiosa é mais importante que a nacionalidade
iraquiana. A população majoritária é de muçulmanos
xiitas (60% do total). Os curdos, que não são árabes, constituem
uma fatia de 15% que usufruem autonomia na região em que são majoritários.
Os árabes sunitas, minoria que representa 20% da população,
tinham o poder na ditadura de Saddam Hussein e não se conformam com o fato
de que o voto dá à maioria xiita a chance de governá-los.
Fotos
Reuters
 | | Iraquiana
de um posto em Amã, na Jordânia, com as cédulas eleitorais: voto do exílio |
Muitos sunitas boicotaram as eleições por discordar das regras eleitorais
ou deixaram de votar com medo da retaliação dos terroristas
em geral sunitas. Quem vai mandar no novo Estado? Quem vai ficar com o petróleo?
Os campos petrolíferos estão em áreas de maioria xiita, no
sul, ou curda, no norte. Os sunitas concentram-se em regiões desprovidas
da única riqueza nacional. Uma das questões é a distribuição
da renda petrolífera por bases populacionais. Significaria, na prática,
enorme transferência de recursos daqueles que formavam uma elite até
pouco tempo atrás, os sunitas, para os despossuídos do passado,
xiitas e curdos. As reservas de petróleo que ocupam a segunda posição
entre as maiores do planeta são a bênção e a
maldição do Iraque. Entre os países cuja principal riqueza
é o petróleo, apenas a Noruega é uma democracia. Há
várias explicações localizadas para o fenômeno, mas
uma sobressai. O dinheiro fácil do óleo torna irrelevante o que
pensam os cidadãos, já que o Estado não depende da arrecadação
de impostos para sustentar seus gastos. "O resultado é a criação
de um governo que se comporta como uma realeza, distante e separado da sociedade",
escreveu Fareed Zakaria, colunista da Newsweek, na semana passada.  |  | | Fila
xiita para votar e a emoção da eleitora após dar seu voto: desafio ao terrorismo
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A abundância do petróleo
impede que a economia do país se diversifique e, por extensão, atrapalha
a formação de uma classe média. Isso acaba por criar outro
entrave à democratização. Em todos os países democráticos,
foi a classe média que mais lutou pelas transformações políticas,
pelos direitos civis e pelo cumprimento da lei. No Iraque, essa faixa média
da população minguou junto com a renda per capita do país,
que caiu pela metade na última década, como conseqüência
das sanções internacionais impostas ao regime de Saddam. A situação
de insegurança generalizada no Iraque é uma barreira à recuperação
da economia. Há em média setenta atentados e ataques terroristas
por dia, e a infra-estrutura, como os campos de petróleo e o fornecimento
de água e energia, é constantemente sabotada.
Outro entrave à criação de uma democracia ao estilo ocidental
é a sociedade baseada na lealdade tribal e na obediência aos clérigos.
Como pode imperar a lei se o cidadão respeita sobretudo a autoridade do
chefe tribal ou a do aiatolá? Nada disso impede que o Iraque termine por
ser governado por um governo eleito pela melhoria e com possibilidade de alternância
no poder. Da mesma forma, até agora, a maioria da população
demonstra obstinada resistência às provocações que
tentam deflagrar a guerra civil. A votação expressiva é também
uma derrota da insurreição armada. É natural que Abu Musab
Al-Zarqawi, o líder da Al Qaeda que tenta jogar sunitas contra xiitas,
não tenha caído nas graças dos iraquianos. Ele nem sequer
é iraquiano e considera hereges abomináveis a maioria dos habitantes
do país. No discurso no Congresso, na semana passada, Bush explicitou que
não pretende retirar as tropas americanas do Iraque às pressas.
Fazer isso antes que o governo iraquiano seja capaz de garantir por conta própria
a segurança nas ruas iraquianas significaria assinar o fracasso do projeto
de democracia no país. Com a partida dos
americanos, o que os xiitas farão com o poder no Iraque? Há várias
possibilidades ruins, que não podem ser descartadas. Uma delas é
que abandonem as promessas de moderação e adotem um regime teológico
ao estilo do existente no vizinho Irã. Nesse caso, os Estados Unidos terão
alimentado o maior pesadelo existente entre seus aliados no Oriente Médio,
que é a expansão da revolução islâmica de cunho
xiita. Outro risco é que os curdos decidam proclamar a independência
em seu pedaço de terra. A Turquia, que luta contra o movimento separatista
curdo em seu próprio território, provavelmente tentaria esmagar
o novo Estado. O conflito resultante seria regional. Como boicotaram as eleições,
é fatal que os sunitas estejam sub-representados na Assembléia Constituinte.
Como isso se refletirá na Carta? Numa democracia, a maioria governa e a
minoria tem seus direitos respeitados. É um conceito que não combina
muito bem com o Oriente Médio. |