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Brasil Havana
é uma festa Ele adora dançar,
tocar seu saxofone e fazer serenata eis a vida festiva do embaixador
brasileiro em Cuba  Malu
Gaspar
Divulgação
 | | O
embaixador: ele decora os discursos de Fidel e é fã de Maria do
Carmo, a da novela |
Ernest
Hemingway escreveu Paris É uma Festa quando morava em Havana, nos
anos 50. O embaixador brasileiro em Cuba, Tilden Santiago, está escrevendo
três livros. Nenhum deles se chamará Havana É uma Festa,
mas bem que poderia. O embaixador, um ex-padre, ex-preso político, ex-jornalista
e ex-deputado, está "feliz como pinto no lixo", segundo a definição
marota do sambista e mangueirense Jamelão para descrever alguém
à vontade e adaptado a determinado ambiente. No posto há um ano
e meio, Tilden Santiago virou celebridade em Havana, sobretudo por sua inabalável
disposição para badalar em noites de salsa e merengue e em shows
em que toca seu saxofone. "O povo cubano adora os brasileiros. Eu me sinto totalmente
integrado", diz. O embaixador já tocou saxofone em festival de boleros,
num jantar para os presidentes Lula e Fidel Castro e na festa de seu próprio
casamento. Cantou num restaurante com o ministro José Dirceu e adora ciceronear
atrizes, socialites e empresários brasileiros em visita à cidade,
além de jamais declinar convite para chacoalhar ao som do chan chan nos
lugares turísticos. Por fim, quando pode, faz serenata para sua mulher
embaixo da sacada de sua casa. Es el amor.
"Somos
convidados para eventos quase todo dia. O Tilden faz questão de ir a todos
os que consegue", conta a embaixatriz, Edivânia da Silva, ex-balconista
de uma floricultura de Belo Horizonte com quem o diplomata se casou, em dezembro
passado, em Havana. A cerimônia à cubana respeitou a tradição.
Os noivos ele, 64 anos, três filhos, e ela, 41 anos, uma filha
chegaram à igreja a bordo de uma carruagem branca puxada por cavalos igualmente
brancos. "Eu sou muito romântico", diz ele. "Aqui, todo mundo é enamorado",
diz ela. O ritual foi presidido por um pastor evangélico, mas testemunhado
por um rabino, um padre fiel à Teologia da Libertação e vários
membros da santería a versão cubana do candomblé.
Entre os padrinhos, havia nomes ilustres de Cuba, como o vice-presidente Carlos
Lage e o chanceler Felipe Pérez Roque, que veio ao Brasil em viagem oficial
na semana passada. No trajeto da igreja para a residência, onde a festa
foi regada a mojitos e daiquiris, os típicos drinques cubanos, os noivos
desfilaram num Mercury conversível, ano 1949. "Foi inesquecível.
As pessoas saíam das casas para acenar", conta ele. Na festa, uma cantora
negra entoou o hino do amor em iorubá.
O casamento e a festa deixaram lembranças indeléveis no círculo
diplomático de Havana. "A gente não costuma ver um embaixador fazendo
essas coisas, mas num país meio surrealista como Cuba isso cai bem. Ele
é querido por aqui, pelos cubanos e pelos diplomatas", diz a brasileira
Fátima Rios, mulher do adido comercial francês em Havana. Pode cair
bem por lá, mas no Itamaraty a farra do embaixador tem sido vista sob uma
ótica menos generosa. "Os diplomatas em geral trabalham muito. Daqui, temos
a impressão de que o embaixador poderia se esforçar mais", sussurra
um alto membro do Itamaraty. "A função dele é representar
o Brasil em Cuba, e não o contrário. Não é ficar fazendo
e dizendo tudo o que os cubanos querem", censura Luiz Felipe Lampreia, chanceler
no governo tucano. Mesmo no Palácio do Planalto, os companheiros petistas
não escondem o temor de que o estilo festivo do embaixador acabe prejudicando
a imagem do Brasil.
 |  |  | | Fotos
do casamento do embaixador: sua mulher cumprimenta o vice-presidente de Cuba,
Carlos Lage (no alto), o casal chegando à igreja de carruagem branca
e o noivo tocando saxofone na festa |
Como
é praxe no governo petista, Tilden Santiago ganhou o posto em Havana como
prêmio por sua derrota ao Senado por Minas Gerais nas eleições
de 2002, quando teve 3,3 milhões de votos. "Fui escolhido graças
ao companheirismo do presidente Lula, à minha votação e à
minha empatia com Fidel", explica ele. Empatia é pouco. O embaixador escuta
com indisfarçável prazer os intermináveis discursos de Fidel
Castro, a quem chama de "comandante", e memoriza falas inteiras, que reproduz
em conversas com amigos. "Fidel lê as pessoas", diz o embaixador. Sua filha
Alessandra, 26 anos, formada em medicina em Cuba, foi apresentada ao ditador em
setembro de 2003. "Chorei demais, foi muita emoção estar ali", conta
a moça. O embaixador achou por bem registrar o choro da filha diante do
ídolo na correspondência diplomática, dando ao fato caráter
oficial, o que causou estranheza no Itamaraty. Santiago está escrevendo
três livros. Um é a biografia de um padre que lutou em Sierra Maestra,
na Revolução Cubana. Outro narra sua visita a Jerusalém.
O terceiro reúne as cartas que trocou com os amigos no seu período
em Havana, cujo título provisório é Cartas de Havana.
Além de ouvir Fidel, o programa preferido do embaixador é ver as
novelas brasileiras. Acompanha Senhora do Destino. "Sou fã da Maria
do Carmo", diz, referindo-se à personagem da atriz Suzana Vieira. Havana
é mesmo uma festa. |