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Congresso
É pior que eleição de
síndico
Com gastos eleitorais que devem passar
de 1 milhão de reais e promessas voltadas
ao próprio umbigo, a disputa para dirigir a
Câmara é o retrato do corporativismo

Otávio Cabral
Luiz Antonio
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| Na Câmara, os corredores estão cobertos pela
propaganda dos candidatos: há disputa pelos outros cargos da
mesa |
Há cinco deputados federais fazendo
campanha para ser o próximo presidente da Câmara, uma
escolha que acontece de dois em dois anos. Ali trabalham 17.000
pessoas, uma multidão tão vasta que só é
superada pela massa de empregados de catorze empresas instaladas
no Brasil, entre as quais estão os Correios, o Pão
de Açúcar, a Sadia, a Volkswagen e as Casas Bahia.
Com orçamento de 2,3 bilhões de reais, superior ao
de cidades como Belo Horizonte ou Porto Alegre, a Câmara produz
em média 200 leis por ano. Ser o presidente desse imenso
universo de pessoas, de dinheiro e de leis é uma missão
altamente relevante para a vida democrática. Sendo assim,
qual seria o tema prioritário do debate eleitoral? Como agilizar
a aprovação de projetos e impedir que eles mofem nas
gavetas? Como evitar o lamentável excesso de medidas provisórias?
Como corrigir as distorções na representação
dos estados e fazer com que o voto de cada brasileiro tenha o mesmo
peso? Como levar a Câmara a exercer um papel mais decisivo
na resolução dos problemas sociais do país?
Não, nada disso. O debate central é como aumentar
o salário dos deputados.
Hoje, os deputados ganham 12.850 reais. As
propostas variam de 19.000 a 21.000 reais por mês. Na campanha,
ouvem-se reclamações de que o salário de um
deputado já correspondeu a 10.000 dólares e atualmente
não chega nem à metade disso, de que a remuneração
vem sendo achatada desde os anos 70 ou de que o aumento anterior
foi concedido há dois anos. O último reajuste salarial
ocorreu em dezembro de 2002, mas não se pode esquecer de
que foi de astronômicos 51%, porcentual que nem as mais poderosas
categorias de trabalhadores obtiveram em negociações
salariais. "É constitucional, legal e justo", defende Luiz
Eduardo Greenhalgh (PT-SP), candidato do governo. Virgílio
Guimarães (PT-MG), que se rebelou contra a candidatura do
companheiro Greenhalgh, evita o assunto. Admite que é "justo",
e nada mais. O deputado Severino Cavalcanti (PP-PE), que se orgulha
do apelido de "rei do baixo clero", não gostou da idéia
de elevar o salário para 19.000 reais, teto do funcionalismo
público. Propõe 21.000 reais e nem se importa que
seja inconstitucional.
É
injusto dizer que o aumento de salário seja o único
tema de campanha. Circula uma proposta, já encampada por
todos, para aumentar as verbas para a contratação
de funcionários pessoais de cada deputado. Hoje, um parlamentar
recebe 35.000 reais por mês para isso e é nessa
verba que já houve deputado metendo a mão ao contratar
pessoas que, depois de receber, tinham de devolver a ele uma parte
do pagamento... A idéia é elevar esse montante para
45.000 reais. Com esse fermento nas verbas de gabinete, e considerando
o aumento salarial para 19.000 reais, cada deputado poderá
custar aos cofres públicos quase 90.000 reais. Por mês.
Atualmente, o custo é superior a 70.000 reais (veja quadro
ao lado). "A campanha tem um nível impressionantemente
baixo. Ninguém discute propostas, apenas pregam cartazes
e prometem aumentos de salário", diz o deputado José
Carlos Aleluia (PFL-BA), que incorporou um discurso ético
à campanha por saber que sua candidatura é uma ficção
eleitoral sem chance de vitória, razão pela qual não
terá de tirar as promessas do papel.
Mesmo diante da promessa de assalto aos cofres
públicos, serve como consolo o fato de que os deputados fazem
uma campanha eleitoral baratíssima, já que basta conversar
com os eleitores no plenário e os eleitores mal passam
de 500 e, portanto, até dá para falar pessoalmente
com cada um deles. Certo? Errado. Os candidatos estão cruzando
os céus do Brasil para falar com o eleitor em sua própria
base eleitoral a bordo de jatinhos alugados especialmente para a
campanha. Só na semana passada, Greenhalgh esteve no Rio,
em São Paulo e no Rio Grande do Sul. Virgílio Guimarães
foi ao Pará, Amapá, Ceará e a Pernambuco, e
promete viajar no Carnaval. É interessante: nenhum dos dois
deputados, nos últimos dois anos, fez uma única viagem
pelo Brasil para cumprir uma tarefa parlamentar, participar de um
debate, visitar uma universidade, conhecer uma favela ou uma creche.
Agora, em campanha, Greenhalgh promete visitar dezoito estados.
Guimarães admite que circulará por pelo menos quinze.
Jair Bolsonaro (PFL-RJ), outro candidato sem chance, não
promete viajar. Também não promete aumento salarial.
