Edição 1891 . 9 de fevereiro de 2005

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Brasil
Havana é uma festa

Ele adora dançar, tocar seu saxofone
e fazer serenata – eis a vida festiva
do embaixador brasileiro em Cuba


Malu Gaspar

Divulgação
O embaixador: ele decora os discursos de Fidel e é fã de Maria do Carmo, a da novela


Ernest Hemingway escreveu Paris É uma Festa quando morava em Havana, nos anos 50. O embaixador brasileiro em Cuba, Tilden Santiago, está escrevendo três livros. Nenhum deles se chamará Havana É uma Festa, mas bem que poderia. O embaixador, um ex-padre, ex-preso político, ex-jornalista e ex-deputado, está "feliz como pinto no lixo", segundo a definição marota do sambista e mangueirense Jamelão para descrever alguém à vontade e adaptado a determinado ambiente. No posto há um ano e meio, Tilden Santiago virou celebridade em Havana, sobretudo por sua inabalável disposição para badalar em noites de salsa e merengue e em shows em que toca seu saxofone. "O povo cubano adora os brasileiros. Eu me sinto totalmente integrado", diz. O embaixador já tocou saxofone em festival de boleros, num jantar para os presidentes Lula e Fidel Castro e na festa de seu próprio casamento. Cantou num restaurante com o ministro José Dirceu e adora ciceronear atrizes, socialites e empresários brasileiros em visita à cidade, além de jamais declinar convite para chacoalhar ao som do chan chan nos lugares turísticos. Por fim, quando pode, faz serenata para sua mulher embaixo da sacada de sua casa. Es el amor.

"Somos convidados para eventos quase todo dia. O Tilden faz questão de ir a todos os que consegue", conta a embaixatriz, Edivânia da Silva, ex-balconista de uma floricultura de Belo Horizonte com quem o diplomata se casou, em dezembro passado, em Havana. A cerimônia à cubana respeitou a tradição. Os noivos – ele, 64 anos, três filhos, e ela, 41 anos, uma filha – chegaram à igreja a bordo de uma carruagem branca puxada por cavalos igualmente brancos. "Eu sou muito romântico", diz ele. "Aqui, todo mundo é enamorado", diz ela. O ritual foi presidido por um pastor evangélico, mas testemunhado por um rabino, um padre fiel à Teologia da Libertação e vários membros da santería – a versão cubana do candomblé. Entre os padrinhos, havia nomes ilustres de Cuba, como o vice-presidente Carlos Lage e o chanceler Felipe Pérez Roque, que veio ao Brasil em viagem oficial na semana passada. No trajeto da igreja para a residência, onde a festa foi regada a mojitos e daiquiris, os típicos drinques cubanos, os noivos desfilaram num Mercury conversível, ano 1949. "Foi inesquecível. As pessoas saíam das casas para acenar", conta ele. Na festa, uma cantora negra entoou o hino do amor em iorubá.

O casamento e a festa deixaram lembranças indeléveis no círculo diplomático de Havana. "A gente não costuma ver um embaixador fazendo essas coisas, mas num país meio surrealista como Cuba isso cai bem. Ele é querido por aqui, pelos cubanos e pelos diplomatas", diz a brasileira Fátima Rios, mulher do adido comercial francês em Havana. Pode cair bem por lá, mas no Itamaraty a farra do embaixador tem sido vista sob uma ótica menos generosa. "Os diplomatas em geral trabalham muito. Daqui, temos a impressão de que o embaixador poderia se esforçar mais", sussurra um alto membro do Itamaraty. "A função dele é representar o Brasil em Cuba, e não o contrário. Não é ficar fazendo e dizendo tudo o que os cubanos querem", censura Luiz Felipe Lampreia, chanceler no governo tucano. Mesmo no Palácio do Planalto, os companheiros petistas não escondem o temor de que o estilo festivo do embaixador acabe prejudicando a imagem do Brasil.

Fotos do casamento do embaixador: sua mulher cumprimenta o vice-presidente de Cuba, Carlos Lage (no alto), o casal chegando à igreja de carruagem branca e o noivo tocando saxofone na festa

Como é praxe no governo petista, Tilden Santiago ganhou o posto em Havana como prêmio por sua derrota ao Senado por Minas Gerais nas eleições de 2002, quando teve 3,3 milhões de votos. "Fui escolhido graças ao companheirismo do presidente Lula, à minha votação e à minha empatia com Fidel", explica ele. Empatia é pouco. O embaixador escuta com indisfarçável prazer os intermináveis discursos de Fidel Castro, a quem chama de "comandante", e memoriza falas inteiras, que reproduz em conversas com amigos. "Fidel lê as pessoas", diz o embaixador. Sua filha Alessandra, 26 anos, formada em medicina em Cuba, foi apresentada ao ditador em setembro de 2003. "Chorei demais, foi muita emoção estar ali", conta a moça. O embaixador achou por bem registrar o choro da filha diante do ídolo na correspondência diplomática, dando ao fato caráter oficial, o que causou estranheza no Itamaraty. Santiago está escrevendo três livros. Um é a biografia de um padre que lutou em Sierra Maestra, na Revolução Cubana. Outro narra sua visita a Jerusalém. O terceiro reúne as cartas que trocou com os amigos no seu período em Havana, cujo título provisório é Cartas de Havana. Além de ouvir Fidel, o programa preferido do embaixador é ver as novelas brasileiras. Acompanha Senhora do Destino. "Sou fã da Maria do Carmo", diz, referindo-se à personagem da atriz Suzana Vieira. Havana é mesmo uma festa.

 
 
 
 
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