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André
Petry
O deus do mundo
"O governo dos Estados
Unidos acabou
aliado dos genocidas do Sudão. A matança
inclui crucificar as vítimas, jogá-las na
fogueira, arrancar-lhes os olhos e queimar
barracos com crianças dentro"
A mentalidade fundamentalista do presidente
americano George W. Bush, um político que tem a si mesmo
na conta de interlocutor direto de Deus, está produzindo
uma era de trevas infortúnio que em seu país
se materializa no combate ao aborto, na guerra ao casamento homossexual,
no boicote a pesquisas científicas e até mesmo na
mal disfarçada tolerância com a tortura de terroristas.
Agora, cegada por seu belicismo e imbuída do espírito
cruzadista, a Casa Branca está sendo empurrada para um caminho
ainda mais obscuro: a defesa enviesada de um crime contra a humanidade.
Aconteceu o seguinte: funcionários do governo americano estão,
neste momento, empenhados em impedir que os governantes do Sudão,
o maior país da África, sejam processados pelo Tribunal
Penal Internacional pelo genocídio étnico que estão
fazendo na região de Darfur, matança que inclui crucificar
as vítimas, jogá-las na fogueira, arrancar-lhes os
olhos e queimar barracos com crianças dentro.
Bush não é simpático
aos genocidas do Sudão, que, além de tudo, ainda usam
o estupro como tática de guerra. O problema é que
o governo americano não quer nem pensar na possibilidade
de que, um dia qualquer, seus próprios militares aqueles
que torturam prisioneiros no Iraque ou na base de Guantánamo
também sejam conduzidos ao banco dos réus do
Tribunal Penal Internacional. Para tanto, os Estados Unidos não
querem legitimar o tribunal, aceitando que proceda a um julgamento
dos sudaneses. O resultado prático é que, para proteger
seus militares de uma eventual acusação, o governo
americano está circunstancialmente aliado aos matadores do
Sudão. É companhia da pior qualidade. Examinando-se
à primeira vista, parece curioso que, apesar disso tudo,
apesar de ter indicado como procurador-geral da República
um sujeito que já defendeu publicamente a tortura, apesar
de ter se enrolado numa constrangedora fieira de mentiras para justificar
a invasão do Iraque, apesar de tudo isso, ainda se diz que
George W. Bush foi eleito numa crescente maré de defesa de
"valores morais".
E o pior é que foi mesmo. Só
que, voltando ao ponto inicial, Bush parece ser hoje o mais poderoso
representante de valores da escuridão, do atraso, da estreiteza
conservadora e, é claro, do patriotismo aquilo que
o pensador inglês Samuel Johnson dizia ser "o último
refúgio dos velhacos". É natural que um governo se
empenhe na defesa de seus cidadãos, civis ou militares, mas
é uma má notícia que tal defesa atropele até
mesmo a condenação de crimes contra a humanidade
e que isso venha justamente da terra da liberdade e da democracia.
Bush já tem toda a razão de achar que pode
mais que isso: sendo um fundamentalista, ele acha que deve
invadir outro país mesmo sem consenso internacional, como
fez com o Iraque. Tem razão ainda de fazê-lo com os
argumentos que bem entender, pois, quando se descobriu que os tais
estoques de armas de destruição em massa eram histórias
da carochinha, ficou tudo por isso mesmo. É um sinal perigoso
que tenha agora conseguido barrar o julgamento dos assassinos em
massa no Sudão.
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