Edição 1891 . 9 de fevereiro de 2005

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Fraude
Passos em falso

Filho de Prestes é investigado por improbidade administrativa no Balé Bolshoi de Joinville


Marcelo Carneiro

Em 2000, o empresário Antônio João Ribeiro Prestes e sua mulher, a bailarina Joseney Braska Negrão, deram início a um ousado projeto. Inauguraram em Joinville, Santa Catarina, a primeira filial, fora da Rússia, da escola do consagrado Balé Bolshoi. Filho do líder comunista Luiz Carlos Prestes e com ótimos contatos com a burocracia de Moscou, onde viveu por trinta anos, o empresário convenceu os administradores do Bolshoi a licenciar o uso da marca. Em cinco anos, a Escola do Teatro Bolshoi de Joinville tornou-se uma referência no ensino do balé no Brasil e, ajudada pela força da grife, conquistou boa rede de patrocínios. A receita anual da escola, que atende cerca de 300 alunos, a maior parte crianças carentes de Joinville que ganham bolsas de estudo, chega a 5 milhões de reais. Agora, essa história de sucesso corre o risco de ser manchada por uma série de denúncias de irregularidades na gestão financeira do projeto, sustentado basicamente por recursos públicos. O maior patrocinador, os Correios, destina ao Bolshoi uma verba anual de 3,5 milhões de reais. Em novembro do ano passado, o Ministério Público Federal em Joinville entrou na Justiça com uma medida cautelar por improbidade administrativa contra o Bolshoi. No momento, o casal está com seus bens indisponíveis e teve os sigilos bancário e fiscal quebrados.

VEJA teve acesso a um relatório da Controladoria-Geral da União (CGU), preparado a pedido do Ministério Público. Os fiscais da CGU analisaram a prestação de contas de três projetos do Bolshoi que captaram recursos com base em leis de incentivo fiscal. Nesse montante, não está incluído o patrocínio dos Correios, que será objeto de outra investigação. Os fiscais concluíram que, embora os objetivos dos projetos tenham sido atingidos, há uma série de falhas, como dispensas irregulares de licitação e compras indevidas de passagens aéreas. Os problemas não param aí. O procurador da República em Santa Catarina, Davy Lincoln Rocha, acusa João Prestes de ter recebido indevidamente do Bolshoi comissão de cerca de 1 milhão de reais por ter intermediado o patrocínio dos Correios. Joseney, mulher de Prestes, é supervisora do balé. "Ele não deveria ter recebido nada, pois não teve nenhuma participação no projeto", diz o procurador. O ex-presidente dos Correios Hassan Gebrin, que assinou o contrato, confirma que Prestes não intermediou a captação de recursos para o Bolshoi. O empresário Prestes tem outra versão: "Antes da assinatura do contrato, preparei os projetos de patrocínio, busquei recursos de outras empresas e estive com um diretor dos Correios. É claro que deveria cobrar por esse trabalho". Ele justifica assim o recebimento de 1 milhão de reais. Espera-se que, no decorrer das investigações, a Justiça esclareça o que realmente está se passando no Bolshoi. Ali é empregado muito dinheiro público. Só para efeito de comparação, a Petrobras destina ao Grupo Corpo, a principal companhia de dança do país, 4,5 milhões de reais por ano.

 
 
 
 
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