Edição 1891 . 9 de fevereiro de 2005

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O deus do mundo

"O governo dos Estados Unidos acabou
aliado dos genocidas do Sudão. A matança
inclui crucificar as vítimas, jogá-las na
fogueira, arrancar-lhes os olhos e queimar
barracos com crianças dentro"

A mentalidade fundamentalista do presidente americano George W. Bush, um político que tem a si mesmo na conta de interlocutor direto de Deus, está produzindo uma era de trevas – infortúnio que em seu país se materializa no combate ao aborto, na guerra ao casamento homossexual, no boicote a pesquisas científicas e até mesmo na mal disfarçada tolerância com a tortura de terroristas. Agora, cegada por seu belicismo e imbuída do espírito cruzadista, a Casa Branca está sendo empurrada para um caminho ainda mais obscuro: a defesa enviesada de um crime contra a humanidade. Aconteceu o seguinte: funcionários do governo americano estão, neste momento, empenhados em impedir que os governantes do Sudão, o maior país da África, sejam processados pelo Tribunal Penal Internacional pelo genocídio étnico que estão fazendo na região de Darfur, matança que inclui crucificar as vítimas, jogá-las na fogueira, arrancar-lhes os olhos e queimar barracos com crianças dentro.

Bush não é simpático aos genocidas do Sudão, que, além de tudo, ainda usam o estupro como tática de guerra. O problema é que o governo americano não quer nem pensar na possibilidade de que, um dia qualquer, seus próprios militares – aqueles que torturam prisioneiros no Iraque ou na base de Guantánamo – também sejam conduzidos ao banco dos réus do Tribunal Penal Internacional. Para tanto, os Estados Unidos não querem legitimar o tribunal, aceitando que proceda a um julgamento dos sudaneses. O resultado prático é que, para proteger seus militares de uma eventual acusação, o governo americano está circunstancialmente aliado aos matadores do Sudão. É companhia da pior qualidade. Examinando-se à primeira vista, parece curioso que, apesar disso tudo, apesar de ter indicado como procurador-geral da República um sujeito que já defendeu publicamente a tortura, apesar de ter se enrolado numa constrangedora fieira de mentiras para justificar a invasão do Iraque, apesar de tudo isso, ainda se diz que George W. Bush foi eleito numa crescente maré de defesa de "valores morais".

E o pior é que foi mesmo. Só que, voltando ao ponto inicial, Bush parece ser hoje o mais poderoso representante de valores da escuridão, do atraso, da estreiteza conservadora e, é claro, do patriotismo – aquilo que o pensador inglês Samuel Johnson dizia ser "o último refúgio dos velhacos". É natural que um governo se empenhe na defesa de seus cidadãos, civis ou militares, mas é uma má notícia que tal defesa atropele até mesmo a condenação de crimes contra a humanidade – e que isso venha justamente da terra da liberdade e da democracia. Bush já tem toda a razão de achar que pode – mais que isso: sendo um fundamentalista, ele acha que deve – invadir outro país mesmo sem consenso internacional, como fez com o Iraque. Tem razão ainda de fazê-lo com os argumentos que bem entender, pois, quando se descobriu que os tais estoques de armas de destruição em massa eram histórias da carochinha, ficou tudo por isso mesmo. É um sinal perigoso que tenha agora conseguido barrar o julgamento dos assassinos em massa no Sudão.

 
 
 
 
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