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Brasil Eles
agora são "republicanos" Os petistas
batem no peito dizendo ser "republicanos". Mas isso não quer dizer
absolutamente nada  Mario
Sabino | Montagem
com fotos de Ana Araújo/Ricardo Stuckert/Rafael Neddermeyer/AE/Sergio Lima/Folha
Imagem | | "Herdamos
uma máquina administrativa ineficiente, desprovida, em boa parte, do sentido
republicano." Presidente
Lula, em 10 de dezembro de 2004 |
Em
dezembro último, uma palavra imiscuiu-se nos discursos dos próceres
petistas, em sua forma adjetivada "republicano". Salvo engano, o primeiro
a empregá-la foi o professor Luizinho, líder do governo na Câmara.
Ele disse que uma operação da Polícia Federal colocou em
risco o processo republicano. O presidente Lula não perdeu a deixa
e, numa reunião ministerial realizada dias depois, afirmou: "Herdamos uma
máquina administrativa ineficiente, desprovida, em boa parte, do sentido
republicano, sem vocação para realizar políticas em proveito
da maioria". No mesmo mês de dezembro, Lula lançou o "Pacto de Estado
em favor de um Judiciário Mais Rápido e Republicano". A porta
estava aberta para que os petistas usassem o termo com a prodigalidade com que
os coronéis nordestinos andam distribuindo cartões do Bolsa-Família.
Um dos que mais reincidem é o ministro da Educação, Tarso
Genro, aquele que há poucos dias posou ao lado do ditador cubano (e republicano)
Fidel Castro. Genro disse que a política de cotas nas universidades era
"republicana, inclusiva, democrática". | "A
ação da PF foi conduzida politicamente por uma facção
da corporação, à revelia do comando, colocando em risco as
instituições, o processo republicano e o crescimento
do país." Deputado
Professor Luizinho, em 2 de dezembro de 2004,
referindo-se à Operação Sentinela, que lançou suspeitas
sobre empresa de propriedade do ministro das Comunicações, Eunício
Oliveira |
Como
o sistema de governo brasileiro deixou de ser monárquico em 1889, quando
foi proclamada a República, e não parece haver no horizonte uma
ameaça de reinstauração do antigo regime capitaneado pela
família Orleans e Bragança, é intrigante a adoção
do adjetivo pelos petistas e a insistência na sua utilização.
Uma escarafunchada nos jornais mostra que o motivo não é insondável.
O pessoal do PT brande a palavra em resposta ao ex-presidente Fernando Henrique
Cardoso. Em artigo publicado num jornal paulista, em outubro do ano passado, sobre
a renhida campanha eleitoral para a prefeitura de São Paulo, FHC comentou
que havia "sinais inquietantes de perda do sentimento genuinamente republicano
de conduzir o processo político". Resumindo: porque o tucano disse que
os petistas não são republicanos, os petistas começaram a
repetir tal qual o corvo do escritor americano Edgar Allan Poe: "Somos, sim; somos,
sim". As palavras têm história,
e a de "republicano" é longa, complicada e com final infeliz. Remonta à
Roma Antiga, quando o regime da res publica sem um único
soberano e de atenção à coisa pública, ao bem comum,
à comunidade substituiu o dos reis, a mona archia o
governo de um só homem. De palavra que designava oposição
à monarquia, a palavra "república" passou, nos séculos seguintes,
a conceituar qualquer sistema, inclusive o monárquico, que se contrapunha
a governos injustos. Mais adiante, no Renascimento, por meio de Maquiavel, "república"
tornou-se a denominação de um sistema aplicável apenas a
pequenos territórios, o que perdurou até o século XVIII e
deu sustentação à criação das repúblicas
que compunham a colcha de retalhos do que mais tarde seria a Itália. Com
a Revolução Americana e a Francesa (que foi mais "republicana" na
época do Terror), essa noção é subvertida. A palavra
"república" perde a conexão com a territorialidade e, no
caso da Americana, liga-se à democracia representativa. | "É
republicana, inclusiva, democrática."
Ministro Tarso Genro,
sobre a política de cotas para universidades públicas, em 26 de
janeiro "É
um programa que orgulha seu governo e que orgulha todo cidadão sério,
de boa-fé, democrata e republicano." Sobre
o ProUni, no mesmo dia |
O
advento do comunismo propiciou o aparecimento das "repúblicas populares",
em que a democracia representativa dá lugar à ditadura do proletariado.
Havia a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas,
como há ainda a República Popular da China e a República
de Cuba. Para não falar dos sistemas de estrutura tribal africanos, originados
da descolonização, que também se autodenominam "repúblicas",
como a República do Congo e a República de Uganda.
Ou seja, todos eram ou são "republicanos" de Thomas Jefferson e
James Madison a Lenin, Fidel Castro e Idi Amin Dada. No Brasil, o ditador Getúlio
Vargas era "republicano", bem como o presidente bossa-nova Juscelino Kubitschek
e o general linha-dura Emílio Garrastazu Médici. Genuinamente, se
perguntados. Pode haver um final mais infeliz para uma palavra do que perder o
significado exato? | "Caso
a gente veja um aumento desse risco (de apagão), a gente terá
aqui no ministério a obrigação, o compromisso público
e republicano de avisar a sociedade." Ministra
Dilma Rousseff, em 25 de janeiro |
Assim,
quando batem no peito e se dizem "republicanos", não se sabe ao certo o
que os petistas querem dizer. Se desejam afirmar-se "partidários da democracia
representativa", é uma bobagem sem tamanho, visto que há monarquias
bem mais democráticas do que muitas repúblicas, como a Inglaterra
e a Suécia. Talvez não queiram dizer nada e tudo não passe
de uma pinimba com FHC, o que é justificável. Mas não é
impossível que, por trás do termo que serve de abrigo a um saco
de gatos, alguns poucos petistas escondam ainda a vontade de instituir uma res
publica de caráter "popular", como a da China, a de Cuba, a da ex-União
das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Para evitar mal-entendidos,
recomenda-se aos políticos brasileiros (não só os petistas)
que abandonem conceitos e palavras vagos. Ser "republicano" pura e simplesmente
não tem sentido. E de sentido é que a política brasileira
mais precisa. |