Na verdade, não promete nada. Aliás, ninguém
sabe por que é candidato, já que, até agora,
não abriu a boca para nada.
Joedson Alves/AE
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Ed Ferreira/AE
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Rafael Neddermeyer/AE
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O CANDIDATO DA REBELDIA
Virgílio Guimarães, do PT, revoltou-se
contra o partido e vai gastar uns 400 000 reais na campanha
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SALÁRIO PARA ANIMAR A TURMA
Severino Cavalcanti, do PP, vai direto ao ponto: quer
mesmo é colocar dinheiro no bolso dos deputados |
O PREFERIDO DO PLANALTO
Greenhalgh, também do PT, candidato do governo,
planeja ir a dezoito estados até o fim da campanha |
Celso Junior/AE
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Ana Araujo
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RECLAMANDO DO BAIXO NÍVEL
Aleluia (PFL-BA) não tem chance de ganhar e,
talvez por isso, até tem feito propostas mais sérias
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PLATAFORMA DO SILÊNCIO
Jair Bolsonaro, do PFL do Rio, lançou seu nome,
mas, até agora, não disse palavra sobre nada |
Com tanta movimentação, os deputados
estão fazendo a campanha mais cara de que se tem notícia.
As estimativas passam de 1 milhão de reais o que dá
a fabulosa quantia de 2 000 reais pelo voto de cada deputado, soma
que não se gasta em eleição nenhuma, nem para
presidente da República, nem para prefeito de cidade do interior.
Calcula-se que Greenhalgh despenderá algo em torno de 500
000 reais e Guimarães, uns 400 000. Já os demais candidatos
devem gastar de 50 000 a 150 000 reais. De onde vem o dinheiro?
Em alguns casos, dos próprios deputados. A campanha de Guimarães
informa que recolheu 2 000 reais de 123 deputados adeptos de sua
candidatura, arrecadando, só aí, 246 000 reais. Severino
Cavalcanti diz que usou o mesmo expediente e recolheu 40 000 reais.
O fato de os próprios deputados se empenharem em pagar uma
parte da campanha de seu candidato se explica com a saborosa proposta
de aumento salarial promessa que, uma vez levada a voto em
plenário, tem 200% de chance de ser aprovada. Com aplausos.
Luiz Antonio
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| O quintal da mansão do presidente da Câmara:
terreno tem 9 000 metros quadrados |
O deputado José Carlos Aleluia, sabendo
que não tem chance de chegar lá, é o único
que faz propostas de verdade. Ele quer que a Câmara deixe
de ser um apêndice do Palácio do Planalto e passe a
controlar sua pauta. Aleluia lembra que, no ano passado, a subserviência
ao Executivo pôde ser medida em números: a Câmara
aprovou apenas seis projetos de deputados e uns 200 vindos do Planalto.
Já Greenhalgh diz que vai seguir a linha do atual presidente,
o petista João Paulo Cunha, apoiando o governo, mas dando
um verniz de independência. Também promete mudar o
rito de tramitação das medidas provisórias
e reformar os apartamentos funcionais da Câmara. Virgílio
Guimarães promete, em seus primeiros seis meses de mandato,
colocar em votação um projeto de cada deputado. Isso
mesmo: 513 projetos em seis meses. "Uma boa idéia de cada
deputado será transformada em lei. Será bom para a
auto-estima da Câmara e para o país." Severino Cavalcanti
vai direto ao ponto, sem rodeios, com sua plataforma inteiramente
voltada para o próprio umbigo: aumentar salário, reformar
os imóveis funcionais e contratar mais servidores para os
deputados.
O prestígio político de um presidente
da Câmara é o que atrai os deputados. "Ser presidente
da Câmara é melhor do que ser ministro", diz um ex-ocupante
do cargo. "Você mora numa mansão, fica num ótimo
gabinete, todo mundo atende você no telefone e você
recebe pedidos, e não ordens. E não pode ser demitido
por dois anos, mesmo que cometa as maiores barbaridades." O gabinete
tem mais de 120 metros quadrados. A mansão é um colosso.
Fica num terreno de 9.000 metros quadrados, à beira do Lago
Paranoá, tem piscina, salão de festas, ancoradouro
e 21 serviçais, coordenados pela administradora Dulcilene
Montalvão da Silva, uma nutricionista com mestrado em administração
pública. É mesmo: presidente da Câmara tem nutricionista.
E tem três cozinheiras. E seis faxineiros. E só de
supermercado o gasto da casa é de 4.000 reais por mês.
Mas não é só isso. Há, ainda, uma disputa
pouco visível em torno dos cargos da mesa são
duas vice-presidências, quatro secretarias e quatro suplências.
A 4ª secretaria, por exemplo, é responsável pela
administração dos imóveis funcionais e reservada
ao PL. Os deputados Edmar Moreira, de Minas Gerais, e João
Caldas, de Alagoas, espalharam cartazes para ser eleitos. Paixão
por administrar imóveis? Parece que não. É
que o 4º secretário tem direito a um segundo gabinete,
um carro oficial e pode contratar vinte funcionários. Ah,
eles querem também manter seus três meses de férias
anuais... Claro, ninguém é de ferro.
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