Edição 1891 . 9 de fevereiro de 2005

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Lars Grael

Sebastião Moreira/AE
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Depois que Lars Grael perdeu a perna direita num acidente, em 1998, poucos acreditavam que voltaria a velejar. Pois ele voltou, escolheu a classe Star, ocupada pelos heróis olímpicos Torben Grael (seu irmão) e Robert Scheidt, e disputa nesta semana na Argentina o Campeonato Mundial, parte do processo seletivo para as Olimpíadas de 2008. Em janeiro, venceu Scheidt no Sul-Americano. Secretário paulista da Juventude, Esporte e Lazer, Lars falou de seus planos ao editor André Fontenelle.

O SENHOR QUER DISPUTAR AS OLIMPÍADAS DE 2008?
Hoje parece uma utopia. Temos entre os candidatos a essa vaga a melhor dupla do mundo, Torben Grael e Marcelo Ferreira, e Robert Scheidt, o melhor iatista do planeta, agora em dupla com Bruno Prada. Todos estão no auge da carreira. Seria pretensioso, com as limitações da deficiência física e com meu cargo público, dizer que estou na disputa. Mas, quando a gente veleja por paixão, uma utopia pode virar um sonho, e o sonho, realidade. A conquista do Sul-Americano foi uma demonstração disso.  

O SENHOR COGITA PARAR TUDO PARA SE DEDICAR À VAGA OLÍMPICA?
Cogito, sim. A seletiva acontece em 2008, e meu compromisso no cargo atual termina em 2006. Cada vez mais vejo que não podemos nos impor limites. Se eu tivesse mais tempo, poderia fazer uma preparação física intensa, fortalecer muito a coxa e o abdômen e trocar a gordura por massa muscular para diminuir a desvantagem.  

EM QUE ATRAPALHA A FALTA DE UMA PERNA?
Minha agilidade nas manobras de um lado para o outro fica restrita. Já faço manobras muito bem, mas ainda sinto uma dificuldade. Outro problema é que o desempenho piora quando o vento fica forte. Nessa hora, tanto o timoneiro, no caso eu, quanto o proeiro, Marco Lagoa, têm de projetar o corpo para fora do barco. Isso equilibra a força da vela, gera potência e velocidade. Meu proeiro faz isso tão bem quanto os outros. Eu não consigo tanto, porque é preciso prender o corpo pelas pernas. Tendo uma só, há uma sobrecarga.

POR QUE NÃO VELEJAR COM PRÓTESE?
Já pensei nisso. Eu tenho uma alemã que é das melhores. Cheguei a velejar uma vez com ela, mas não dá. É preciso ter controle de cada movimento, e a prótese é uma coisa estática. Só me trouxe desconfiança, diminuiu minha agilidade. Virou um entrave. O barco tem uma infinidade de cordas. Se algo se enrola na prótese, não percebo. Isso pode causar um acidente e até dificultar o salvamento. Ela pode ser muito boa para caminhar, mas no barco definitivamente não serve.

MAS O SENHOR TAMBÉM NÃO USA PRÓTESE NO DIA-A-DIA.
Minha movimentação com a prótese fica muito reduzida. A parte remanescente da minha coxa é muito pequena. Além disso, sofri dez cirurgias logo após o acidente, e nesse processo perdi músculos importantes da região. Na prática, fico mais lento em pisos irregulares, escadas ou rampas. Mas alguma hora vou ter de adotar a prótese. Usar muletas sobrecarrega meus braços e minha perna e provoca desgaste nas articulações. Mas preciso tirar seis meses para isso, porque é um processo que envolve a execução de moldes e cirurgias corretivas.  

COM QUE FREQÜÊNCIA O SENHOR VELEJA?
Um ou dois fins de semana por mês. É pouco. Antes a dedicação era total. Eu treinava dentro da água quatro a cinco vezes por semana e fazia atividade física seis dias por semana.  

POR QUE ESCOLHER A CLASSE STAR, A MESMA DE SEU IRMÃO TORBEN?
É a única em que eu posso competir. As outras requerem um trabalho de pernas muito maior, incluindo aquela em que fui medalhista olímpico, a Tornado. Foi o próprio Torben que me incentivou a velejar na Star. No início, fiquei um pouco temeroso, mas aceitei o desafio dele. Muitas vezes uso as velas sobressalentes do Torben.  

O SENHOR SE SENTE UM SÍMBOLO?
Sei que tenho uma responsabilidade. Busco também contribuir para a sociedade com um exemplo de superação. Quero que isso venha a estimular portadores de deficiências de menor importância. O limite pode estar muito além daquilo que você mesmo se impõe.

 
 
 
 
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